BOLSONARO, COMO JÂNIO, FICOU PENDURADO NO PINCEL

Convenci-me de que Bolsonaro foi aluno negligente de instrução militar e não melhorou a sua aplicação nos cursos ulteriores.

Na Academia, na ESAO, na Escola de Estado Maior e por onde andou, nos estandes de tiro e nas competições nas raias dos 100 metros rasos…

Esticou mais a corda do que conseguiria segurá-la. Armou-se de presepadas, anunciou medidas que não poderia cumprir e realizar. Fragilizou a limitada autoridade que pretendeu exercer investido nas competências que não soube usar.

O pouco de substância da sua perturbada plataforma de governo desfez-se nas palavras atribuladas de quem não entendia com clareza o que propunha aos incautos. Ainda assim, impulsionado pelas frustrações populares e até mesmo as decepções recolhidas de uma certa elite esclarecida, acumuladas em dois governos e três mandatos sucessivos, conseguiu o que parecia impossível e improvável à militância da esquerda e aos condestáveis das velhas oligarquias redivivas — eleger-se.

Privado de compostura nas artes da governabilidade e do domínio dos mistérios da composição dos contrários, o recém-chegado perdeu o respeito pelo exercício da representação política e pelas imposições do mandato.

Decerto não realizou sozinho esse ambicioso projeto de conversão dos ímpios às graças do pastoreio das virtudes essenciais da fé e da limpeza ideológica dos pecadores. Construiu alianças suspeitas, avançou, vacilou e, à falta de lideranças solidárias, cedeu ao primarismo dos que foram conseguindo influenciá-lo. Armou e fortaleceu as hostes radicais da esquerda e da direita, sem que se desse conta das consequências fatais que acompanhariam esse processo de transfiguração ideológica.

Deu as costas aos homens de saber e voltou-se para os néscios e deles fez a sua corte.

Abriram-se as brechas de risco da ordem institucional, as instituições foram sendo dissolvidas com palavras, omissões e gestos, as precedências e a harmonia entre os poderes republicanos foram diluídas em práticas heterodoxas consentidas.

A mediocridade crescente assomou aos quatro cantos, altiva e pretensiosa como o são, em geral, os parvos, destituídos de razão e bom senso.

Aos anos desperdiçados em passado próximo, ao embalo de “progressistas” de toda ordem somaram-se o despreparo e a dissimulação ousada de políticos, agentes públicos, parlamentares e intérpretes da lei.

E assim chegamos, exauridos por tanta indignação, ao entardecer prematuro de um governo ao qual faltou respeito até mesmo às próprias obras e intenções.

Sem alternativas, ao sabor da ambição de aventureiros e das velhas oligarquias “modernas”, encolhemo-nos em nossa covardia cidadã, calamo-nos e nos aprumamos para agarrar as sobras das oportunidades que dissimuladamente nos farão mudar de opinião, recolher a indignação passageira e agitar as mesmas bandeiras que, no Brasil, sempre conduziram a uma sinecura nas ilhargas do Estado.

O problema é que o Brasil é “brasileiro” demais (“isonero”, quem sabe?) para encarar tantos e tão penosos desafios.

Como em Zorba, o grego, os conflitos terminavam aos domingos, ao som do Sirtaki, no Pireu, no Brasil nossas batalhas não resistem a um sábado de muito sol, na praia ou a uma roda de samba. Em uma mesa de bar, somos revolucionários imbatíveis. Mudamos o mundo, condenamos e absolvemos os virtuosos e os pecadores. Arrotamos ideias mal assimiladas do “gotha” totalitário.

E assim, conferidos e exaltados por tanto patriotismo, unimo-nos na saudação ao por do sol, na praia de Ipanema (metáfora das nossas cívicas intenções) – e aplaudimos, comovidos, o sol, astro solitário do espetáculo deslumbrante da natureza.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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