Alumbramento no Espaço Dragão – Fátima Teles

Há dias que são de lembranças,  e hoje é um desses dias. Estou deitada numa rede e lendo uma revista que traz os traços de Fortaleza. Vejo imagens do Centro Dragão do Mar e a memória me leva para anos atrás quando vi pela primeira vez a suntuosidade do prédio DRAGÃO DO MAR.

Eu ficava admirada vendo as fotos do Centro Dragão do Mar de Cultura e Arte pelos jornais. Era um espaço de arte como nunca antes visto. A arquitetura moderna e com formas grandes dava a impressão de um prédio desses que sabemos existir em metrópoles como São Paulo e Rio. Só pude conhecer o espaço no ano de 2012, e fiquei impressionada com a beleza do prédio e a decoração em torno dele. Era pura arte!

Ali se concentram o planetário, o museu da cultura cearense e o museu de arte contemporânea do Ceará, além da área verde, teatro, auditório e cinema. Um corredor de grades vermelhas que trazem a visão dos casarões que ficam ao lado do Centro. Os casarões que foram restaurados e pintados com cores vivas e transformados em bares e restaurantes dando outra vida à rua Dragão do Mar.

Eu andei dentro daquele espaço e por vezes também me perdi. É costume nosso do interior nos perdermos nos espaços dos grandes centros. Estava à procura da sala para assistir ao filme UMA NOITE EM 67, que conta a história do III Festival de Música da Record, onde os maiores astros da MPB cantavam,  competindo, para dali se tornarem destaque no cenário da música nacional. Tomei um café e segui para a sala. Sai cantando Roda Viva,  de Chico Buarque, pensando como a música estava tão atual naquele contexto político, e, escrevendo agora, eu a vejo ainda também atual nessa conjuntura que ora vivemos. Chico Buarque é mesmo atemporal.

Na parte de baixo há duas estátuas que meus olhos emocionaram, e até hoje eu gosto de vê-las quando vou a Fortaleza: o Jangadeiro Chico da Matilde, que deu o seu nome ao Centro Dragão do Mar, e o Poeta maior do Ceará, aquele que canta o sertão, Patativa do Assaré.

Patativa estava lá esculturado com seu jeito simples cantando o sertão que é seu. Francisco José, o Dragão do Mar, todo altivo e imponente, com a elegância dos revolucionários, lembrando a sua importância na luta contra a escravidão e o tráfico negreiro para a História do Ceará.

Dei um beijo na face do Jangadeiro e voltei para o interior, minha casa. No caminho fui sonhando em poder um dia escrever um livro e lançá-lo no Centro Dragão do Mar. Dizem que o Universo escuta aquilo que falamos com o coração. O Universo escuta como uma prece. Ele me ouviu.

No ano de 2015 eu publiquei o meu primeiro livro intitulado de ALUMBRAMENTO, na categoria Poesia,  e lancei primeiro na minha terra natal, em 2016. Posteriormente na Cidade de Juazeiro do Norte e Icó. Solicitei à Coordenação de Cultura do Centro Dragão do Mar o espaço institucional para o lançamento do livro, e alegria foi grande quando recebi a resposta pedindo a documentação necessária-  e logo depois a solicitação atendida. Gente!!! Eu chorei de emoção!! Era o meu primeiro livro e eu o levaria para a Capital num espaço de arte e cultura de renome Estadual.

No dia 08 de abril de 2016 eu cheguei em Fortaleza e tudo era uma alegria e uma emoção. A companhia dos amigos, a colaboração da equipe do Centro Dragão do Mar. Ajeitar o palco, decorar, colocar uma flor de papel feita por um artista de minha terra em cada cadeira para recepcionar os convidados. O cuidado com o brigadeiro de colher para oferecer ao público. Foi tudo lindo. A noite foi mágica. Um artista do Cariri chegou para dar sua participação com uma mala de madeira, dessas de retirante, e de improviso declamou um poema do livro e foi ovacionado por todos.
E eu estava lá no palco do Centro Cultural, recitando e agradecendo aos amigos e amigas que compareceram para prestigiar o livro.

Penso que de nada adiantam os espaços criados para a arte, se não forem utilizados para todas as pessoas. Os talentos se descobrem em contato com a arte, na sensibilidade da leitura, do olhar, do tocar, do ouvir. Essa é também a função dos espaços de arte e cultura. Contribuir com o desenvolvimento da inteligência emocional e o potencial artístico das pessoas.

Que o Centro dragão do Mar de Arte e Cultura se configure como uma grande jangada a levar talentos. Que esse espaço que leva o nome do Jangadeiro possa promover a liberdade, bandeira defendida pelo Jangadeiro e que essa LIBERDADE possa ser expressa em todas as suas formas.

Maria de Fátima Araújo Teles

Maria de Fátima Araújo Teles

Historiadora, Assistente Social,Pedagoga Especialista em Direitos Humanos e Psicopedagogia Institucional Professora Formadora da Área de Ciências Humanas do Ensino Fundamental II da Secretaria Municipal de Educação de Brejo Santo Escritora e Poeta Membro da Academia de Letras do Brasil, Secção Ceará

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