Alagadiço Novo e Intérpretes do Ceará: Documentos para a história e a cultura do Ceará

Que não vá o sapateiro além do sapato. Que não pretenda o editor além do que lhe seja permitido pela cumplicidade indulgente dos seus editados.

Feito editor, leitor contumaz, por fraqueza ou mania contraída pelo maus exemplos adquiridos em casa, fui reitor desta Universidade, aqui vivi por 30 curtos anos. Fiz de tudo e mais teria feito não houvesse amadurecido tão cedo: de empacotador de livros da Imprensa Universitária a revisor de textos, como acólito de um respeitado vernaculista – Hélio Melo. Embrenhei-me pelos estudos jurídicos, mas não o fiz por mal, muito menos por esperteza bem aviada. Foi por pouco tempo. Movido por outras atribuladas inquietações, cedi a algumas provocações intelectuais, coisa que não eram as leis nem os instrumentos da sua aplicação, porém a sua construção como expressão social e política. Os mecanismos de governo, o senso real “do” político, mais do que “a” política, confesso aqui entre amigos discretos, puxavam (ou empurravam?) aquele pretensioso aprendiz de feiticeiro para maquinações que, assim como hoje, não tardariam por eriçar os cabelos da autoridade eminente com os cuidados do resguardo da ordem, sempre ameaçada pelas novas ideias.

Decorridos tantos anos de noviciado, aposentado, visto com suspeita pelos mais novos e indiferença pelos mais idosos, aqui me encontro, mais uma vez neste lugar, para falar a alguns incautos benevolentes justamente — sobre livros. Livros que estamos a fazer nesta Universidade há 66 anos. Cada página, cada lombada e o texto que lhes deu vida e relevo lembram a generosidade do mecenato de Antônio Martins Filho, o tipógrafo que se faria editor com a participação em notáveis empreendimentos culturais. Alguns milhares de títulos e periódicos impressos, coleções inteiras. Muitos deles já empoleirados no nosso repositório eletrônico de e-books, atestam a vocação desta Universidade para o compartilhamento da sua produção cultural, científica e tecnológica.

Tudo aconteceu por culpa deste reitor, Candido Albuquerque, jurista de formação, escritor e publicista, a cujo mandato desempenhado nesta Casa há de ligar-se a visão modernizadora de uma gestão pautada em ações gerenciais efetivas e duráveis. Trouxe-me para o Conselho Editorial e transferiu-me alguns encargos que busquei cumprir e fazê-los pauta de comum interesse.

Vou, entretanto, retornar aos livros. Não sem antes apontar para alguns dentre nós, ao nosso lado, nas oficinas gráficas da Universidade, sabem como se constrói, de fato um livro. Não que lhes incumba a concepção dos textos, mas a arte que nos foi legada pelo velho Gutenberg, a sua impressão em papel ou fixação em meio eletrônico. São os artesãos artistas que vêm ouvir o que temos a dizer sobre o seu trabalho.

Alguns registros sejam, bem a propósito, feitos sobre alguns atores deste empreendimento.

A José Candido Lustosa Bittencourt de Albuquerque, por encontrar lugar para conversas fora de hora com bibliopatas como eu, em desocupada catarse, animada por projetos que a muitos pareceriam irrelevantes – e inoportunos.

Ao professor Joaquim de Albuquerque Melo, diretor da Imprensa Universitária, parte destas novas conquistas, pela perseverante vontade de preservar a memória editorial da nossa Universidade, e torná-la moderna e tecnologicamente atualizada, em face dos novos meios de produção gráfica das múltiplas variantes do processo de leitura e expressão na desafiadora sociedade do conhecimento. A Imprensa Universitária, aos 66 anos, encontra o desafio que lhe cabe: em boa hora revestida do que lhe pode ser mais importante, a condição de editora – surge com este esforço a Editora Imprensa Universitária do Ceará/UFC.

Ao professor Geová Sobreira, empenhado, como nós, na formulação de uma perspectiva histórica relevante que permitisse à UFC a abordagem da memória, desprezada e esquecida, dos feitos e fatos da Independência no Ceará. Coube-lhe pesquisar, identificar e coletar textos recolhidos aos arquivos do esquecimento. Abriu-lhes as intimidades discreteadas, fazendo as vezes de cronista da história, contextualizou eventos e deu-lhes sentido real como aspiração e luta de brasileiros valorosos. Descobriu os vilões escondidos em narrativas indulgentes e apontou os heróis de uma saga de gente guerreira, muitos dos quais perderiam a vida, ali, no lugar bucólico do Passeio Público.

Ao general Júlio Lima Verde Campos de Oliveira, presidente do Instituto do Ceará, que se fez pesquisador, viajando pelos milhares de páginas da Revista centenária, para de lá arrancar ensaios e artigos que a antiguidade tornara inéditos para os cearenses. Fomos encontrá-los no baú do esquecimento e pusemo-los em um box que a muitos oferecerá o prazer renovado das descobertas perdidas.

Ao professor Filomeno Moraes, cientista político e constitucionalista de projeção internacional, por fim, pelo atendimento ao apelo feito, em concurso de monografias lançado pela UFC, e do qual saiu reconhecido pelo melhor texto, “A Outra Independência, a partir do Ceará: subsídios para a sua história constitucional”.

A Coleção Alagadiço Novo

Originalmente denominada Programa Editorial Casa de José de Alencar — Coleção Alagadiço Novo, criada pelo ex-reitor e fundador da UFC, professor Antônio Martins Filho, a coleção teve em seu catálogo de edições 308 títulos publicados em cerca de três décadas.

