APESAR DE TUDO, É NATAL!

“Apesar de tudo é natal” é uma potente frase escrita por Leonardo Boff para reanimar o natal de 2021. Naquela ocasião, o mundo inteiro sucumbia à maior crise sanitária da história moderna. Centenas de milhares de pessoas perdiam diariamente suas vidas. Famílias inteiras eram desfeitas. Uma rápida síntese suportava o seguinte exagero: as trevas imperavam no tecido social.

Nesse limite, o estado-nação conheceu o ápice do seu fracasso. Se nada viesse da ciência em tempo recorde, pouca coisa se poderia fazer para reduzir a velocidade com que se caminhava ao desastre.

Me recordo dos passos realizados por Maria e José, que na tradição católica são pais afetivos de Jesus Cristo. O contexto em que viviam não era muito diferente. O povo era oprimido por uma economia miserável e de privilégios. As famílias eram acossadas politicamente pelo império e não havia naquele estágio civilizatório nenhuma luz que iluminasse as profundas trevas impostas àquele povo.

O que havia de comum para ambos os momentos poderia ser traduzida numa profunda crise, aqui social, ali econômica, acolá política, em todos os cantos humanitária. Em tempo, volto a L. Boff, para quem a crise é um tempo de purificação. É nesse interstício que o medo e a esperança são questionados em seus limites éticos. É justamente na crise que surge algo de novo. Algo que de tão imperativo se impõe sobre as trevas, iluminando novamente a superfície das coisas, mas principalmente inaugurando uma nova época. A época da Luz.

Somente aqui é possível falar em natal.
Mas por quê? Porque não podemos pensar em natal sem pensar no momento posterior ao da grande crise que se estabeleceu sobre nossas cabeças. A grande escuridão que até então se impunha pela força, foi minuto a minuto sendo iluminada pela grande luz, que algumas culturas chamam de esperança. A luz que descortina a escuridão e devolve a nitidez às coisas. Quase como quem se levanta do leito da morte, e passa a caminhar impunimente. A luz e a crise representam, paradoxalmente, a grande transformação sem a qual não se poderia falar em natal.

A crise política, religiosa e social da época de Jesus foi vencida pelo anúncio da estrela que passou a brilhar impunimente indicando que um novo tempo chegou. O tempo em que “se revelou aquilo que há de mais divino no homem e o que há de mais humano em Deus”. Foi aqui que Deus pela primeira vez quis ser humano para experimentar igualmente a crise que se abatia sobre seu povo. É, nesse particular, estimulante compreender que para ver Deus os reis e os magos precisaram, guiando-se pela luz, olhar para o chão. É importante para nosso sentido de natal perceber que pela primeira vez Deus quis ser olhado de cima e não adorado no alto. Contrariando todas as tradições religiosas que teimavam e continuam a teimar, em olhar Deus no alto da montanha. Definitivamente não se precisa de uma teologia refinada para saber que “Deus não está acima de todos, mas no meio de nós”.

L. Boff foi um dos poucos que conseguiu melhor sintetizar tal contradição com o seguinte adágio: “toda criança quer ser homem, todo homem que ser rei, todo rei quer ser Deus, só Deus quis ser criança” E aqui ocorre o ápice do projeto divino, pois no Natal é Deus que se torna homem, e portanto, humano. Encarna-se por vontade própria na sua própria criatura.

Diante desta realidade é que precisamos olhar nossa conjunta social, política, econômica, ecológica e religiosa. Afinal “a cabeça pensa a partir do chão em que os pés pisam” e é preciso saber que pisamos numa perigosa areia movediça da guerra que mata muitas vezes em nome “Deus”. Estima-se que apenas 1/3 do orçamento bélico de 2022, destinado a Ucrânia para se “defender” da Rússia, seria suficiente para acabar com a fome no mundo. Mais recentemente, a injustificada ação do Hamas contra Israel foi respondida igualmente de forma injustificada pela força bélica israelita e americana. Os primeiros dados revelados pela ONU alertam que apenas a cada 10 minutos uma criança palestina é morta num conflito que poderia, e deveria, ser resolvido pelas vias diplomáticas. E por que não é? Porque há grandes interesses econômicos ali envolvidos. Não sejamos ingênuos, de verdade quem vende armas sempre vai querer mais guerras, independente dos custos sociais que isso possa implicar. Quem ataca em nome de uma pretensa defesa na realidade quer uma limpeza étnica.

Não! A guerra não é irracional como querem fazer crer alguns falsos analistas. A guerra tem sua razão e ela tem um nome: o poder pela opressão. Tal qual ocorria na palestina do ano zero, hoje a guerra obriga milhares de crianças a se deslocar geograficamente da sua região. Abandonar seu chão e buscar vida, quando possível em terras estrangeiras. A única diferença é que na época de Jesus a morte das crianças vinha da ponta de uma espada de um soldado qualquer, hoje é realizada por misseis teleguiados e televisionados em tempo real.

Contudo, precisamos manter a esperança no natal. Tal qual vencemos a pandemia da covid-19, hoje é imperativo recordar a luz que precisa se abrir impunimente sobre nossas “racionalidades”.

Apensar da guerra; apesar da fome; apesar da miséria e das tragédias ecológicas; apesar da economia da morte e do império da desigualdade; apesar da exclusão extrema e da tortura nos presídios; apesar dos milhares de famintos e das migrações forçadas; apesar do fracasso da diplomacia, da ausência da nossa consciência política; apesar da profunda crise da civilização tecnicista e da praga do fundamentalismo religioso;
apesar tudo, é natal!!!

Rafael Silva

Professor da Universidade Federal do Ceará e Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra - UC.

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Rafael Silva

Professor da Universidade Federal do Ceará e Doutor em Sociologia pela Universidade de Coimbra - UC.