Apresentação do livro SINFONIA

Na pretensão de definir o meu livro com uma única palavra capaz de dar-lhe uma específica identidade, logo saltou de primorosa reação sináptica o adjetivo “diferente”. Simples assim, mas perfeito. Com efeito, o Sinfonia… esparge, em vários elementos que o caracterizam como livro, sinais que marcam essa peculiaridade, essa singularidade. Ressalto, por oportuno, alguns deles.
Logo na capa, traz excertos de textos que se oferecem por inteiro em seu âmago de papel Pólen Soft 90. Imita o Budapeste de Buarque? Talvez. Se sim, terá sido por reverência merecida e não por apropriação indébita.
Nas “orelhas” (ou seriam “ombros”?), carrega um texto datado de 25.4.2022 e firmado pelo próprio autor, cujo título já antecipa o teor do seu conteúdo – Puxavanco de orelhas ou pra não dizer que não falei de livros (uma quase sub-reptícia lembrança do tempo do “regime de exceção”, em cujo grave e crucial período acabei virando gente).
A lombada, por sua vez, compõe-na um poema que refere o mar e sua magia irrequieta: fluxo e refluxo. Na essência, é o que sou – sem tirar nem pôr –, tanto com minhas águas profundas, serenas, tranquilas e remansosas, quanto com minhas tempestuosas, furiosas e intrépidas ressacas (às vezes, literais).
No título, enfatizo a bem apropriada expressividade metafórica – música clássica e vida humana – que se revela no complemento: – em prosa – d’uma existência (prodigiosa); a do próprio autor. Autobiografia? Não, necessariamente. A rigor, não é este o seu propósito. (Mesmo asim, no meio da caminhada pelas suas longuíssimas sendas, entre os anos 19 – 1999 – e os 20 – 2000 –, o leitor vai se surpreender com uma proposital quebra da trajetória que, logo, será retomada; algo parecido com o sentido do vocábulo “hausto”, pelo genial carioca Millôr Fernandes atribuído à obra Um defeito de cor, da lavra da mineira-baiana Ana Maria Gonçalves – o que lá não há e aqui, sim). “Parabiografia”? Isto: uma quase-história de vida septuagenária, da minha peculiar existência terreal (o tempo por mim já vivido, consumido, consoante o pensar do pedagogo e escritor brasileiro Rubem Alves), compondo – ou mais ou menos isto – movimentos sinfônicos: Prelúdio (Allegro), Andante, Interlúdio, Minueto (Scherzo), Poslúdio (Rondó).
Na apresentação ou “porta de entrada”, instilo duas gotas de Poesia: uma, pra despertar para a jornada, em versos – Entre sicômoros e crisântemos (Um poemeto de acabamento); a outra em prosa – Musa minha, perdão! Já no Epílogo ou “porta dos fundos” (de saída), infundo, para aplaudir e agradecer, mais duas expressões poéticas: uma em prosa – Mensagem; a outra em versos – Outros valores.
Em resumo, ele é diferente. Não por ser robusto, corpulento, atípico (fora do padrão), assustador; mas por ser abundante e pródigo (sem ser perdulário), além de generoso (nada sovina ou, como chamavam “essa coisa” lá no meu sertão d’antanho, nada de pão-duro, unha de fome ou mão-de-vaca) nos seus 140 textos de estimulante e cativante leitura, aqui e acolá entremeados de poemetos, afinal, como bem diziam os lusitanos, “duro com duro, não se constrói bom muro”. Ora pois!​
GÊNESE DA OBRA. A ideia, ainda incubada no recôndito da irrequieta alma, eclodiu em pleno aniversário da minha filha mais nova, a Juliana (1º.11.2021), certamente estimulada pelo livro Sessenta – Uma miscelânea textual, por mim produzido artesanalmente e distribuído entre familiares e amigos, como marca da minha sexagenária idade (2012). Nada de mais repetir o ato, 10 anos depois.
O projeto não consumiu muito tempo. O título, com seu teor poético e metafórico, manteve-se inalterado: é original. A proposta de diagramação, também. O gênero – Contos e crônicas – não podia ser outro, obviamente (há algum tempo, já escrevia nessa linha, rotineiramente, para um perfil do Facebook e, logo depois, para o jornal eletrônico Segunda Opinião – segundaopiniao.jor.br). Agora, quanto ao conteúdo…
Originalmente, o Sinfonia… reuniria textos já publicados nos suportes do meu uso corrente, um para cada ano de minha existência terreal; logo, seria uma coletânea de 70 contos e crônicas. No andar da carruagem, entretanto, alguns solavancos alteraram a trajetória prevista no planejamento inicial. Havia textos que reclamavam de mim o “injustificável desprezo”. E eles sempre tinham razão. E, ainda mais, o que fazer com os que eu ia produzindo ao longo desta específica e laboriosa caminhada? Não me sobrou alternativa, a não ser a de rever o projeto original. E a regra de “um texto por ano vivido”, modifiquei-a para “um texto por semestre vivido” – do 52.1 (ano do nascimento do autor) ao 22.2 (ano da publicação do livro). E assim gestei e dei vida ao Sinfonia…, com mais de oitocentas páginas de variegadas opções de leitura. Vale a pena lê-lo…
LABORAÇÃO DA OBRA. Sou um escritor temporão (o tempo já não mais me permite sentir receios, temores). Descobri-me assim em meio à proposta que me impus tão logo aceitei o incentivo da minha filha primogênita – a terapeuta ocupacional, pedagoga e professora Marylia Luciana – para criar e manter um perfil no Facebook, com o propósito de dotar essa rede social de um quê de “inteligência”. E as postagens foram adquirindo “roupagem” literária. Os amigos me estimularam a dar à minha escritura o formato de livro. E vieram, na sequência, o Sessenta – Uma miscelânea textual (o meu livro de estreia; marcou a minha sexagenária idade, repito); os dois My Book of the Face – O meu livro do atrevimento; os dois Eu e o Segunda Opinião (aí eu já combinava postagens no Facebook com publicações em jornal eletrônico); o Contos & Crônicas; o Mesa de Bar; o Eu Poético; o Cenas, Recortes e Retalhos – Do cotidiano de um cidadão brasileiro; e os dois Espasmos de Lucidez.
