As multifaces do agro (Parte 2)

A agricultura foi, sem sombra de dúvidas, uma das maiores responsáveis pela transição do ser humano do estado primitivo/nômade, ao estado de ser social sedentário (fixo). Desde o momento em que se observou que o ato de pegar uma semente e introduzi-la ao solo, daria origem a uma planta semelhante àquela de onde se havia coletado a semente, descobriu-se aí, que o problema da fome poderia ser sanado. Mas, dez mil anos depois desta fantástica descoberta, por que a fome ainda é um problema tão recorrente?

O tema fome, é algo que divide opiniões. Uns dizem que há alimento suficiente para toda a humanidade, no entanto é mal distribuído. Outros defendem que não há como alimentar bilhões de pessoas, sem aumentar a produção de alimentos. No entanto, o ponto nodal não é explorado com a devida importância. O que leva milhares de pessoas em todo o mundo, a não terem acesso a alimentação básica? O fato de não terem dinheiro para adquiri-la!!!???

Percebem a estupidez da justificativa? Como justificar que vidas são perdidas diariamente, pelo simples motivo de não possuírem um pedaço de papel (moeda), onde nele foi embutido um valor abstrato, mas que no fundo, não passa de um simples pedaço de papel.

Como explicar aos nossos antepassados, que o fantástico descobrimento da agricultura, que nos propiciou e ainda propicia, tantos avanços sociais e tecnológicos, não está cumprindo seu principal papel, que é o de combater a fome? Mas será que o real problema está no agro em si? Será que estamos apenas errando, no modelo de aplicação das práticas agrícolas? Será que isso é apenas incompetência do setor agro? Ou seria algo mais profundo e abrangente?

Não, não se trata de incompetência e nem tampouco é uma questão apenas do agro. O fracasso social histórico no combate a fome, deve-se ao fato de que somos sujeitos automáticos, cujo a vida é mediada por uma abstração-real, o valor. Tal abstração, que é real e se concretiza no dinheiro, comanda todas as relações sociais, em todas as civilizações capitalistas. E quando falo capitalistas, me refiro também às sociedades ditas socialistas/comunistas, pois estas também, são mediadas pelo valor e o reproduzem assim como os ditos capitalistas.

A partir do momento que tudo passa a ser mercadoria, o valor de uso daquele objeto passa a ser secundário. Portanto, o arroz, o feijão, o milho, a batata e todos os insumos agrícolas (ou não), são meras mercadorias, que são produzidas com o único propósito de gerar valor e reproduzir o capital. E que portanto, só tem direito de possui-las, quem poder pagar por elas, independente se isso custar a vida de alguém. Esse é o modelo social em que estamos inseridos, e enquanto ele existir, o problema da fome nunca será resolvido, pois ela é apenas uma das consequências da sua reprodução. 

Não percam os próximos “capítulos” …

 

Dalila Martins

Dalila Martins

Dalila Martins

Maria Dalila Martins Leão é Eng. Agrônoma pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e atualmente é Mestranda em Agronomia/Fitotecnia pela mesma instituição. Amante da natureza e entusiasta na luta pela Emancipação Humana e Ambiental!

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