Bíblia: um livro de todos, mas “posse” de alguns, Por EMANUEL FREITAS

Depois de tomar posse com fardamento militar e um exemplar da Bíblia em mãos, o deputado federal Irmão Isidorio (AVANTE-BA), conhecido em Salvador por afirmações um tanto quanto não-convencionais, postou-se de “sentinela” para ser o autor do primeiro requerimento de aprovação de Projeto de Lei na nova Legislatura, iniciada no último dia 1º de fevereiro. Caso seja aprovado o projeto, a Bíblia, livro sagrado tão somente dos cristãos, passará a ser “patrimônio nacional, cultural e imaterial do Brasil e da humanidade”. Com apenas duas linhas escritas, tem-se um projeto de lei que, originado de um deputado eleito por um estado da federação, a Bahia, de um país preciso, o Brasil, pretende declarar algo como patrimônio “da humanidade”, legislando em nome desta.

Ocorre que a Bíblia não é livro sagrado nem para judeus (que só reconhecem a Torá), nem para islâmicos (que têm o Alcorão), nem para ateus, candomblecistas, hinduístas, budistas, povos do Antigo Egito (a lista é infindável) e tantas outras crenças religiosas produzidas, assim como o cristianismo, pela humanidade, ou seja, por homens; muitas delas, inclusive, nem são religiões “de livro”, perdurando, no tempo, por meio das dinâmicas da oralidade. Mas, o deputado pretende-se legislador de todas elas, sejam quais forem.

Junte a isso o fato de que precisaríamos definir que Bíblia seria declarada como tal “patrimônio”, uma vez que aquela utilizada por católicos tem sete livros a mais do que a manuseada por protestantes, como é o caso do deputado-sargento-irmão.

No pleito de 2016, quando disputou a prefeitura de Salvador, Isidorio protagonizou bate-boca com Alexandre Garcia, da TV Globo, revidando o direito de quebrar as regras do debate, que proibiam exibição de livros ou documentos, e passou a ler trechos da Bíblia, sob a alegação de que “cultura é ler a Bíblia”, e que, ao ser questionado pelo apresentador quanto ao uso do livro, respondeu que não se tratava “de um livro”, mas de um “patrimônio imaterial do estado da Bahia”.

Contudo, logo após protocolar tal projeto, o mesmo deputado apresentou outro, em que se proíbe “o uso do nome e/ou título Bíblia ou Bíblia Sagrada” que não se coadune com o uso já realizado por “diversas religiões cristãs”. Além de não saber que não existem “religiões cristãs” no plural, pois “religião” é o cristianismo, com suas várias ramificações, o deputado ainda desvela a falácia de seu projeto que declara a Bíblia como “patrimônio da humanidade”, mas um patrimônio cujo reserva-se apenas a uma parcela desta humanidade: os cristãos. Legisla-se em nome de todos, mas reserva-se o uso a alguns, não por acaso aqueles que se encontram, a partir da função de legisladores, no poder.

Assim operam os setores reacionários que, sob a alcunha de “soldados de Cristo”, travestem-se de representantes da “maioria”, que é, obviamente, “cristã”, para tiranizarem sobre a minoria, não-cristã (basta o leitor lembrar-se das declarações de nosso presidente ainda na condição de candidato). E, o pior de tudo, é quando tais homens do poder vestem-se como se estivessem indo a um combate, com insígnias militares. “Que Deus tenha misericórdia dessa nação”, como bradou Eduardo Cunha!

 

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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