Banco Central: siga na estrada, freio de mão puxado

O Banco Central tem todas as condições para ser uma instituição exemplar, de alto desempenho, para dar uma contribuição decisiva para o desenvolvimento do país. Tem um quadro profissional concursado, qualificado, treinado e muito bem pago. Alçou o nível de independência e o momento é pleno de oportunidades.

Infelizmente, a instituição optou pela mediocridade. Acomodou-se à inércia. Baixou a vista, colocou a linha do horizonte nos pés, submeteu-se a conveniências particulares e nada produz que lhe confira reconhecimento de mérito.

A gestão que o banco central faz da dívida pública interna é a mediocridade perfeita. Escolhe pagar juros disfuncionais e desproporcionais de treze por cento sobre uma dúvida de seis trilhões de reais (ou seja, oitocentos bilhões por ano). Não parece um escândalo. É um escândalo. Sobretudo porque absolutamente nada, nem ninguém o impede de escolher pagar apenas a metade.

A função do sistema financeiro é financiar o desenvolvimento, através de empréstimos que dinamizem negócios. O Banco Central tem autoridade sobre o sistema bancário brasileiro. Escolheu não usar essa autoridade. Finge que não vê o empresário e o trabalhador brasileiros serem lesados por taxas de juros que envergonhariam o agiota mais cruel. Sim, o crédito no Brasil é escasso, raro, quase inacessível, de curtíssimo prazo e tem custo insuportável. O Banco Central nada faz, só finge que isso não é com ele.

E o papel do banqueiro? O sistema bancário não gosta de emprestar, tem aversão a risco e prefere fazer lucros fabulosos nas transações de câmbio e de títulos da dívida interna, onde, na outra ponta o ator mais provável é o Banco Central. Ora, não é à toa que a taxa de câmbio no Brasil desenha nos gráficos uma trajetória de montanha russa.

E o espírito empreendedor? E por que alguém montaria um negócio industrial cheio de desafios e incertezas se pode encher os bolsos com os juros gigantes de títulos de segurança total e liquidez plena? Pois é, o espírito passa de empreendedor a acomodado. E o dinheiro vai pra dívida pública sob as bençãos e estímulos sutis do Banco Central.

A mediocridade do Banco Central é histórica e não tem conexão com a independência ou com este ou aquele servidor ou diretor. É escolha. É vocação. É inércia. Vem de longe.

O país paga um preço enorme por isso. Imagine um carro a percorrer uma longa estrada com o freio de mão puxado. Esse carro não tem chance de fazer uma boa viagem e chegar a bom destino.

Os banqueiros se dão muito bem com esse modelo. Sempre se deram. Eles impuseram essa formatação e a ela se acomodaram. Resultado: o país tem um banco central e um sistema bancário medíocres. O crescimento econômico medíocre é uma das consequências inevitáveis.

Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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Osvaldo Euclides de Araújo

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.