A implosão, por CAPABLANCA

É preciso compreender as pressões que se exercem sobre um homem público. Elas vêm de todo lado, de endinheirados e de poderosos, das massas e dos grupos de interesse, da imprensa tradicional e das redes sociais. Para manter-se em equilíbrio e ser capaz de compreender o que efetivamente está em jogo, exige-se que os líderes sejam preparados, honestos, dignos e inspiradores do respeito e da confiança de todos. Nem precisaria dizer que para merecer este respeito e esta confiança, é indispensável que esta liderança tenha uma trajetória de vida irrepreensível. Não precisa ser um santo, um imaculado, mas não pode ser um criminoso ou uma pessoa de relações promíscuas, de passado que o torne vulnerável.

Se você ao ler estas linhas acima, acha que está se exigindo demais de um líder de uma nação, fique logo sabendo que isto é apenas o começo. Essas condições são apenas premissas. Para alguém merecer a posição de líder, precisa dispor de muitos outros atributos. Imaginem colocar num posto da mais alta hierarquia alguém despreparado e desqualificado emocionalmente, alguém incapaz de iniciar, manter e concluir um diálogo ou um debate em elevados termos sobre temas complexos e delicados. Imagine colocar nas mãos de um desequilibrado mental o poder de decretar uma guerra…de estabelecer as políticas para a saúde e para a educação de todo um povo.

E ainda estamos nas premissas.

Alguém que se quer alçar à uma posição de liderança não pode ser incapaz de compreender o jogo do dinheiro, a lógica dos interesses econômico-financeiros de uma empresa, de uma região, de um país ou de um continente inteiro. É absolutamente necessário que este líder seja habilitado a debater sobre políticas e instrumentos monetários, assim como sobre os grandes ciclos da economia, sobre as interseções que podem unir ou afastar os diversos atores sociais no processo de desenvolvimento. É indispensável que um líder seja inteligente e disponha de um repertório de informações consistentes e de conhecimento histórico.

A vontade do povo pode fazer de um tolo e incapaz um líder? Sim, pode. Por esta razão é que as instituições devem estar acima das pessoas. Para isso existe a Constituição e existem as leis a estabelecer regras, processos, limites e punições. Sempre há o risco, nas sociedades de pouca tradição democrática, de que as instituições e as leis sejam usadas por espertos. E aí se pode compreender por que razão a qualidade dos líderes é tão vital para a democracia. Essa concepção vale para um país, para um estado ou para uma organização, empresarial ou não.

Quando a qualidade dos líderes, tomados como um conjunto, ou como uma elite, escapa dos princípios e dos valores mais básicos e fundantes, então tudo vai começar a adoecer. As leis serão manipuladas, os líderes agirão em benefício próprio, o poder do povo se esvai e as elites tudo comandam. As instituições funcionam apenas para terminar por chancelar a manipulação da vontade popular. Este é um caminho difícil de interromper.

Não demora e a hipocrisia e a cretinice passam a imperar. O crime se impõe, os desvios se tornam caminhos naturais…é um processo longo.

Este longo processo só costuma se interromper quando se destrói por dentro, implode. E quando surge uma liderança verdadeira.

Capablanca

Capablanca

Ernesto Luís “Capablanca”, ou simplesmente “Capablanca” (homenagem ao jogador de xadrez) nascido em 1955, desde jovem dedica-se a trabalhar em ONGs com atuação em projetos sociais nas periferias de grandes cidades; não tem formação superior, diz que conhece metade do Brasil e o “que importa” na América do Sul, é colaborador regular de jornais comunitários. Declara-se um progressista,mas decepcionou-se com as experiências políticas e diz que atua na internet de várias formas.

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