A haitização do mundo ou o “salve-se quem puder”

“Mas o mundo, astronauta, é boa mesa,
Onde come, brincando, só a fome,
Só a fome, astronauta, só a fome,
E são brinquedos as bombas de napalm.”

José Saramago.

O Haiti é aqui; pipoca ali; pipoca em todo lugar; afirmam-no as belas canções do Caetano Veloso.

Com uma população de 11,4 milhões de habitantes, o Haiti tem, hoje, quase metade da sua população enfrentando fome aguda, segundo dados da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura – FAO e está dominado pela corrupção governamental e pela ação de milícias e gangues que dominam as regiões mais populosas e rurais do país.

A pobreza deste país de população predominantemente da etnia africana (cerca de 95%), reflete bem o que representa pertencer à periferia do capitalismo e ser negro neste mundo.

O capital é economicamente segregacionista; politicamente manipulador; socialmente criminoso; etnicamente racista; sexualmente misógino e militarmente genocida!!!

Não são apenas a seca, os terremotos e ciclones que têm atingido ciclicamente o país os fatores responsáveis pela tragédia humanitária haitiana, e nem mesmo qualquer preconceito racial indevidamente atribuído ao seu povo, mas a resultante de um processo de relação social mundial (antes ali colonialista francês, hoje, dominado pelo capital mercantilista) no qual há sempre (e isso o disse o economista burguês Adam Smith) uma proporção de imenso contingente de pobres para uma meia dúzia de ricos.

Não são os haitianos os responsáveis por sua miséria social, mas a própria lógica de subtração capitalista das riquezas mundialmente produzidas aquilo que forma a cisão social de países para países; de regiões para regiões no interior dos países; e de bairros ricos para bairros pobres nas cidades.

Os pobres do mundo não são vítimas de uma pretensa incapacidade intelectual ou postura acomodada e preguiçosa, mas da resultante lógica e perversa de um regime de escravidão indireta patrocinado pela forma valor, abstração intelectual humana escravizadora que se apropria da vida real para submeter os escravizados do trabalho abstrato à sua essência autocrática e autotélica socialmente destrutiva, e agora, mais do que nunca, autodestrutiva.
Mas o Brasil das imensas favelas do Complexo do Alemão e Serrinha, no Rio de Janeiro, e Paraisópoles em São Paulo, como em todo o país onde tal quadro se reproduz, demonstram a existência do nosso Haiti periférico. O Haiti também está aqui.

No Estado do Rio de Janeiro, tanto na capital como nas cidades da baixada fluminense, as milícias promovem uma relação de interação criminosa com a população dos bairros da periferia perante as quais vende proteção contra os crimes de assalto e extorsão por elas mesmas praticados, e de monopólio comercial de algumas mercadorias (há locais onde o gás de cozinha só pode ser comprado a quem for autorizada a comercialização pelas milícias).

Por aqui o desemprego continua em taxas muito altas, o que promove a pressão para a aceitação popular por baixos salários e são recorrente as filas numerosas em busca de alguma oferta de emprego.

Enquanto isso os candidatos trocam entre si insultos e acusações recíprocas de crimes de corrupção e associação a criminosos remetendo a disputa eleitoral ao esgoto do lamaçal que apenas reflete o nível de decomposição cultural, estrutural e orgânico a que chegamos.

Se Boçalnaro, o ignaro, ganhar as eleições (mal maior) ele se sentirá autorizado pela população para a legitimação de tudo que é prática anti-civilizatória conquistada por todos os brasileiros a duras penas, e tentará promover o totalitarismo fascistóide que é facilmente perceptível nas suas prédicas já por demais conhecidas.

Se Lula ganhar, o que é mais provável, enfrentará as agruras de um estado falido desde há muito, mas com o orçamento fiscal ainda mais comprometido por tudo que é artifício eleitoral criminoso oficial e sob uma crise capitalista mundial sem precedentes recentes. Certamente que tentará curar o mal com a intensificação totalitária dos mecanismos próprios ao dito cujo, conforme já previamente anunciado.

Nem bem começou a ser praticado o orçamento secreto e suas verbas bilionárias já provocaram o previsível roubo pelas prefeituras do Brasil profundo e seus parlamentares com prisões efetuadas pela Polícia Federal e denúncias do Ministério Público.

E o governo que aí está se elegeu sob a bandeira do combate à corrupção que agora pratica com selo e chancela oficial sem que se saiba sequer o nome do colaqrinho branco autor do crime, vez que tais verbas são apenas endereçadas pelo relator do orçamento às Prefeituras indicadas por parlamentares cujos nomes são encobertos. É mole ou quer mais???

