A LEI É DURA, MAS É LEI

1968. Baturité. Ginásio Salesiano Domingos Sávio.

Os últimos dias do calendário escolar, na segunda metade de novembro, eram reservados às provas finais. Poucos conseguiam o grande feito da aprovação por média; por conseguinte, poucos se livravam delas.

Com efeito, nas vésperas, ao clima carregado, fruto da rigorosa cobrança por satisfatório desempenho nas várias disciplinas que compunham a grade curricular – em outros termos, a prestação de contas sob o olhar pouco complacente de professores que aplicavam didática com forte tendência à rígida educação militar –, contrapunha-se, ante a proximidade das tão desejadas férias, com previsão de premiação por mérito aos potenciais aprovados e castigo por demérito aos prováveis reprovados que, obviamente, carregavam sobre as juvenis costas, desnorteados no caminho do cadafalso, este outro pesado fardo, ou seja, a natural pressão dos pais, opunha-se, por assim dizer, a quebra dos grilhões, que levava à alegria incontida, manifesta já no brilho dos olhos de adolescentes rigorosamente fardados, cabelos aparados ao melhor estilo crista-de-galo, em contraste à moda de protesto de então – Senhores cabeludos, tratem de adequar-se às regras do colégio ou, amanhã, já serão impedidos de entrar em sala de aula! –, todos no pátio, estáticos, perfilados em fila indiana por turma, do menor para o maior, olhar fixo na figura atlética do todo-poderoso, ouvidos atentos a recolher a ameaçadora voz metálica do padre Prefeito, segundo na hierarquia de comando. À tarde, os barbeiros faziam a festa.

Um grupo de “internos” – alunos que, à época, já cumpriam a educação em tempo integral, muitos deles originários de outros estados – já se preparava para as despedidas, para o retorno ao seio de suas famílias. Para alguns, não se tratava de um Até logo!, porquanto, com a conclusão do ginásio, fase intermediária entre o primário e o científico, teriam de ir cursar a etapa subsequente, o pórtico para a faculdade, em colégio de cidade de maior porte, certamente em capitais.

Aos “externos”, aqueles que mais dependiam da parceria “escola e família” e que usufruíam mais restritamente da então reconhecida educação salesiana, ou seja, além das aulas presenciais, apenas algumas atividades extracurriculares, quase todas relacionadas à prática esportiva ou religiosa, se realizavam no âmbito escolar, era reservado o banheiro instalado no final da galeria que se estendia por todo o setor de salas de aula e às quais propiciava o ingresso, quase defronte à escadaria de acesso aos aposentos dos padres e irmãos que compunham o corpo funcional do colégio, no primeiro andar, e ao dormitório dos “internos maiores”, no segundo andar, dependências localizadas nos fundos da igreja de São Domingos Sávio, cuja frente e entrada pública davam para a avenida Dom Bosco, que ligava/liga o bairro Putiú ao centro da cidade.

Naquela época, já havia os bebedouros elétricos, de uso coletivo, mas não existiam os mictórios. Assim, o banheiro se compunha de uma estreita área de acesso – ao fundo, lavatórios de pias individuais – aos três apertados compartimentos de paredes azulejadas, em cor branca, com vaso sanitário em louça branca e sistema de descarga com cordinha de puxar, portas de madeira, pintadas com tinta a óleo de cor verde, e trancas internas. A limpeza do ambiente, a direção do colégio se obrigava a oferecer, mas, em contrapartida, exigia, ali também, o exemplar comportamento dos usuários, sob o risco de rigorosos castigos, com o beneplácito dos pais, responsáveis últimos por eventuais prejuízos causados por seus irrequietos e muitas vezes imprudentes filhos.

De repente, num dos intervalos de aulas, formou-se um pequeno rebuliço. Um grupo de alunos curiosos seguiam o padre Conselheiro, a quem competia, entre outras atribuições de natureza administrativa, manter em pleno funcionamento todos os equipamentos de uso coletivo, coibir toda e qualquer prática contrária ao regimento interno e aplicar as punições consideradas justas e cabíveis a quem cometesse indisciplina devidamente verificada. Iam em direção ao banheiro dos “externos” e, à medida que o cortejo avançava, às pressas, na velocidade que a longa batina bege e bem cuidada permitia ao jovem educador, a notícia se espalhava como rastilho de pólvora, com algumas distorções de praxe, e ganhava mais adeptos como em séquito de político em atos de fisiologismo em plena via pública.

