A polaridade infrutífera

Não apenas o Brasil, que está eleitoralmente dividido ao meio, mas o mundo experimenta a falsa dicotomia entre projetos políticos de direita, que vão desde matizes nazifascistas, militaristas e conservadorismos eleitorais pretensamente civilizados, de um lado, e projetos políticos sociaisdemocratas, trabalhistas ou ditaduras de esquerda, do outro lado.

Costumo chamar esta polaridade de “pêndulo da ineficácia” como metáfora de um movimento pendular que se move continuamente sem sair do mesmo lugar.  
Este movimento se aproveita da inconsciência e memória amnésica coletiva arraigada ao forte fetichismo de uma forma de relação social que a todos parece ser ontológica, e que a cada ciclo eleitoral ou ditatorial de governantes estatais impopulares, alguns mais longos e outros menos, propicia mudanças de turno de sentinelas do status quo vigente de modo a que alguma coisa seja mudada superficialmente para que tudo continue na mesma.

Para a grande maioria dos indivíduos sociais transformados em cidadãos contribuintes com impostos e produção de valor pelo trabalho abstrato, algumas categorias capitalistas são equivocadamente consideradas indispensáveis à vida, tais como:
– Estado vertical e suas instituições assecuratórias da função governativa social (o cidadão elege e sustenta financeiramente o Estado opressor como se fosse seu protetor, numa inversão da realidade);
– trabalho abstrato, assalariado, tido equivocadamente como única forma possível de sustento pessoal;
– dinheiro e mercadorias, expressões abstratas da abstração forma valor, como mecanismo da segregação e escravização fetichista;  
– mercado, o altar onde a mão-invisível sacrifica vidas; e
– partidos políticos (mesmo quando únicos em um só país) e políticos, únicos canais de legitimação da opressão estatal.

Tais categorias capitalistas, consideradas equivocadamente como únicas e possíveis entidades que geram vida social somente possível a partir delas mesmas, como se sempre tivessem existido ou sido criadas como decorrência natural e necessária da evolução do intelecto humano, elas passam a se constituir como cláusulas pétreas sociais contra as quais não há o que se questionar.

Assim considerada, a questão que se coloca não é de criação de uma nova forma de relação social, mas de boa ou má governabilidade desta forma de relação social tida como ontológica, ou seja, tão necessária como respirar, tomar água e se alimentar, ou satisfazer necessidades fisiológicas.  

Entretanto, o processo dialético histórico discorda desta convicção monoliticamente e culturalmente estabelecida (ainda que errônea) reproduzida cotidianamente desde os bancos escolares infantis até às academias, e coloca impasses estruturais de funcionalidade que vão desde a ingovernabilidade até a agressão ecológica ecocida.  

Trata-se de um processo de contradição no objeto que serve de base a tal modo de relação social:  a mediação social pelo sistema patriarcal produtor de mercadorias tornada obsoleta, assassina e suicida.  
São testemunhos eloquentes e incontestáveis de tais fatores:
– o aumento da fome no mundo em meio a conquistas da ciência capazes de reproduzir seres vivos idênticos por clonagem da engenharia genético-biológica; comunicação instantânea audiovisual desde Marte e no interior do nosso Planeta; cálculos complexos e simultâneos; nanociência e sua capacidade de estudo de dimensões inferiores a um micron; robotização e inteligência artificial; e por aí vai;
– a ocorrência de uma guerra fratricida entre etnias eslavas irmãs;
 – a emissão consciente de CO² na atmosfera, cientificamente responsável pelo efeito estufa que promove a aquecimento terrestre, promovida principalmente pelos países de maior Produto Interno Bruto num mundo interligado economicamente.

Nenhum desses fatores elencados tem sido possível de ser debelado por conta de que não se estanca a origem de suas ocorrências: a relação social mediada pela forma valor.  

A produção de mercadorias não existe em função da satisfação das necessidades coletivas de consumo, mas apenas faz uso de tal necessidade para existir. Assim, a fome no mundo não pode ser debelada porque os famélicos não têm dinheiro para comprar os alimentos de que necessitam, e estes não são produzidos na quantidade necessária porque somente se produz aquilo que tem viabilidade econômica, esta última cada vez menos existente.

