A revolução na Libertânia – Parte 1/2

“Em tempos de engano universal, falar a verdade torna-se um ato revolucionário.”

George Orwell

​Corria o ano de 2068.
Libertânia é o quinto país em extensão territorial em todo o planeta terra com cerca de 8,5 milhões de quilômetros quadrados e uma costa marítima que vai da linha do Equador até os confins do extremo sul, o que lhe proporciona uma grande variedade de solo, biomas e variedades climáticas; um país continente e autossuficiente em recursos naturais.
País populoso e com razoável grau de escolaridade, agora havia incluído no currículo escolar a crítica à forma-valor (dinheiro e mercadorias) e a sua população tinha adquirido a consciência sobre a negatividade do trabalho abstrato e já se formulava a crítica à mercadoria força de trabalho como a primeira e primária célula constitutiva do capital.
Em razão dos danos causados pelas mudanças climáticas provocadas pelo aquecimento global com a temperatura chegando a 2°Celsius (em 2022 era de 1°Celsius), o nível dos oceanos subira em meio metro de altura e as cidades litorâneas deste extenso país haviam sido atingidas fortemente, com muitos dos luxuosos edifícios da orla marítima tendo suas bases e apartamentos dos andares inferiores completamente submersos. Tornaram-se inabitáveis.

Haviam sido infrutíferos os acordos políticos internacionais de barrar a emissão de CO² na atmosfera que provoca o efeito estufa. A economia capitalista predadora havia imposto a sua lógica ecocida à política e submetendo-a aos seus caprichos.

Em muitas regiões do país as águas oceânicas haviam invadido espaços urbanos e rurais tornando submersas cidades inteiras que se situavam a poucos metros da linha do mar e que antes eram habitáveis, mas agora haviam deixado de sê-lo. O mundo padecia das mesmas agruras.
Com milhares de residências inundadas por todo o país, agravou-se o problema habitacional causado pelo pesado custo da terra que havia se valorizado e dos materiais de construções inacessíveis ao padrão médio de renda dos assalariados do país cada vez menor.

Ainda se vivia sob a égide de produção de mercadorias, e ainda que tivesse havido uma certo rigor com a taxação das grandes fortunas, o Estado estava cada vez mais falido, e o dinheiro da arrecadação de impostos mal dava para pagar os juros da dívida e a manutenção das forças militares cada vez mais numerosas, ociosas e dispendiosas com os elevados custos armamentistas visando à manutenção da opressão interna, e que somente servia para fazer florescer a indústria bélica e sua exportação da guerra urbana ou convencional.

O Estado passara a ser uma força militar cada vez mais opressora e intervencionista no combate às manifestações de ruas; os presídios já abrigavam mais presos políticos do que criminosos comuns, que também havia aumentado em razão do aumento da criminalidade.

Mas o grande problema era a desertificação de grandes áreas do seu território que haviam se tornado desabitadas com a migração de sua população para as áreas férteis ainda existentes e aumentado a densidade demográfica das cidades situadas em locais mais altos e imunes às enchentes e tornados extensos e cada vez mais avassaladores que se alternavam com períodos de secas prolongados e mais abrangentes.

O parlamento, como historicamente acontece, mais do que nunca era o bunker dos representantes políticos da elite econômica, e era eleito por uma minoria que se dispunha a votar nas eleições democrático-burguesas, e já se questionava a sua legitimidade regulamentadora e legisladora, vez que a maior parte da população desencantada com as instituições burguesas não comparecia às urnas ou votava em branco ou nulo.

A democracia burguesa era contestada tanto pelo ultraconservadores que queriam o Estado cada vez mais ditatorial, forte e opressor, como pelos emancipacionistas que ganhavam espaço com suas teses de superação da relação social existente.
Em razão da inflação causada pela emissão de moeda sem lastro, a vida social sob a égide do dinheiro e das mercadorias se reduzira substancialmente, e naturalmente haviam sido criados nichos de produção comunitária destinada à distribuição gratuita e suprimento da numerosa população vítima do desemprego estrutural causado pelo uso cada vez mais ostensivo da tecnologia aplicada à produção de mercadoria em face da guerra concorrencial de mercado, que se tornara algo marginal.
O sistema bancário mundial havia entrado em colapso diante de uma processo de inadimplência estatal dos títulos governamentais e somente sobreviveram os Bancos Centrais estatais com a emissão de moeda sem lastro. As poupanças e investimentos foram congelados e os rentistas agora entraram em desespero.
As bolsas de valores haviam fechado as portas em face dos prejuízos contínuos causados aos investidores em ações que queriam vendê-las a qualquer preço e não conseguiam compradores.

Os emancipacionistas, antes tidos por muitos como visionários fora da realidade, agora ganhavam adeptos que se incorporavam ao processo de produção sem remuneração em dinheiro e destinada à distribuição gratuita. Eram fortes os laços de solidariedade que se formavam ao derredor dos que produziam os mais diferentes objetos de consumo e que os doavam gratuitamente aos que deles necessitavam.
As forças militares do governo combatiam a produção e distribuição gratuita dos bens de consumo confiscando-os nas ruas e os destinando ao alimento dos presos e contingentes militares, de modo que tanto a produção como a distribuição era feita de forma semiclandestina, isto porque o Estado fazia vistas grossas a tal produção e preferia confiscá-la nos trajetos das ruas urbanas e rodovias entre as cidades.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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