A Pálida Mesa de Jantar

A mesa de jantar ficou grande. Os sonhos sonhados em volta dela fazem pouco, ou nenhum sentido agora. Nesses últimos meses ela somente ocupa espaço.

Ok, exagero meu, ela até serve de base para um empilhado de objetos fúteis e tão desnecessários quanto os seus seis assentos.

Jogo americano pra quê?
Antes eu os combinava com as flores e com os talheres da coleção candy colors, mas ainda não deu tempo florir outra vez, tão pouco tenho a necessidade de revirar caixas para escolher talheres.

Enquanto a vida vai bem, a mesa de jantar segue invisível em sua importância.
Tão parecido com o que acontece em algumas relações abusivas, aqui, só enxergam a sua utilidade.

Céus, você já constatou que a sua mesa de jantar tem lugares em excesso?
Já se deu conta que os sonhos construídos em volta dela não fazem mais nenhum sentido?
Já parou pra pensar em quantas coisas viveu e ainda imaginava viver em volta dela?

Bom, se você já sentiu isso, provavelmente estava em processo de recomeço, ou, estava prestes a entrar em um.

Isso é bom. Dói um pouco, mas é bom. Nascer também dói e a gente ama viver.

Olhar pra sua mesa não precisa ser catastrófico. Se está grande demais venda, ocupe os espaços vazios, ou acostume-se com eles, ora!

Todo mundo já planejou algo contando com a mesa de jantar quando nem se dava conta de como ela era fundamental e isso continua me parecendo abusivo, ou talvez, um descaso.

É só lembrar o tão famoso almoço de domingo, o jantar de Natal, o aniversário da Maria, um cafezinho com os amigos e tantas outras programações. Todas elas você planejou sem se dar conta de como seria se não tivesse a “mesa de jantar”.

É preciso momentos de solidão para percebermos certas coisas, assim como é preciso a solitude para ressignificar.
A mesa ficou silenciosa. Perdeu um pouco da sua graça. Vivia florida e agora está pálida a ponto de causar nostalgia em quem olha.

— Ela é tão branca, precisa de sol!
Já disseram isso a meu respeito diversas vezes, devido o meu bronzeado quase imperceptível, nomeadamente: palidez.

Hoje, eu digo o mesmo à minha mesa de jantar, escolhida com tanto esmero para um projeto que não existe mais:

– Você está pálida. Precisa de sol, de vida! Vou te deixar ir para ser elemento nos sonhos de outros mesmo que eles não percebam a sua importância. Por hora os meus mudaram e não encontro mais espaço pra ti. Estou feliz em te deixar ir sem me despedaçar. Que feio seria te manter aqui por posse.

Vocês também se percebem falando com objetos nessa quarentena?
Espero que não seja só eu. Assim como espero que eles não me respondam. Um pouco de sanidade faz bem.

Enquanto escrevo esse texto, aguardo a nova dona da minha pálida mesa de jantar. Não quero nada frio e sem cor perto de mim.

O interfone tocou, preciso ir. Vou liberá-la.

E, se me permitem citar Lispector, encerro dizendo o que ela disse:

“Ainda bem que sempre existe outro dia. E outros sonhos. E outros risos. E outras pessoas. E outras coisas.”

Daniella Cruz

Daniella Cruz é Psicóloga, orientadora de Carreira. Graduada em Gestão Estratégica de Recursos Humanos, Especialista em Gestão de Pessoas e Liderança. Trabalhou na Europa na execução de projeto voltado para a neuropsicologia e acompanhamento de idosos com Alzheimer e outras demências. Tem participação em antologias literárias e é colunista no SegundaOpinião.jor.

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