A Coleção Alagadiço Novo editou, nessa fase brilhante do movimento editorial do Ceará, seleção variada de textos originais, em reedições ou reimpressões, sobre o Ceará. Literatura, história, ensaios de natureza técnica e científica, romances e poesia constituíram ampla pauta de temas convergentes sobre a cultura do Ceará.

A interrupção da publicação da coleção, acervo constituído por mais de três centenas de títulos, com o falecimento de Martins Filho, ensejou a retomada da Coleção Alagadiço Novo, em novas bases temáticas, guardando, todavia, a referência nominal ao sítio no qual nasceu José de Alencar, referência significativa para a Cultura brasileira.

Em nova fase, agora iniciada, a Coleção Alagadiço Novo retoma a sua produção, repositório cultural relevante da atividade editorial da UFC, acumulado ao longo de mais de 65 anos, repertório renovado de textos inéditos e de reedições.

A Coleção Alagadiço Novo desdobra-se em uma série editorial exclusiva, composta pela reedição de textos fundadores da nossa crônica histórica, com 20 autores e 40 títulos a serem editados até 2027.

A retomada do projeto da Coleção impôs, entretanto, algumas mudanças que vinham sendo, de há muito, avaliadas, incorporadas, por fim, a um ambicioso projeto editorial.

Em nova versão, impôs-se a ampliação do escopo da série e a incorporação do que, de certo modo, lhe faltara – a definição de um foco central que balizasse a seleção das obras a serem incluídas na coleção. E que, assim procedendo, fossem contemplados requisitos editoriais relevantes e uma gama plural de temas relacionados com o Ceará.

As obras incluídas, segundo a ampliação temática de informações produzidas sobre o estado, são resultado de aplicado esforço de pesquisa documental de fontes primárias e delas resultantes. atenderão a formato próprio: revisão e atualização ortográfica dos textos; correções de falhas de revisão acumulados em edições anteriores; observância das normas e regras técnicas correntes quanto à apresentação de notas, citações e recensões bibliográficas; e a inclusão necessária da fortuna crítica sobre as obras e os seus autores.

Os títulos incluídos resultaram da aplicação de questionário a um grupo representativo de 80 intelectuais e especialistas, segundo o método de consulta reputacional. Apuradas as respostas recolhidas, foi possível fixar a feição da coleção em sua nova fase, com 20 autores e 40 títulos a serem editados no decorrer dos próximos 4 anos, de 2003 a 2007.

O Plano Editorial e o Bicentenário da Independência

O Bicentenário da Independência do Brasil, cuja celebração ocorrerá neste ano, estimulou a valorização da reflexão crítica sobre a participação do Ceará nas lutas pela Independência do Brasil, e da propagação das ideias revolucionárias e dos movimentos sociais e políticos nas províncias nordestinas.

Os seis títulos lançados hoje abordam momentos decisivos da História do Brasil e do Ceará nos quais se inscrevem episódios políticos e militares que prenunciaram os movimentos em prol da independência do Brasil. Os textos, inéditos na maior parte, cobrem movimentos locais e regionais, muitos dos quais contribuíram para a consolidação de posições fortemente associadas à independência das províncias no espaço geopolítico do Nordeste brasileiro. Nomeiam-se, dentre outras causas e ações políticas e militares:

Seis textos, inéditos ou decorrentes de pesquisa em fontes dispersas, tendo como título “O Ceará na Independência do Brasil”, abrem a nova Coleção Alagadiço Novo:

1. “O Ceará na Independência do Brasil”, coletânea de ensaios, artigos e documentos publicados na Revista do Instituto do Ceará, histórico, geográfico e antropológico, com enfoque sobre as lutas pela independência travadas no Ceará e, de modo especial, sobre as celebrações comemorativas do Centenário da Confederação do Equador. Nota introdutória sobre os movimentos revolucionários de 1817, 1822 e 1824 e a sua repercussão no Ceará foi incluída, além de da abordagem crítica sobre os textos selecionados. Apresentação do general Júlio Lima Verde Campos Oliveira, presidente do Instituto do Ceará e prefácio do historiador Gisafran Nazareno Mota.
2. “A Alma de Revolução: Os construtores da unidade nacional”, da autoria de Tristão de Alencar Araripe, com textos introdutórios do historiador Geová Sobreira e do escritor Oswald Barroso;
3. “Dona Bárbara”, peça em 5 atos, em versos, da autoria de José de Carvalho, trineto de Bárbara de Alencar, com texto revisto, precedido de introdução e anotações do historiador Geová Sobreira;
4. “A Outra Independência, a partir do Ceará: subsídios para a sua história constitucional”, monografia selecionada em concurso público, da autoria do professor Filomeno Moraes;
5. “A Política como Missão: o senador José Martiniano de Alencar pela emancipação do Brasil”, monografia selecionada em concurso público, da autoria de Francisco Ari de Andrade;
6. “Independência e Formação do Estado Brasileiro na Província do Ceará (1820-1835)”, da autoria da historiadora Ana Sara Cortês.

Este o motivo desta celebração. Na data maior da nacionalidade, a história gloriosa e trágica da insurreição nas províncias de um país em formação compartilhada com os brasileiros. Nada melhor que a Universidade Federal do Ceará assim o fizesse, com uma coleção de textos inéditos, que esta é a sina das universidades, dos iluministas e copistas dos monastérios aos incunábulos e códices renascentistas que construíram as bases do conhecimento humano.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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