A NOVA ERA, por Gilvan Mendes

 

É fácil perceber o fervor com que o presidente Jair Bolsonaro (PSL) anuncia que seu governo irá agir ‘’sem viés ideológico’’. Para ele, ideologia é sinônimo de esquerdismo e isso seria uma das grandes  heranças das gestões petistas, que além de ter ‘’quebrado o país’’ destruiu valores morais imprescindíveis. O atual ministro da educação já declarou guerra à essa tal ideologia esquerdista, e os apoiadores do capitão nas redes sociais falam com entusiasmo do início de uma ‘’Nova Era’’, que além de trazer consigo boas notícias para a economia iria acabar com a corrupção, atacar privilégios estabelecidos e restaurar uma moral específica na vida social brasileira, baseada na nação e no cristianismo.  Quais são os  pilares de sustentação desta ”Nova Era” e qual será seu papel no governo?

Um dos rótulos utilizados para designar o atual governo é o conservadorismo, alimentado fielmente pelo próprio presidente que sempre se destacou por defender pautas conservadoras no campo dos costumes, intimamente ligadas com apelos religiosos. Enquanto filosofia política o conservadorismo remonta aos escritos de Edmund Burke contra a revolução francesa e seus pensadores, e se posiciona contra mudanças bruscas na sociedade e propõe uma valorização do ato prudente e das tradições na vida cotidiana. Bolsonaro e seus seguidores longe de se interessarem por teoria política se contentam em repetir mantras pronunciados por Olavo de Carvalho, escritor que possui um significativo apoio na web. A versão do conservadorismo defendido por Bolsonaro e seus seguidores é uma mistura de posições religiosas (particularmente evangélica) com  aversão total ao esquerdismo, além de pouco apreço por direitos civis para minorias e ao multiculturalismo.

 

Outro pilar da ‘’nova era’’ é o liberalismo econômico que tem como capitão e camisa 10 do time o ministro Paulo Guedes. A conceituação política liberal é fruto de uma tradição iniciada por Adam Smith e John Locke. A versão que mais se encaixa as pretensões Bolsonaristas é a do chamado neoliberalismo que esposa posições liberalizantes em termos de mercado e atribui papel mínimo ao governo. Guedes busca inspiração nos monetaristas da Escola de Chicago, daí surge seu ímpeto em privatizar estatais e reduzir o gasto público. O presidente encara tudo isso como ataque aos ”privilégios”.   

Combate a corrupção (de forma instrumental), militarismo, nacionalismo e o já citado aceno aos evangélicos compõem o rol de convicções da gestão federal de Bolsonaro. Toda posição política e social carrega consigo rastros de ideologia, por isso dizer que a ‘’Nova Era’’ será ‘’sem viés ideológico’’ é simplesmente delirante. Nesse sentido, é possível ver contradições nas defesas apaixonadas da família tradicional e do nacionalismo de um lado e o liberalismo de mercado do outro, ou mesmo na suposta cruzada empreendida pela militância virtual contra a corrupção que ‘’passa o pano’’ para as conhecidas ações de Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo pretende ser algo que o Brasil nunca viveu, mas algumas de suas atitudes mostram o contrário.

O papel que esses arranjos e combinações turbulentos irão desempenhar no governo é ainda impreciso. No Brasil, muitas vezes na prática a teoria é outra e os discursos que antes eram ordeiros e coesos são transmutados por um pragmatismo que ofende os mais idealistas e imaginativos. É esperar pra ver.

Gilvan Mendes Ferreira

Gilvan Mendes Ferreira

Graduando em Ciências Sociais pela Universidade Estadual do Ceará.Com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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