A solidão dos acompanhados, por LUANA MONTEIRO

Estamos constantemente conectados com o mundo e com outras pessoas. Mas qual tipo de vínculo nos une nessas múltiplas relações? Qual a sua qualidade? Como elas nos afetam? Logo de manhã cedo, antes mesmo de levantarmo-nos da cama, já respondemos algumas mensagens de Whatsapp. Direcionamo-nos à padaria. Lá trocamos insossos bons dias. Voltamos. Mais mensagens.
Finalmente saímos para o trabalho: ônibus, carro, bicicleta, moto… interagimos vagamente mais algumas vezes exprimindo algumas poucas palavras, alguns parcos olhares…
Você conhece as pessoas que cruzam seu caminho durante o dia? Para falar a verdade eu mal reconheço sequer aqueles que compõem minha vizinhança. Parece-me que a cada vez que abro o portão surge um rosto diferente. É verdade que as pessoas mudam de casa com frequência, mas esse não é o motivo para que eu não as conheça.

Para ser mais franca ainda revelo que além que não me empenhar em fazer novos vínculos, percebo que negligencio alguns dos rostos que já me são familiares. Deduzo, nessa análise, que às vezes dizer “bom dia”, é algo inconveniente e embaraçoso.

Mas por que? O meu sentimento é de que já não vivemos em comunidade. Nós nos socializamos cotidianamente com incontáveis pessoas, mas não vivemos em comunhão com elas. Assim, a relação que criamos é apenas o resultado de convenções sociais. Pelo fato de não sermos autossuficientes, precisamos de mãos estranhas para cultivar nossa comida, para produzir nossas roupas e para comercializar tais produtos.

Existem outros tipos de laços, como os familiares e de amizade, que aprendemos a cultivar e muitas vezes até escolhemos. São conexões de afeto construídas ao longo do tempo.

Mas como desenvolver sentimento de estima por pessoas que aparentemente não geram influência em nossas vidas? O simples fato de serem humanos deveria ser o suficiente para ter afinidade com o  próximo. Mas essa sensibilização humana parece estar diminuindo.

As redes sociais, que me acompanham há  pouco mais de dez anos, são um problema, e me vejo constantemente em conflito nessa relação. É uma relação abusiva em que um dos lados gera controle e dependência na sua vítima. O poder de influência e  manipulação gerado é a base desse romance. Para mim, quanto mais acho que está tudo bem e que tenho o controle sobre o uso do que faço das mídias, descubro que passo mais tempo curtindo páginas aleatórias e vendo conteúdos sem relevância do que imagino.

Meu acesso a computadores, internet e redes sociais não se deu na primeira infância, como é a regra no momento presente. Minhas primeiras socializações foram com a televisão e nunca imaginei que isso poderia ser menos prejudicial do que outras tecnologias.

Ganhei o meu primeiro computador aos 15 anos de idade, tarde em relação aos colegas de escola. Mas antes de ter o meu próprio, frequentava as famosas “lan hauses”, as casas de acesso à internet. Era a febre dos adolescentes e o início de vastos problemas neurológicos, psicológicos e sociais que vivenciamos hoje.

Lembro de como achava incrível conversar com amigas pelo MSN, coisa que poderia ser feita pessoalmente ou mesmo por ligação, mas eu via uma certa magia em mandar e receber mensagens em tempo real sem estar frente a frente com a pessoa com quem eu falava. Depois do MSN veio o Orkut e depois o Facebook e então o Twitter e Instagram e mais recentemente o Whatsapp. Isso só para citar algumas das redes que eu mais utilizei. Cada nova rede social que surgia fazia crescer vertiginosamente os números de adeptos.

Nós podemos chegar à conclusão de que a coisa mais praticada desde o invento e massificação dos recursos de comunicação via internet é o distanciamento físico entre as pessoas. As relações virtuais com suas medidas de amizade e afinidade cresceram e as reais interações entre as pessoas decaíram.

Para mim esse é um fator latente para explicar porque nos vemos rodeados de gente, mas muitas vezes cheios de solidão. Achar-se em meio a uma multidão não é suficiente para acalmar o vazio, porque estamos desaprendendo como gerar vínculos reais.

Manter-se apartado de relações pessoais na maior parte do tempo não só é prejudicial para o desempenho do desenvolvimento social como pode comprometer a capacidade de empatizar-se pelos outros. Presenciamos ainda a ampla discussão de como o investimento de horas e horas na vida on-line gera uma série de incapacidades para efetivar vínculos na vida real. São duas ações que levam para o mesmo caminho, o isolamento social.

Vejo despontar uma série de resoluções que deveriam ser assumidas no dia a dia: vivenciar mais o real, estabelecer vínculos concretos e resgatar noções de comunidade com aqueles que compartilhamos os espaços sociais que frequentamos cotidianamente. Para tanto é necessário absorver menos as influências de simulacros da realidade.
Seria isso possível? Sei que é necessário e urgente. Nosso estilo de vida nos leva inevitavelmente ao adoecimento, seja ele físico ou psíquico. Precisamos reduzir os fatores que nos causam estresse no dia-a-dia. A vida conectada das múltiplas atividades e cheias de informações nos leva diretamente a eles. Freá-los é um passo necessário.

Talvez assim nos vejamos mais conectados fisicamente, vivendo mais a realidade sensível e menos preocupados com nossas vidas virtuais simuladas.

Luana Monteiro

Luana Monteiro

Cientista social, mestre em Sociologia (UECE) e pesquisadora.

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