A Mulher economista e a economista melhor

Com os dois textos abaixo, criamos a seção SEGUNDA OPINIÃO, espaço para diferentes pontos de vista. A economista Desirée Mota propõe que as mulheres economistas podem contribuir para aumentar a produtividade e para melhorar o resultado social. O economista Osvaldo Araújo concorda em parte e abre uma divergência.


Opinião

A economista melhor

Sou economista. Leio com interesse e atenção o artigo “A mulher economista”, de Desirée Mota. Antes de começar, avalio que minha atitude é de simpatia com a ideia que o jornal destaca no texto: “uma maior participação feminina e uma melhor ocupação de trabalhadoras em setores de maior produtividade poderia contribuir para o crescimento, para a redução da pobreza e para melhores resultados na saúde e na educação para as próximas gerações.”

Como pessoa e como economista, a autora é prova natural de sua tese, pois tem destacada trajetória na vida acadêmica, na sua passagem pela administração pública e como profissional das ciências econômicas. Tem liderança. Fala com autoridade, pois.

Depois de ler o texto, ponho-me de acordo, em princípio. Sim, vejo nas mulheres uma aguda sensibilidade que é escassa nos homens. O mundo que aí está, uma construção masculina, é testemunha. As conquistas são enormes, indiscutíveis, mas a desigualdade, a violência e a injustiça são inexplicáveis, inaceitáveis.

A concordância, entretanto, não é plena. E assim creio valorizar e desdobrar a reflexão de Desirée.

Volto, décadas no tempo, aos bancos da universidade e à leitura dos mestres da economia. Há dois ou três séculos expuseram suas ideias. Não eram ‘economistas’, eram amantes do saber, estudiosos da realidade, filósofos morais, formuladores do futuro, cientistas sociais em busca de um mundo menos bruto, menos selvagem.

Essas ideias, que pena, foram fatiadas, picotadas, retiradas de seus contextos e desconsideradas as circunstâncias, quando não completamente ignoradas ou apagadas. Sobraram apenas as frações convenientes, adaptadas aos interesses da mais alta hierarquia. Sim, até a universidade contribuiu com esse esvaziamento da parte bem intencionada da ciência econômica.

O que resta desta (des)construção, com as mais honrosas exceções, é um economista “de mercado”, um evangelizador a repetir mantras, que confunde meios com objetivos, que ignora a crueldade social para defender equações geladas e, absurdo dos absurdos, supõe em seus modelos matemáticos que o mundo não muda, que os países não são diferentes, que o comportamento humano não é complexo e que as pessoas são iguais e reagem sempre do mesmo jeito.

Não se trata de “mudar o sistema”. Isso é um bom sonho, mas é sonho. Pelo menos por enquanto. Sejamos pragmáticos, pelo bem das pessoas.

Trata-se de resgatar a ciência econômica e colocá-la na posição de formuladora de uma sociedade melhor, não de legitimadora de interesses específicos e localizados. Rever a função e a missão dos economistas.

A sensibilidade é decisiva na pessoa que tem a função de dar sentido aos processos estratégicos que juntam poder e dinheiro. A boa, velha e verdadeira ciência econômica precisa desesperadamente da mulher para ser resgatada e ser usada para fazer um mundo menos violento, mais civilizado, mais humano.

Osvaldo Araújo, economista, professor

Segunda Opinião

A mulher economista*

As mulheres economistas são peças-chaves no desenvolvimento de uma sociedade mais inclusiva e justa. São altamente capacitadas e dedicadas à pesquisa e às tarefas práticas da profissão.

As economistas conhecem macroeconomia, economia solidária, perícia, dados, comércio exterior, e muitos outros ramos da profissão.

Elas se destacam em todas as áreas da Ciência Econômica, inclusive naquelas que são rotuladas (por alguns) como masculinas, não é verdade?

E podemos citar profissões masculinas na área econômica: área financeira em bancos e mercado de capitais, macroeconomia, perícia econômica-financeira e outros.

Enfim, áreas mais ligadas à matemática, à lógica e às finanças.

Elas também têm uma série de entraves à continuidade na sua carreira devido a questões estruturais da sociedade (a maternidade, por exemplo), o que faz com que o número de mulheres caia no total de pessoas qualificadas.

Diferentes pesquisas realizadas nos últimos anos ainda mostram a diferença entre homens e mulheres no mercado de trabalho.

As diferenças são de cargo, salário, tempo e possibilidades. Uma pesquisa do IBGE mostra, por exemplo, que, em 2019, as mulheres receberam, em média, 77,7% do montante obtido pelos homens.

As mulheres economistas são fundamentais na luta por uma sociedade mais inclusiva.

Há uma preocupação de vários grupos de mulheres que buscam realizar ações voltadas a ampliar a participação das profissionais no mercado de trabalho e em projetos determinantes para a economia brasileira.

E agora, no dia 13 de agosto, podemos estar comemorando o dia do Economista com louvor já que várias conquistas já tivemos ao longo do tempo a exemplo da agenda 2030 para o desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas (ONU), composta por 17 objetivos, sendo que o quinto deles busca alcançar a igualdade de Gênero e o empoderamento de todas as mulheres.

No âmbito macroeconômico, a literatura mostra que uma maior participação feminina e uma melhor ocupação de trabalhadores em setores de maior produtividade poderia contribuir para o crescimento, para a redução da pobreza e para melhores resultados na saúde e na educação para as próximas gerações.

Enfim, se tivéssemos mais mulheres na liderança seríamos mais resilientes às crises e teríamos um mundo mais humano, mais justo e igualitário.

– Desirée Mota, economista, vice-presidente do Conselho Regional de Economia do Ceará e presidente do Instituto de Desenvolvimento Econômico e Social – IDESE.

* Texto publicado no jornal O POVO em 10.08.22.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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