A incivilidade que não incomoda – por EMANUEL FREITAS

A semana (política) começou com uma declaração aparentemente de oposição ao presidente Jair Bolsonaro (PSL) proferida pelo senador Tasso Jereissati (PSDB). Segundo o tucano, o país estaria “se acostumando com este comportamento um pouco excêntrico” do presidente.

Pelo pouco hábito de ler e interpretar o que se lê, muitos compartilharam a “crítica” de Tasso a Jair. Ora, aquilo que o presidente diariamente profere, sobretudo depois da folga que o mercado lhe deu com a aprovação da Reforma, passa longe de ser um “comportamento pouco excêntrico”. São incivilidades, mesmo; afirmações que comprometem a própria conquista civilizacional.

Seria “pouca excentricidade” dizer que sabe o que ocorreu com o pai de Santa Cruz, as declarações contra a Comissão da Verdade, a resposta acerca do massacre no Pará e tantas outras incivilidades ditas por Bolsonaro, senador Tasso?

Como se não bastasse, o senador cearense esboçou desejo de que o presidente permaneça “calado”, “para não contaminar o ambiente”, sobretudo da votação da Reforma da Previdência, “por enquanto”.

Observe o que diz Tasso: “por enquanto”, Bolsonaro poderia deixar de ser Bolsonaro, permanecendo “calado”. Um freio momentâneo às bolsonarices.

O senador cearense, de tão civilizado, ao que parece, mostra desconhecer Bolsonaro num duplo aspecto: desconhecendo o grau de incivilidade, de ameaça à civilização que portam suas declarações; crendo, ingenuamente, que Bolsonaro pode ser algo diferente do que é, do que sempre foi.

Depois de Tasso foi a vez de sua colega de Casa, Simone Tebet (PMDB) pedir que o presidente Bolsonaro não seja “adversário de seu governo”, devendo ficar “calado”, deixando de ofender “gratuitamente” a “classe política”, dando, assim, sua contribuição para a aprovação da Reforma da Previdência na Casa.

Sim, tudo vale pela aprovação de tal reforma. Até calar-se diante das inúmeras e cotidianas incivilidades ditas pelo presidente. Aliás, como deixam claro as declarações da senadora, o que incomoda, mesmo, é aquilo que o presidente diz contra a classe política. Contra índios, nordestinos, homossexuais, esquerda, presidiários, professores, jornalistas, etc, não; nada disso compõe o desejo da senadora de que o presidente venha a calar.

Enquanto parte considerável da mídia, da intelectualidade e da sociedade civil horroriza-se diante daquilo que, diariamente, Bolsonaro profere contra conquistas civilizacionais, dois (importantes) senadores não veem mais do que excentricidades, que devem ser “suspensas” em nome da Reforma.

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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