A REVOLUÇÃO DOS  INCUNÁBULOS E DOS ANTI-LIVROS 

Uma coleção de livros lidos ou por ler, uma biblioteca farta de novidades  ou velhos  incunábulos habitados por fungos são o retrato, a súmula ou raiz quadrada da pavimentação  cultural do chão intelectual do seu dono. 

Colecionadores, bibliófilos ou os seus usuários, deles há quem bem conheça as preciosidades que recolheram  sob a sua guarda e eleição.  Outros, sequer suspeitam da riqueza que por ventura tenham reunido, ou as oportunidades perdidas para os ler. 

Umberto Eco falou muitas vezes do espaço infinito da web e o das suas estantes; referiu-se aos “anti-livros” aqueles que, postos  nas prateleiras, ainda assim não são lidos. Certa feita, afirmou que a única maneira de livrar-se dos livros alheios era — escrever e publicar livros…

Um exercício árduo para um bibliófilo: pedir-lhe que trace a estrutura dorsal da sua biblioteca de boas leituras e das raridades aprisionadas. José Míndlin deixou o seu latifúndio de papel impresso por escrito em suas memórias.  José Augusto Bezerra, Francisco Auto, Alder Teixeira, Beatriz e Lúcio Alcântara, Eduardo Diatahy e Agamenon  Bezerra têm-nos sob a sua proteção, lidos, apascentados e cercados dos seus cuidados. 

Outros, constroem esta muralha silenciosa de livros comprados, a granel ou por atacado, como prova de merecimentos intelectuais improváveis, afeitos ao gosto pelo papel e pelas  preferências que não sabem explicar.

Os alfarrabistas disponibilizam as suas reservas com remorsos dissimilados; alguns deles há que os leem. Conheço nesse meio de mercadores de livros quem esteja mais para leitor do que para negociante de velhas e novas edições. 

Tenho os meus à vista para que não se vão levados por mãos  suspeitas. 

Djacir Menezes buscava-os pelas lombadas,  binóculos em punho, cercado de estantes e papéis em profusão. Por estes caminhos conhecidos, localizo-os graças a uma complexa topografia que guardo em segredo a salvo dos curiosos.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.