Algo próximo da onisciência

O que o Estado sabe sobre o cidadão? Que informação a máquina pública tem sobre cada pessoa? A resposta é simples e direta: tem todas as informações e sabe quase tudo. Nome, idade, endereço, renda, formação da família, dados de saúde, instrução etc.

As engrenagens tecnológicas privadas também sabem muito, a partir de cadastros e algoritmos.

Os dados do Estado são complementares aos das big techs. E o Estado e as big techs podem vir a se articular e se juntar em inúmeras e imensas confluências de interesses. Como votações e eleições, por exemplo.

O uso esperto das redes eletrônicas de informação e comunicação (mais conhecidas como redes sociais) já desequilibrou importantes disputas de forma aberta. Barack Obama delas beneficiou-se para financiar sua campanha, formar comitês e captar votos. Na reta final, o Brexit (referendo popular que tirou o Reúno Unido da União Europeia) literalmente trocou de tendência e foi aprovado. Os Estados Unidos da América viram um controverso homem de negócios virar Presidente da República e assistiram pela televisão uma tentativa dele de destruir um sistema democrático estável por dois e meio séculos.

Essas redes privadas estão acima e além das leis nacionais e das regras de tributação locais. Não são transparentes, nem fiscalizáveis. Não há limites para elas. Elas não buscam melhorar seus produtos e serviços, elas buscam o que faz sucesso, produz impacto, atrai interesse e atenção (e isso abre caminho para o pior esgoto). Não há competição. Não há regulação. Acumularam poder e dinheiro de forma desproporcional. Estão fora do controle do Estado e da sociedade. Repartem esse poder com quem quiserem, se quiserem.

No seu livro “Impérios da Comunicação”, Tim Woo mostra que todas as novas tecnologias de informação nascem para promover a democracia. Foi assim por cem anos. O rádio teria possibilidade de baratear de tal maneira seus custos, que cada fração ou instituição relevante da sociedade poderia ter sua emissora na sua região. O mesmo prometia a televisão a médio prazo. Rádio FM, idem. Todos os meios de comunicação afastaram-se da democratização. Concentraram-se, agigantaram-se, cartelizaram-se. Afastaram-se de uma concepção sócio-politica bem intencionada e viraram negócio de oligarquias. As redes sociais fizeram o mesmo roteiro, só que mais rápido, mais sólido e mais concentrado. E caíram nas mãos de jovens ousadíssimos (botaram os oligarcas da comunicação no bolso).

Com o discurso da liberdade e da democratização obtêm uma espécie de salvo conduto absoluto.

De volta ao Estado.

Imaginem o poder de um comitê de campanha eleitoral de um candidato a presidente de um país como o Brasil que usasse sem escrúpulos e sem limites os dados de que dispõe.

Cadastro Único, cadastro do Bolsa Família, do Auxílio Emergencial, do Auxílio Brasil, do IBGE, do SUS, da Receita Federal, Caixa Econômica, BB, BNDES, Previdência e Assistência Social…São tantas informações. Imagine se juntar aos algoritmos privados. É algo próximo da onisciência.

Talvez conseguisse eleger algum senador numa blitz de última hora. Virar ou desmoralizar um ou outro percentual de pesquisa. Melhorar um bocado o tamanho da bancada de deputados federais aqui ou acolá…São tantas possibilidades…

Sim, existe uma lei geral de proteção de dados, claro. Pois é, né? Vão cobrar e fiscalizar, claro. Mas… quem? quando? Por sorte tem o Brasil um servidor público concursado, comprometido com valores e princípios, na base, não na cúpula.

Não basta ter a informação. Também tem que ter a coragem de agir à margem da lei, contra a lei. Repetindo: sem escrúpulos e sem limites. Mas, sobretudo, tem que dominar a tecnologia da desinformação, da mentira e da manipulação.

Hoje se sabe que essas engrenagens só funcionam para o mal, através da exploração do que há de mais negativo e obscuro reprimido em cada pessoa. Está além da propaganda, ainda que um pouco aquém da lavagem cerebral. Uma influência forte, digamos. Um gatilho para vocações contidas.

Um gatilho, sim, talvez. Uma arminha, quem sabe…

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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