Mas o fenômeno brasileiro de eleição de tipos como Damares Alves para o Senado e Eduardo Pazuello como mais votado para a Câmara Federal, para citar apenas dois exemplos, apenas reproduzem um fenômeno mundial e explicitam o caráter perverso de setores elitistas da nossa população, sejam porque detêm capital ou porque sejam culturalmente dominados pelo fetichismo da mercadoria.

Cresce mundialmente o equivocado sentimento ultraconservador nazifascista diante do fracasso da social-democracia em querer humanizar o capitalismo democrático burguês. Não se entende que o que está em jogo não é uma questão de forma, mas de conteúdo.

Não há forma política bem ou mal intencionada que sobreviva satisfatoriamente à mediação social capitalista, que não é outra senão aquela alicerçada e efetivada pelas categorias capitalistas: valor, dinheiro, mercadorias, mercado, trabalho abstrato, estado, política eleitoral e partidos políticos, etc.

A questão imperiosa que se nos é colocada neste momento de exaustão do modelo é a questão de conteúdo que consiste em adotarmos outro modo de produção social compatível com o estágio do saber tecnológico que adquirimos ao longo do nosso itinerário de escravidão e sofrimentos sociais.

Ora, como nos disse corretamente Marx, é o modo de produção aquilo que define o caráter das sociedades.

Uma sociedade cujo modo de produção se assenta num critério subtrativo dessa mesma produção transformada na abstração valor sob a forma-mercadoria pelos administradores do capital em obediência à própria lógica autotélica e ditatorial de crescimento constante do dito cujo até o limite de sua saturação, como agora ocorre, não pode ser outra coisa senão a fantasmagórica, bárbara e cruel realidade do “salve-se quem puder” ora em curso.
As Damares Alves e políticos afins, prenhes de preconceitos retrógrados próprios à superficialidade dos aventureiros de ocasião, tendem a uma volta ao passado mais recente que sempre foi ruim, mas menos catastrófico do que o presente hoje vivemos, e ao invés de irmos para a frente, por medo do desconhecido pela população, conseguem convencer parte por vezes majoritária incauta à aceitação de suas cantilenas racistas, homofóbicas, odiosas, xenófobas, misóginas e de tudo que é velharias que deveriam estar definitivamente ultrapassadas mas não estão.

Esta é a explicação para a volta ao velho, como se a invenção da roda fosse um desserviço à humanidade.

Não pensem os nossos leitores que estamos todos imunes a tais equívocos. Não foi a Alemanha culta que embarcou na canoa genocida da primeira e segunda guerras mundiais de iniciativas dos seus governos ditatoriais monárquicos ou eleitorais?
Não foram os alemães que engoliram a pílula da supremacia branca ariana e aceitaram indiferentes a perseguição racista da etnia judaica, na qual se fechava e torturava pessoas pelo simples fato de pertenceram e descenderem de uma família judia instalada há anos por toda a Alemanha ajudando a construi-la, ou de pessoas por serem homossexuais (há ainda hoje países nos quais a homossexualidade é crime)?

A barbárie capitalista está instalada mundialmente e a expressão mais visível de sua presença é a injustificada agressão à Ucrânia pelo ditador capitalista russo sob o pretexto ridículo de proteção à própria Ucrânia contra o nazismo com o qual ele se identifica na prática.

Como alguém que se diz protetor de um povo ataca e mata com disparos de mísseis lançados de grandes distâncias que mata crianças e civis inocentes pode se arvorar de tal argumento?

É a inversão equivocada de conceitos que faz com que as Damares da vida; o supremacista e machista bilionário Donald Trump; a italiana Georgia Melani, fascista assumida; e a francesa ultraconservadora Marine Le Pen, para citar apenas quatro exemplos, sejam eleitos ou quase isto, é um fenômeno mundial explicável e detestável em relação fato de receberem adesões eleitorais de cidadãos zelosos dos seus comportamentos profissionais e familiares, e de recatados ou fundamentalistas religiosos que fazem vistas grossas à violência armada ou matam em nome de Jesus Cristo.

Boçalnaro, o ignaro, está mais próximo do seu antigo colega de farda Hugo Chávez do que pensam muitos dos seus incautos eleitores (há os que sabem disso conscientemente nas casernas belicistas e ambientes supremacistas e financeiros).
Mas o “salve-se quem puder” ainda vai se transformar em “salvemo-nos a nós todos, coletivamente”.

Tudo só depende de nós, pois como disse John Lennon: “se você quiser, a guerra acaba amanhã!”

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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