Adeus à linguagem: a potência da negação

Aqueles que não têm imaginação buscam refúgio na realidade. Contextualizada na construção do cotidiano, a ideia nos leva para diferentes formas de olharmos os nossos dias. Fuga desenfreada essa, cujo patrocínio, não obstante, parte desde o sistema em que nos inserimos até às maneiras como seus derivados nos moldam. Ou, por vezes, tentam. Porque esse “não” impresso na experiência do cinema foi o que Jean-Luc Godard conseguiu em seu necessário “Adeus à Linguagem” (2014).

Então, estamos falando de cinema. E mesmo sendo uma arte formada pelo gene da liberdade, ela se elabora por meio de uma gramática. Linguagem. E foi  a essa linguagem que Godard (mesmo dotado de toda referência que ele próprio ajudou a criar ao longo de sua trajetória) obedeceu, a princípio. Mas, assim como o mestre franco-suíço, vamos começar pelo começo. Porque o cinema é a arte que se esculpe pelo tempo, e que por ele também é esculpida.

Parafrasear Andrey Tarkovsky (Rússia, 1932-1986) se faz igualmente oportuno aqui. Uma vez que, a exemplo desse outro mestre, Jean-Luc utiliza o cinema para negar, mas não bravatar. Suas palavras, que também são tudo imagem, têm a perícia do pensamento jamais traído pela ideologia. Seu filme é uma narrativa. Claro. Possui enredo. Perfeitamente. Mas tudo o que se imprime na tela nos vem com a mansidão da mensagem que nada nos impõe. Tudo está ali, basta que vejamos. E o que vemos?

Uma mulher casada (Héloïse Godet ) e seu amante (Kamel Abdeli ) se encontram para passar um tempo juntos. Eles se amam, discutem, convivem. Em meio a isso, encontram um cachorro numa rodovia e o levam para casa. Entre o vagar do animal pelo campo e a cidade os dias passam. O casal volta a se encontrar. E a vida segue seu curso. Godard nos dá seu enredo e o trabalha com a hermética simplicidade que somente os gênios conseguem notar. Mas como é isso?

Simples. Porque Adeus à Linguagem se vale de tudo de que a cinematografia hoje se constitui. Vamos partir do princípio de que tudo já foi dito. Quantas imagens (e tudo o que delas vem) são parte disso  que o cinema é? Estamos diante da saturação. E no excesso que compreende essa iminente estafa pictórica, retroceder é o caminhar. Mas não regredimos. E Godard não regride. Ele dá a ver toda potência contida em cada frame  realizado.

Damos adeus à narrativa. Que tal brincarmos de abandoná-la à própria sorte? Essa disposição é o que faz desse filme algo singular. Porque nele não precisamos nos preocupar em entender sua construção, feito um quebra-cabeça onde cada peça depende da outra. A independência aqui surge tanto em conceito quanto aplicação prática. Pois as sequências do longa independem entre si. E o sentido da mensagem nele contida está liberto da opressão daquilo que tem de ser dito a todo custo.

Em Adeus à Linguagem, as sequências independem entre si. E o sentido da mensagem nelas contidas está liberto da opressão daquilo que tem de ser dito a todo custo.

Damos adeus à estética. Já que um filme será um filme, seja ele feito parte em planos longos, parte em rápidos. Esteja a câmera fixa ou na perpendicular. Falamos de tudo isso porque isso tudo é o que constitui Adeus à Linguagem. É a mensagem que Godard nos deixa. É a possibilidade de vermos o mundo através de seus olhos, por meio de sua mente. Seu conceito de liberdade não é poético, é prático. Câmara em russo significa “prisão”. E a imagem, Godard liberta.

Damos adeus à linguagem. Pois no tempo em que nos encontramos e no qual o cinema também se insere, não há mais sentido em se falar de amarras. Estamos livres. Num sentido criativo, claro. Senão, caímos no risco do niilismo. Mas nosso longa foge desse risco. Sua proposta carrega consigo o germe da esperança. Há um certo deslocamento quanto a alguns dos papeis que desempenhamos no cotidiano, mas nada que nos impeça de seguir. Sonhamos mansamente, como o cachorro em seu sono leve.

E, assim como ele próprio, estamos em campo aberto. Em algum lugar, mas que acessamos instantaneamente. Sem a pressa de quem prescinde de tempo. Com todo o tempo do mundo para se permitir as experiências da vida. Estar desarmado para se permitir a experiência que Adeus à Linguagem nos propõe é fundamental. Porque o filme não é a comparação de algo que você já vira. Ele é o que é. É único, assim como somos cada um de nós. Assim como é estar experienciando um Godard.

O cinema não é uma expressão do inacessível. Ele se faz através da nossa visão. E a aura que gira em torno do “filme inacessível”, “hermético”, tem de ser vencida. Desconsidere-a. Permita-se entrar também nela e nas demais formas de filme. Mas, quando o desconforto da falta de entendimento vier, recomece novamente. Assim como Godard pensou Adeus à Linguagem. Um filme que recomeça a cada olhar que lançamos a ele. E que, na verdade, se constrói a partir do nosso olhar.

 

FICHA TÉCNICA

Título Original: Adieu au language

Gênero: Drama

Tempo de duração: 70 minutos

Ano de lançamento (FRANÇA/SUIÇA ): 2014

Direção: Jean-Luc Godard

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.

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