Ao contrário do que seria interesse humano coletivo, quando se produz excedentes de alimentos, costumam-se incinerá-los como exigência de mercado para não se reduzirem os preços no dito cujo (que é algo diferente de valor intrínseco das mercadorias).

A guerra nada mais é do que uma disputa de blocos econômicos pela hegemonia de um capitalismo depressivo, tal qual urubus na expectativa da morte de uma presa para servir de alimento putrefato.  

O aquecimento global representa a irracionalidade de um sistema de produção voltado unicamente para a redução de custos que visa a geração de lucros, sem a percepção de que isto tanto reduz a massa global de valor sem a qual o sistema capitalista colapsa, como é principalmente ecologicamente destrutivo da vida num processo ecocida sem seletividade elitista.  

Neste sentido é estéril a discussão sobre quem deve governar o Estado nacional, quando o que está em questão é a superação do próprio Estado;
–  é estéril a discussão sobre como se deve proceder para a retomada do (impossível) desenvolvimento econômico linear, mas é necessária e urgente a superação da relação social sobre a mediação social da forma valor e o estabelecimento de critérios de produção voltados para a satisfação das necessidades coletivas com o uso da tecnologia conquistada a duras penas pela humanidade num itinerário de escravização e sangue.  

Mesmo diante de tudo isto a inepta polaridade político-eleitoral brasileira persiste.  

O Brasil tem peculiaridades históricas negativas a serem observadas, que bem demonstram a nossa inclinação elitista a ser superada, quais sejam:
– criamos a república por militares que eram mais conservadores do que Dom Pedro Segundo, monarca com sensibilidades humanistas reconhecidas;
– anistiamos os militares dos crimes cometidos com centenas de mortes via transição transada de anistia aos condenados pela ditadura, numa reciprocidade à brasileira;
– após uma histórica luta do movimento das “Diretas Já!”, Tancredo Neves, o eterno tapa-buraco sistêmico, um dos senhores do movimento, conspirou contra o próprio movimento que encabeçava para ir ao Colégio Eleitoral, pelo qual foi eleito e com um candidato a Vice-Presidente que fora presidente do partido da ditadura, e que por morte do eleito (talvez como castigo divino pela covardia e elitismo políticos), terminou por ser Presidente, dando início ao processo de redemocratização burguesa;
– após dois processos judiciais hipocritamente montados pela direita (porque a corrupção política no Brasil é de conhecimento histórico) que se chamaram respectivamente “mensalão” e “petrolão”, com a devolução de milhões enviados ao exterior e muitos outros milhões que jamais foram recuperados e tudo sem autocrítica dos envolvidos (sejam magistrados e promotores arbitrários e tendenciosos, ou  pelos políticos coniventes com a corrupção), tudo foi considerado como erro processual e agora erro jurídico-político histórico por membro da alta corte brasileira;
– diante de um militar de baixa patente (um Tenente promovido a Capitão, por força do regulamento que assim trata os que saem das suas fileiras), e que foi expulso do Exército por conduta militar considerada indevida por seus pares, e que eleito,  ameaçou as instituições burguesas (STF e Parlamento, como dizia o Gal. Heleno “se gritar pega Centrão não fica um meu irmão”, mas que depois se ajoelhou e rezou coniventemente), as elites judiciária e política brasileiras promoveram a volta de um candidato popular e confiável capaz de vencê-lo nas urnas, num procedimento comum na história brasileira.  

Este é o epílogo de um processo eleitoral momentaneamente vitorioso da esquerda socialdemocrata brasileira, até que o desgaste próprio à ingovernabilidade cada vez mais acentuada promova a soma do núcleo direitista recalcitrante (cerca de 33% da população) com a vacilação e inconsciência coletiva, e traga um novo aventureiro ao poder (como Jânio, Collor e Bolsonaro).

O Brasil e o mundo estão precisando, com urgência, de um projeto alternativo de sociedade que negue todas as categorias capitalistas em decomposição orgânica e não será a miséria social e ecológica que por si só promoverá tal procedimento, mas a criação de uma vanguarda popular com base teórica sólida capaz de conduzir o processo de superação dos graves e urgentes problemas sociais e da crise ecológica em curso.  

Lula e Bolsonaro não representam tal alternativa.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;