As conexões do capital globalizado

​“O que é mesmo minha neutralidade, senão a maneira cômoda, talvez, mas hipócrita de esconder minha opção ou medo de acusar a injustiça? Lavar as mãos em face da opressão é reforçar o opressor; é optar por ele”

Paulo Freire.

​Em 1917, quando Lênin e os bolcheviques tomaram o poder e terminaram com a participação da Rússia na guerra, que estava dilacerada diante da empáfia czarista e do prepotente ataque da Alemanha (que viria a perder a guerra, mesmo assim), foi possível que se fizesse ali o fechamento intramuros para a sobrevivência da revolução marxista-leninista, mesmo diante da ferrenha oposição dos guardas brancos e antipatia dos países aliados capitalistas do ocidente.

​Diante da penúria e da fome dos anos iniciais do pós-revolução russa, Lenin (que só veio a falecer em 1924, com a agravamento do seu estado de saúde, que vinha debilitado desde os anos anteriores) implementou a NEP – Nova Política Econômica, que flexibilizava a exploração comercial capitalista privada em alguns setores como forma de sobrevivência do povo russo, dizendo ele que era uma concessão temporária ao capital, cuja continuidade sob Stalin ele não pôde ver.

​A Rússia sobreviveu do mesmo modo que a China no pós-1949 em face de que seus imensos territórios propiciavam a sustentação da vida dos seus povos mesmo que de um modo rudimentar e rurícola, e num mundo que ainda era distanciado territorialmente e no qual as comunicações internacionais eram muito incipientes.

​Com a adoção e aprofundamento de um capitalismo de Estado que terminou por descambar para a economia de mercado mundial (inevitavelmente, graças à lógica intrínseca de necessidade de expansão do capital, que precisa de velocidade e crescimento sem a qual não sobrevive), estes países estão, hoje, interconectados de modo irreversível, caso persista viva a lógica capitalista atual, que adotaram sem pestanejar.

​Marx deve se contorcer no túmulo ao ver o que aconteceu em seu nome.

​Hoje tudo está profundamente diferente. O mundo regido por uma lógica capitalista one world tem um grau de interdependência que a falência de um dos grandes pode representar o agravamento mundial da crise capitalista.

Com o abalo sísmico de 2008/2009, suprido com a emissão de moeda sem lastro, estava claro que logo cedo o remédio se mostraria ineficaz, e novamente, já em 2019, a crise do capital voltou a dar sinais claros de exaustão, prejudicado por dois fatores não previstos anteriormente:

a) a crise ecológica causada pelo aquecimento global;

b) uma terrível pandemia virótica que obrigou as pessoas a permanecer em casa e consumir menos.

O capital perdeu ainda mais a sua necessária velocidade; caminha pra o cadafalso, e ameaça levar a todos nós para o buraco, caso não o superemos.

Este é o cenário sob o qual ocorre uma guerra imprudente levada a cabo por um policial lutador faixa preta de judô, que como mau leitor da cena político-econômica mundial, caiu nos braços da China sem saber que vai terminar como um menino assustado corre para o quarto dos pais com medo do fantasma numa noite de ventos uivantes.

A China capitalista não quer saber de comunismo, satisfeitos que estão os seus oligarcas (iguaizinhos aos oligarcas russos) e dirigentes políticos da cúpula do partido dito comunista, e já percebeu que pode tirar partido de uma amizade à moda da neutralidade suíça, e colher as vantagens de um mediador que agrade ambos os lados.

Não é por menos que retirou do ar na Rússia o seu sistema de comunicação por aplicativos Tik Tok, da Bytedance Chinesa, e não condenou a invasão à Ucrânia, e nem a aplaudiu, colocando-se em cima de um muro do tamanho da muralha chinesa.

É claro que a China pretende ter uma hegemonia político-econômica mundial a partir do deslocamento do dólar dos EUA e do Euro da UE como moedas dominantes do capitalismo mundial, para obter as vantagens próprias a quem detém força monetária emissora de uma moeda aceita no comércio internacional como meio de troca fiduciário acreditado como fidedigna representação do valor (mesmo que não o seja). Mas este jogo é duro, e vamos ter desdobramentos graves nos próximos anos.
​Estabelece-se, portanto, com esta guerra da Ucrânia, uma tentativa de deslocamento do eixo de esfera de influência do capitalismo internacional combalido, e isto pode representar uma nova fase de tais relações.

​Neste quadro, a esquerda institucional, democrático-burguesa, procura se aliar àqueles que julga uns, e fingem outros, serem os herdeiros do precursor ideal humanista do comunismo (que desde o início foi falsificado), sem se aperceber que tanto o ocidente capitalista como os capitalistas euroasiáticos travam uma luta titânica pela hegemonia político-econômica tal qual um grupo de famintos desesperados disputa os poucos alimentos que estão sendo distribuídos.

​O problema é que a ultradireita nazifascista, avessa à socialdemocracia burguesa, tem seus pendores totalitários ao melhor estilo do policial lutador russo, e ficam todos constrangidos ao se verem ladeados com os déspotas mundiais que dizem combater. Com Nicolás Maduro e Daniel Ortega ocorre o mesmo.

​Tudo ocorre no campo capitalista, seja com as bolhas financeiras que surgem como forma de dar vida ao capital desempregado, para em seguida se esvaziar e sumir do mapa tal qual uma bexiga de borracha furada por um alfinete, deixando os que delas participam com as mãos vazias;

– da inflação decorrente da emissão de moedas sem lastro na produção e venda de mercadorias que corrói o salários dos escravizados trabalhadores abstratos;

– dos recursos bancários carreados pelos rentistas de todo o mundo para pagamento de uma dívida pública cada vez maior e mais insolvável e que num futuro próximo representará um abalo sísmico em todo o sistema bancário mundial;

– da queda das bolsas de valores que fazem virar fumaça bilhões em segundos;

– de uma emissão de gás carbônico baseada na produção de mercadorias e transporte a partir do combustível fóssil (muitos se vangloriam do lucro da Petrobrás em face do aumento da valor do petróleo, já chegando a U$ 150,00 o barril) causador principal do aquecimento global;

– do desemprego estrutural que provoca o desespero a uma grande parcela da população e que incita o aumento da criminalidade e do crime organizado, seja ele praticado por oligarcas governamentais e traficantes de drogas, ou meninos pobres em formação para o crime;

​- do racismo estrutural, da homofobia e da misoginia patriarcal;

​- do empobrecimento cultural e apologia da má estética artística;

​- das favelas de ruas esburacadas e sem infraestrutura urbana nas cidades cindidas entre bairros ricos e pobres;

​- etc., etc., etc.

O capital é assassino. Uma vida social harmoniosa, na qual os indivíduos sociais se ajudem mutuamente e sejam responsáveis por seus erros e acertos na condução da via social, não degenera para a guerra.
​Todas as guerras havidas ao longo da história da humanidade sempre decorreram do desejo de dominação de uns sobre outros, e que vêm desde antes guerra do Peloponeso de 431 a 404 a.C, até esta guerra que está estarrecendo o mundo graças à demonstração da crueldade transmitida ao vivo por milhares de celulares, e em tempo real.

Uma morte assistida pela televisão ao vivo é mais tocante do que uma estatística que diz ter morrido alguns milhares de seres humanos.

Não se enganem, esta guerra apenas aprofunda a cisão entre blocos capitalistas que disputam hegemonia geopolítica, e nela não há heróis;

– ela apenas aprofunda a miséria capitalista mundial crescente;

– mas quiçá represente a formação de uma consciência social de superação ao mal que está subjacente a tudo isto: a sociedade do capital.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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