Na porta de entrada, todos pararam à ordem de quem detinha poder para tanto que, empertigado, o braço direito levantado para além da cabeça de cabelos já grisalhos, apesar da jovial idade, a mão espalmada, o braço esquerdo voltado para trás, cingindo a cintura de atleta, fez-se por demais claro: Alto! A partir daqui, proíbo o acesso de quem quer que seja, até a plena resolução do caso. Só eu vou verificar, na fonte, a verdade dos fatos. Não se demorou, nem se alterou. Assim entrou, assim saiu. No retorno, foi peremptório: Este banheiro está temporariamente interditado. Senhores, para a satisfação das suas necessidades, aguardem orientações que logo virão. Agora, se dispersem! Convocou, então, um de seus auxiliares e mandou lacrar a porta do recinto, onde, no compartimento do centro, revelou-se, integralmente, a prova irretocável – literalmente – do ato censurável. Alguém tivera a ousadia, além de muita habilidade e paciência, de desenhar (era desenho mesmo!), com pincel de ponta fina e tinta azul de caneta esferográfica, na parede lateral, na altura de quem produziu uma verdadeira obra de arte sentado no aparelho sanitário, a seguinte quadra:

“Adeus, casinha da fome!

Nunca mais me verás tu!

Criei ferrugem nos dentes

E teia de aranha no…”

Ali estava, portanto, a demonstração inequívoca de que alguém pretendera atingir o excelente conceito do Ginásio Salesiano, de reconhecida reputação nos meios educacionais para além das fronteiras da terra, não apenas a que serviu de berço ao jornalista, romancista e teatrólogo Franklin Távora, o baturiteense autor de O cabeleira, mas a que viu nascer o romancista José de Alencar, o cearense criador de Iracema, a bela e destemida índia de cabelos negros como as asas da graúna e lábios de mel, que percorria, sem cansaços ou amuamentos, desde a bica do Ipu até a lagoa de Messejana – o Romantismo permitia esses exageros! Até outros mais… E o infrator deixara evidente deter algum conhecimento das renegadas, à época, anedotas do Quintino Cunha, advogado, escritor e poeta cearense, filho de Itapagé, que, excêntrico, usava, com ou sem classe, um estilo carismático e irreverente, jamais aceito por quem se incumbia da difícil e gratificante tarefa de formação de jovens. E isso podia até vir a ser um agravante…

 

Antes de prosseguir com a narrativa, permitam-me, benevolentes leitoras e leitores, fazer duas oportunas, a meu ver, inserções. A primeira, de cunho paragramatical; convém lembrar que os monossílabos tônicos, cuja vogal seja “i” ou “u” – por exemplo, o pronome pessoal “tu” que fecha o segundo verso da supracitada quadra – não devem ser acentuados; por favor, jamais imponham qualquer tipo de acento diacrítico, agudo em especial, em vocábulos como esse, com tão mínima estrutura gráfica, mas fortes sem adereços de qualquer espécie, porque existem sem espelhos, sem paralelos; quanto ao sugerido no final do último verso, substituído, moral ou hipocritamente, pelas reticências, embora plenamente recuperável em função da rima e até do conteúdo irônico do curto poema, trata-se, como se sabe sobejamente, de órgão de vital importância para o perfeito funcionamento do aparelho digestório de todo ser animal, compondo, no ser humano e como peça central, o conjunto que, não raras vezes, acomoda-se em assentos de tipos vários, quase sempre para o conforto e descanso de todo o corpo. (Apesar de alguns indigestos abalos sonoros ou mal cheirosos que ele pode naturalmente causar, nada de pruridos nem pundonores, por favor! Afinal, todos nós o temos, graças a Deus!). A segunda inserção carrega um pouco de poesia, ou melhor, trata-se do oferecimento de uma outra versão para a quadra quintiniana, num formato acima de qualquer censura, além de conter, ao contrário da original, cujo desabafo é individual, crítica de teor coletivo; senão, percebam:

Adeus, casinha da fome!

Que nós jamais a vejamos!

Criamos ferrugem nos dentes

E teia de aranha nos ânus.

