BOCA E CORPO SE DESMENTEM

Sou um andarilho das avenidas da linguagem.

Minhas maiores caminhadas são pelas “highways” da fala silenciosa do corpo que têm sido bem asfaltadas, do alvorecer do século XIX até hoje.
Vastas publicações com qualidade invejável encantam os admiradores da dança das linguagens verbal e não verbal.
Quando estudante de Comunicação Social nos anos 60, estudamos os movimentos de fala de Dom Helder Câmara, de Chacrinha, de Roberto Carlos, dentre outros.
Hoje o descompasso nas comunicações surpreende.
Vejamos:
O Presidente da República diz: “Deus acima de tudo” com uma arma na mão, “e o Brasil acima de todos” negando a evolução científica e tirando conquistas sociais seculares;
O Brasil alegre corre cabisbaixo para, provavelmente, receber o troféu de homicida da Covid-19;
O brasileiro, povo feliz chora copiosamente a perda massiva de entes queridos;
 Pessoas de fé tremulam as mãos ao descaroçar terços, buscando salvar almas;
Estômagos sadios se contorcem com a dor da fome;
Corpos vigorosos estendem as mãos para receber doações de alimentos;
Pessoas “boas” grilam terras e exploram seus semelhantes;
Governos arrecadam impostos do povo pobre e montam estruturas ricas de poder e exploração;
Lá, bem distante, no escuro da noite, um cachorro uiva com a cabeça levantada para o céu, procurando farejar o seu dono;
Na casa grande, burgueses “patriotas” agouram a recuperação do mercado e apostam em cifras ascendentes. A vida pouco importa, o dinheiro, sim;
Coxinhas* se espalham por várias instâncias de poder, dando a ele sustentação.
Dos personagens acima, só o cachorro demonstra congruência na sua linguagem verbal e não verbal.
Sorrio ao ver o Presidente usando máscaras e correndo para o isolamento social com cloroquina na mão. Um lampejo de bom senso se não fosse a exibição do placebo, insultando cientistas que se comportam de forma irrepreensível.
Gargalho ao ver “autoridades”, desejando-lhe breve restabelecimento para voltar a trabalhar pelo Brasil.
Macaqueação total. Incongruência gritante. Boca e corpo se desmentem, expressando conteúdos linguísticos que se opõem.
O ridículo impera.
Cruz-credo! Mas a história fará justiça.

*Coxinha: pobre que apoia rico.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar de Oliveira, Professor Universitário.

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