A GUERRA E OS PODRES PODERES

Gosto muito de refletir sobre o que leio. Esse complexo de Isaac Azimov me acompanha desde menino, quando me revoltei com a imposição de um ritual que me atribuía pecado, aos oito anos de idade, e que, a bem da verdade, eu não sabia o que era pecado nem porque teria que realizar aquele rito de passagem para um espaço de salvação. Eu era pecador sem ser, precisava ser salvo sem ser prisioneiro e não questionar nada para não ser tentado pelo demônio, ente que entendi depois que estudei que tudo era uma armação.

A propósito, li um artigo do confrade Rui Leitão sobre as guerras e resolvi expor uma visão diferente no argumento, como forma de inseminar o debate que as boas ideias proporcionam. A meu ver, a guerra não é insana, irracional e muito menos imbecil. Muito pelo contrário, a guerra é um artificio colonial de expansão de poder às custas da vida do outro. Não são os homens que se organizam do nada e fazem a guerra, são os donos de terras, os poderosos e os que sucumbem ao poder para terem uma vida acima da vida da massa. A guerra é muito bem pensada e tem uma organização lógica. Não é praticada por pobres ou minorias. Mas pelos que detém o poder. E são várias etapas necessárias para uma guerra. Primeiro, e mais significativo, o lado econômico. Toda guerra tem um fundamento econômico. E para isso é preciso camuflar a tomada de poder, demonizando o povo a ser dominado. Foi assim com os índios, os negros africanos e os médio-orientais detentores de petróleo, os judeus e agora, de forma indisfarçável, com os palestinos. Em cada etapa da história humana o poder se realiza com conquistas, apagamento cultural, quebra de resistências, genocídio e imposição de uma nova ordem. Foi sob a ideia da expansão mercantil dos séculos XVI e XVII, da escravidão como artifício de baratear os custos da empresa mercantil, da Revolução Industrial como símbolo do progresso e necessidade de transformar o escravismo em exploração dos trabalhadores, da idiotização dos povos através da associação entre política e religião que se sustém as guerras e se justificam as mortes. E a religião teve e tem um papel fundamental para sustentar o poder com a alienação em massa. Some-se a isso a necessidade de brutalizar o indivíduo pela falta de educação e de privar o povo de bens subjetivos. Sem a subjetividade a vida fica automatizada e se satisfaz apenas através da sobrevivência e da exploração dos prazeres carnais, do imediatismo e da ideia de certo e errado sendo determinadas pela ideologia da exclusão dos seres descartáveis. Esses seres descartáveis são forjados pela ideologia da exceção com um substrato moral enviesado e opressor.

Quando o povo escolheu libertar Barrabás, o ladrão, e crucificar Jesus, o revolucionário que questionava o poder, o fez sem debate, sem refletir sobre o resultado da escolha, porque ela foi proposta pelos homens que decidiam sobre a vida ou a morte. E foram exatamente os religiosos, associados ao poder militar que executaram Jesus e perdoaram os ladrões.
Quando Cristóvão Colombo, navegador mercenário que serviu aos reis da Espanha, atravessou o oceano Atlântico para estender o poder do império espanhol e fortalecer a monarquia e a sua sustentação econômica, o fez apoiado na religião. O poder da igreja de matar em nome de Deus era inquestionável. Então, a crueldade dos parasitas do sistema imperial precisava de terras, escravos e ouro e prata, para ampliar o seu poder e o gozo dos seus sentidos. Os povos originários eram somente carne para urubus e exemplo do que acontece com quem desafia o poder.

Quando Pero Vaz de Caminha descreve a mentira da invasão portuguesa (com o nome de descobrimento) e a posse das terras indígenas, realizando o maior apagamento cultural de povos originários já conhecido, o fez em nome de Deus e do rei de Portugal, jamais se referiu ao povo. Destituíram a alma e o desejo do humano nos povos originários e nos negros escravizados em nome da “humanidade” do colonizador. A isso chamaram de processo civilizatório.
Ao longo dos séculos XVIII, XIX e XX, a prática de produzir guerras nunca esteve afastado do poder econômico, da necessidade de impor uma verdade religiosa de mão única e do apagamento cultural ou simplesmente da carnificina dos povos subjugados. Napoleão, Hitler, Mussolini, Leopoldo da Bélgica, Idi Amin, George Bush e, no século XXI, Benjamin Nethanyahu, dentre outros, são os gerentes do genocídio promovido pelo sistema de acumulação de bens, dominação de mentes e associação dos pobres e massacrados ao terrorismo, ao crime e aos tipos de marginalização criadas pelo Capitalismo.
Por isso, é preciso impor uma ideia de que favelado é marginal. Morador de rua é violento e pretos ainda são um perigo, porque a distinção de cor vem da associação do branco ao divino e da negritude e mestiçagem ao demoníaco e à desordem.

Estas marcas de desumanidade não são do povo. O povo é jogado ao primitivismo da existência para inculcar a ideia de que, só se pode se libertar da pobreza, servindo ao sistema dominador e carregando uma culpa, um pecado e uma mancha na alma que se manifesta de várias formas, a principal delas é a aparência que é julgada pela indústria da beleza e da imposição de corpos trabalhados, de preferência com mentes esvaziadas para que os “bombados” sejam belos, cultuados e realizados como moeda de aceitação.

A guerra, portanto, alimenta tudo isso que é criado para anestesiar as mentes e aprisioná-las em modelos de sociedade em que prevalece o descartável e o egoísmo de ‘se dar bem’ a qualquer custo. Ou da mínima ideia de ter um corpo esbelto, ostentar uma posse de um bem ou se salvar do inferno pelo discurso vazio da falsa religiosidade, o ser humano está se autodestruindo e destruindo seu habitat de forma insana, sendo ao mesmo tempo manipulado de forma grosseira pelos poderes podres ou “Podres poderes”, como diria Caetano Veloso.

Imagem Poder 360

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 26 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014; Poesia na bagagem, 2018; Crítica da razão mestiça, 2021, dentre outros. Editor da Revista de Estudos Decoloniais da UFCG/CNPQ. Vencedor de Prêmios Literários nacionais. Contato: [email protected]