A pulga atrás da orelha dos endinheirados

Durante o governo tucano de Fernando Henrique (1994-2002) o Banco Central pagou estimados 15 por cento ao ano de juro real para os aplicadores nos títulos públicos, tendo havido momentos em que esta taxa chegou a 22 por cento acima da inflação anual. No governo petista de Lula, essa taxa real foi reduzida para algo entre 6 e 8 por cento. Dilma terminou o ano de 2013 com juro real entre 2 e 3 por cento ao ano. Com Temer, manteve-se. Agora, com Jair Bolsonaro, o juro está neste exato momento em algum número entre 0 e 1 por cento ao ano, com a inestimável contribuição da infeliz pandemia.

Para os muitos brasileiros que vivem exclusivamente da renda do dinheiro que acumularam (não trabalham, não produzem, não correm riscos, os famosos rentistas), esta é uma situação perturbadora. Ganham em termos reais cada vez menos, embora muitos consigam reforçar os ganhos com a especulação frouxa com a taxa de câmbio, que no Brasil faz oscilações tão regulares quanto o sobe-e-desce de um brinquedo de montanha russa, sob o olhar condescendente do Banco Central. Tomem as declaracões do ministro Paulo Guedes sobre a taxa de câmbio nestes dezenove meses de governo e vocês verão o tamanho do abuso. Comparem a amplitude da oscilação da taxa do dólar no Brasil com uma lista de trinta países e verão que há uma evidente desproporção.

Se o uso do cachimbo faz a boca torta, esses brasileiros endinheirados estão incomodados e inconformados. Eles sabem que só o governo brasileiro pagava tão bem e sem reclamar. Não há opções de aplicação no mercado de dinheiro com o mesmo nível de segurança e liquidez. Nessas últimas semanas de pandemia todos viram como são reticentes os bancos para emprestar – banqueiro brasileiro foge do risco, quase só empresta a quem provar que não precisa. Ou então a quem oferece garantias reais com folgas.

E o mercado financeiro acostumou-se também. Por exemplo, como ficam os planos de previdência privada com juros reais tão baixos ou zerados? Quem responde? Lá na frente a decepção poderá ser grande, enorme. E tardia, pois nada se poderá fazer.

Rentistas e intermediários financeiros vão ter que se adaptar? Ou o “mercado” dará um jeito de levar tudo de volta ao passado de juro real altíssimo?

O Banco Central está prestes a dar mais um salto rumo à privatização total. As portas giratórias que o ligam ao mercado serão institucionalizadas com a iminente votação de norma que tira presidente eleito o que lhe resta de autoridade (é a tal da independência do Banco Central).

Uma coisa boa se pode dizer. Se o juro permanecer assim – abaixo de um por cento ao ano, real – logo, logo os endinheirados vão estar buscando montar empresas, ou seja, trabalhar e produzir, para o que precisarão investir, correr riscos e criar empregos.

Olho no lance!

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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