Cabe ressaltar que todos eles resultaram de “produção caseira”, artesanal. Explico: produção textual, digitação, correções, diagramação, impressão (em impressora jato de tinta, “de tanquinho”; folha a folha e exemplar a exemplar) e revisão textual, disso tudo cuidei eu, perfeccionista de raiz; apenas a confecção de capa, encadernação e corte final, confiava a dois amigos (Bernardo e Ulisses, artífices nesse mister). Curtas eram as tiragens, e os exemplares eu os distribuía entre familiares e amigos.
Assim, o Sinfonia… é o décimo segundo filho do meu irrequieto espírito, elaborado identicamente aos outros – com prazer, zelo e rigor –, mas com uma única diferença: a fase da impressão, assim como as outras que lhe seguiam, agora com o “revestimento” do “profissionalismo convencional”, então confiado à já tradicional Expressão Gráfica Editora, que, em junho (mês consagrado aos festejados santos Antônio, o casamenteiro, João e Pedro, os fogueteiros, cujo desatamento do laço inaugural consiste em competência a mim delegada, o que muito me honra) de 2022, disponibilizou os mil exemplares da obra.
SUGESTÕES DO AUTOR. Como todo e qualquer livro, o Sinfonia… “nasceu” e corporificou-se para ser lido; afinal, esta – a leitura! – se constitui na sua principal, insubstituível e inafastável função. Se assim não for, ele deixa de sê-lo… transformar-se-á, na melhor das hipóteses, em inexpressivo – que absurdo! – enfeite de estante. E ele merece ser lido por inteiro – capa a capa –, incluindo as suas orelhas (inusuais, também!). Entretanto, há entre as suas múltiplas narrativas, as que não podem deixar de ser lidas, como, por exemplo: a) Igual a mim, 47; b) Em milímetros, 87; c) Pai, cadê a mãe?!, 131; d) Domingos, 177; e) E a morte não costuma celebrar acordos, 208; f) Por um triz, 215; g) Azar do xará, 256; h) Dona Hipotenusa e seus dois catetos, 287; i) Mal de Carnaval: tudo se faz possível… até cinzas!, 297; j) Retalhos do cotidiano: fogo fraterno, 352; k) Um outro conto de Natal, 400; l) Simplesmente José ou mestre Olavo, 416; A barca da travessia derradeira, 463; n) Contos de Natal – Em perspectivas distintas, 468; o) A essência da vida, 491; p) Dizem que os bêbados veem coisas, 505; q) Fique em casa, senão…, 535; r) O estomacal, seu Lunga e Maria Preá, 566; s) Conto de Natal, 609; t) Simplesmente Lucíola (Sonho, aventura e proposta de perdição), 669; u) Retalhos de vidas: do amor ao ódio… uma quase-tragédia, 728; v) Porque Lili Se-não-me-queres-não-me-iludas não deixou que lhe atravessassem o virginal triângulo das Bermudas, 780; w) Retalhos do cotidiano – Escapou fedendo, hein!, 784; x) Não discuta com quem pode… ou Papo de cambista, 828; y) Zona de reconforto, 829; z) Relatos comoventes e autoridade inconsequente – Pesadelo , 854.
Ufa! Se o alfabeto tivesse mais letra… hein?! Não seja por isso… sugiro mais três narrativas; até porque, considerando o universo que lhe serve de base, a lista até que não chega a ser exagerada: a.1) Viver é perigoso, 160; b.1) Avida e suas complexidades, 196; e c.1) A língua dos outros, 408.
CONCLUSÃO: O AUTOR E A SUA OBRA. Os meus textos, eu os amo… um amor só comparável ao que dedico às milhas filhas; “Afinal, são elas e eles (…) o que de melhor fui e sou capaz de re-produzir”. Acerca das minhas narrativas, assinalo, por fim, que “Como o pastor apascenta as suas ovelhas, o jardineiro rega as suas plantas, a mãe agasalha e amamenta os seus filhos, o poeta saboreia o prenúncio da madrugada ou o raiar do alvorecer ou o crepuscular do entardecer ou o pratear da lua e o tremeluzir das estrelas, para, após esse extasiante rito, clivar a sua métrica sobre o plano da melodia, eu cuido zelosamente dos meus já quase-textos”. (A arte de escrever, contracapa).
Tudo isso, e mais alguma coisa, é o Sinfonia – em prosa – d’uma existência (prodigiosa).
Xykolu, o autor.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.