BAÚ DE TEXTOS – Eu e as minhas idiossincrasias

“Esquecem que cada homem só vive e é grande quando mostrado integralmente. Nos seus acertos e erros. Nos acertos e erros dos outros sobre sua pessoa.”¹

 

ARRE ÉGUA, BRASIL!!! (3 DE AGOSTO DE 2017)

Ainda trago comigo, guardados no compartimento menos vulnerável da minha sexagenária memória, muitos ensinamentos básicos apreendidos lá pelos idos dos anos sessentas – há meio século, pois –, entre o Grupo Escolar Monsenhor Manuel Cândido (saudades de minhas professoras, em especial dona Maria de Jesus Castelo Branco, dona Clarinha, dona Valdeci, dona Sílvia e dona Zizinha) e o Ginásio Salesiano Domingos Sávio (saudades de meus professores, em especial padre Antônio da Silveira Paixão, padre Luiz Sávio Prata, o diretor, padre Manoel – o astrônomo e responsável pelo Oratório Salesiano, entidade voltada para ações religiosas e educacionais de natureza essencialmente sociais, direcionadas, pois, para pré e adolescentes de famílias de baixa renda (naquele tempo isso já existia) –, padre Luís Carlos, o conselheiro, e o irmão Robério, o eficiente e rigoroso secretário), ou seja, entre o entorno da matriz de Nossa Senhora da Palma e a parte mais alta da avenida Dom Bosco – que interliga o bairro Putiú e o centro da minha querida Baturité, cidade que me viu nascer, “criançar”,”amolecar”, adolescer e tornar-me adulto, e de onde saí já casado, numa eterna parceria.

Desses ensinamentos, um deles merece, hoje, ser evidenciado. Ei-lo: Os políticos são pessoas de influência que, escolhidos pelo povo, assumem o compromisso de representá-lo nos vários níveis do poder (que, na essência, devia ser “público” porque emana do povo; embora já nem mais o seja!).

O que nos foi dado assistir², ontem, constituiu mais uma comédia bufa em circo mambembe, um espetáculo burlesco, vexatório, risível, em que vem se especializando o processo político-partidário/político-eleitoral brasileiro, por meio do qual se agudiza a desmoralização do mandato eletivo, em face do distanciamento, cada vez mais flagrante, entre o povo e a política, a cidadania e as instituições políticas, entre nós – os eleitores – e eles – os eleitos, os apaniguados, os incensados (ou insensatos, como queiram).

Ainda estremunhado – não com o resultado: favas contadas, mas com o estilo nada apreciável dos que protagonizaram a farsa –, resgatei duas postagens minhas, em resposta às de dois amigos que aprendi a reverenciar, as quais ora republico.

11 de junho de 2017

Prezado amigo Cleyton Monte,

Ouvi, em programa de entrevistas na CBN, na manhã de um dos dias da semana passada, o autor de livro sobre a corrupção no Brasil (não me recordo do nome nem do título; uma questão de memória empobrecida pela perda natural de fontes sinápticas). Ele chegou a afirmar que “a nossa pátria, mãe gentil” está se transformando “no maior centro de produção de marginais do mundo, em todos os níveis”. Desde o assaltante de celulares (uma versão moderna e estilizada do antigo ladrão de galinhas ou do batedor de carteiras) aos assacadores dos cofres públicos, incluindo empresários de patrimônios rechonchudos que universalizam as mais variadas práticas marginais. Tudo acobertado (a Justiça, segundo ele, apenas levantou a ponta do enorme lençol que encobre toda a nojeira) por pseudolideranças políticas que nada veem, nada ouvem, de nada sabem.

E ainda há quem as defenda como heróis, quem as idolatre como divindades.

É isto mesmo, professor e doutor: aqui o negócio é diferente. Muito diferente!

Em tempo.

Há uma frase que já me perturba e que, certamente, tem-me tornado tão crítico. Ei-la: “E quem paga a conta somos nós.”

12 de junho de 2017

Prezado amigo Cirilo Neto,

Você me fez lembrar a minha professora de Produção Textual, na Especialização (Letras/UFC), para quem todo texto acadêmico – desde o tradicional TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) à Tese de Doutorado e seus rigores de pesquisa científica, embasamento teórico e elaboração escrita – deve ser antecedido de um TEMA bem delineado, que abranja integralmente o assunto que se pretenda explorar, mas submetido a uma delimitação tão necessária que acaba se tornando obrigatória.

No caso da corrupção no Brasil, a amplitude do fenômeno é de tal envergadura que todo e qualquer estudioso/cientista/autor, se se dispuser a debruçar-se sobre ele, terá necessariamente de apelar para a delimitação, espacial e/ou temporal.

Assim, tecnicamente poderíamos justificar a proliferação de publicações sobre “rapinagem e pilantragem” em solo pátrio. Inúmeras são as alternativas: na aridez dos planaltos; na beleza exótica das praias; nas perfurações em águas profundas de bacias petrolíferas; no sofrimento secular embrenhado nas veredas dos sertões; na natureza invulgar e pródiga da floresta amazônica; nas arenas multiúso com que se pretendia mostrar ao mundo a pujança do país do futebol; no isolamento imposto e merecido das penitenciárias; na marginalidade do tráfico de influências, tanto em confortáveis ambientes de decisões nem sempre republicanas quanto nos obscuros nichos de negócios espúrios onde proliferam as múltiplas versões das drogas ilegais, ambos promotores e mantenedores da violência urbana; no longínquo império de um povo heroico; no berço militar da República; na prodigiosa era do café com leite; na popularesca era Vargas; na onírica construção de Brasília; na mão de ferro do regime militar; no descalabro inflacionário do filho de dona Queola; nas roxas bravatas do collorismo; nos devaneios luláticos e nas frustrações dilmáticas; na temerosa atualidade. Como é possível perceber, plúrimas são as possibilidades, pois sempre há um terreno fértil, “onde se plantando tudo dá.”

Um abraço fraterno a todos os brasileiros de boa vontade.

Ainda não somos uma Venezuela. Ainda não chegamos lá. A competição tem se mostrado acirrada. Até porque prossegue em pleno “amadurecimento” o processo de destruição nacional instaurado pela Revolução Bolivariana de Chávez.

Arre égua, Brasil! Mira-te em outros exemplos!

 

“Se os que têm uma visão bondosa dos fatos se abstêm de comentá-los, deixam o campo livre para os bichos rastejantes que babam no tronco das grandes árvores. Se não se toca nesses assuntos, acabam os homens distorcidos e esvaziados de substância humana que neles habitam.”³

 

NOTAS DO AUTOR:

¹ Pedro Nava, em Baú de ossos – São Paulo: Companhia das Letras, 2012; pág. 253.

² A Câmara Federal aprovou, em sessão de 2 de agosto de 2017, a proposta de arquivamento da denúncia de corrupção passiva formulada pelo então procurador Rodrigo Janot contra o então presidente Michel Temer, que poderia ter sido apeado do poder. Vocês, amigas e amigos, têm ideia de quanto isso custou aos combalidos cofres do Erário federal?!

³ Pedro Nava, em Baú de ossos – São Paulo: Companhia das Letras, 2012; pág. 253.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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