Aqui, neste ponto, melindrou-se um dos dois botões da minha camisa de gola polo e cor azul, o que costuma oferecer-se para ouvir, silente, inerme, os meus queixumes, mormente quando a minha deusa da inspiração me ignora com muxoxos de desprezamentos que doem na minha sempre sensível e altiva alma, e, com um breve sorriso, interpelou-me: Aposto todas as minhas fichas que você, ora imitador do “Boca do Inferno”, não tem mais outra opção a oferecer! E eu, não percebendo em mim nada que me aproximasse sequer da verve e vigor do soteropolitano Gregório de Matos Guerra, também conhecido como “o Boca de Brasa”, cujo “populismo chulo”, segundo o crítico literário paulistano Alfredo Bosi, “nada mais é que válvula de escape para velhas obsessões sexuais ou arma para ferir os poderosos invejados”, tendo cultivado a poesia lírica, satírica, erótica e religiosa, eu, na minha singularidade, aceitando o desafio de um mero botão, refiz, mais uma vez, a quadra quintiniana, que ficou assim:

Adeus, casinha da fome!

Jamais vivi situação pior…

Criei ferrugem nos dentes

E teia de aranha no fiofó.

Com um sorriso desenxabido, amarelecido, o folgado botãozinho recolheu-se à sua sofrível significância, em casa de uma porta só.

 

A sineta tocou. O recreio findou-se. O alunado às salas de aula retornou. E a normalidade se estabeleceu. Silêncio absoluto nas áreas temporariamente esvaziadas. Apenas o assovio do vento álgido que soprava intermitentemente, vindo lá das bandas do Putiú, circulava pela área interna das edificações em formato de “cê” maiúsculo e invertido e açoitava impiedosamente as frondes das mangueiras portentosas e os ornamentais pés de jambo.

Na circunspecta sala do Diretor, reuniram-se extraordinariamente os três membros do corpo diretivo – os padres Diretor, Prefeito e Conselheiro –, além do Secretário, irmão devotado. O caso do banheiro era o assunto da pauta. Não precisava nem ser Sherlock Holmes para concluir que o jovem infrator: a) era um dos “internos”, porquanto nenhum dos “externos” teria motivo para questionar a alimentação servida, exclusivamente, aos residentes, classificação que decisivamente não os enquadrava; o fato de ter sido usado o banheiro a eles reservado ganhava contornos de tentativa inocente de despiste, de desvio de foco, para dificultar o processo investigativo que certamente se instauraria; b) era alguém prestes a despedir-se definitivamente do colégio, ou seja, tratava-se de um concludente ginasial; eis a pista mais contundente, que, inclusive, reforçava a anterior.

Como se vê, o universo a ser investigado se reduzia, portanto, a… – Exatos sete alunos, sete adolescentes. Nada mais que isso, senhores! – Complementou, com tom grave, o eficiente irmão Secretário.

Todos eles foram, então, após intimação pessoal conduzida pelo padre Diretor, isolados na sala de reuniões e, apresentadas as advertências regimentais que ao caso se aplicavam, avisados de que permaneceriam ali, sob a tutela provisória do padre Conselheiro, até que o infrator se dispusesse a confessar o cometimento do ato de indisciplina e, por conseguinte, submeter-se ao castigo justo e merecido. E a mensagem da direção fez-se cristalina: Os senhores não se apressem, não se desesperem. Nós dispomos de todo o tempo que se fizer necessário. Portanto, podemos esperar. A solução do caso está nas mãos de vocês, ou melhor, na consciência de um de vocês.

No meio da tarde, o pátio sem uma viva alma, a porta da sala se abriu e todos dali saíram aliviados, sedentos e famintos, exceto o Manelão, maranhense de Timon e o mais votado na bolsa de apostas, até porque era titular de um currículo com alguns registros nada abonadores que o incluíam na categoria “Rebeldes”. Além do castigo de isolamento até o último dia de sua marcante passagem pelo colégio, comprometeu-se o jovem infrator a assumir os gastos com a remoção de sua proscrita obra de arte na branca parede lateral, azulejada, do compartimento central do banheiro dos “externos”, valor que seria cobrado do pai, médico conceituado em sua cidade de origem.

Dura lex, sed lex.

 

Ter sido aluno salesiano foi verdadeiro presente para os atuais ex-alunos. Sem dúvida, fomos forjados na têmpera salesiana! Nossas vidas foram guiadas pela educação deles recebida: cultural, religiosa, ética e moral. Parcela grandiosa do sucesso que obtivemos devemos a eles; daí porque lhes somos eternamente agradecidos, sem demérito daqueles outros que nos ajudaram nas mais diversas etapas de nossas vidas até aqui. (Joaquim Malheiros Filho, ex-aluno salesiano e promotor de Justiça aposentado, em artigo publicado em 22 de maio de 2004, no Diário do Oeste, em Adamantina, São Paulo).

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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