A Grama do Vizinho

Os atenciosos moradores do meu prédio, sem previamente se questionarem sobre o meu posicionamento a respeito de tão magnífica padronização das fachadas, mostraram-se por demais preocupados em exibir uma harmônica  e uniforme expressão natalina e, por isso, se anteciparam em me presentear, coletivamente, com um desses quites de pisca-pisca, que, pretensiosos, forçam uma imitação, com as estrelas. Obviamente, eu não soube a quem agradecer tão rude gentileza, então fixei na porta de entrada o seguinte dizer:

“GRATO!!

Seguido de dois enfáticos pontos de exclamação. Fico completamente perplexo ao reparar o costume do povo da cidade de insistir em tentativas supérfluas de falsear o céu, no lugar de contemplar diretamente a grandiosa beleza da natureza em seu estado mais autêntico. Agraciados com as verdadeiras estrelas todas as noites, independente da data comemorativa, em todos os dias do ano, desde sempre e até o último dia que mundo conhecido continuar a existir, arrogantes, optamos por enfeitar as vistas com outras, falsas e ainda mais efêmeras.

O casal do apartamento de cima interrompe minha reflexão com sentenças bastante ríspidas dirigidas um ao outro.

De fato, sou um homem muito bem-educado, sei apreciar com fineza a beleza de uma noite pacata. De onde eu venho, um morador recém-chegado, como eu, é recebido com uma apresentação amistosa de seu nome, sobrenome e cidade de origem da matriarca. Ainda no primeiro contato, não se dispensa os convites para uma xícara de café acompanhada por uma generosa fatia de bolo caseiro ou biscoitinhos famosos na região. Será que fui insensível ao responder minha cosmopolita vizinhança com um bilhete? Talvez unir os dois pontos de exclamação com uma meia lua em forma de sorriso subverta adequadamente a aspereza do meu agradecimento.

A mulher do apartamento de cima levanta ainda mais a voz para seu companheiro.

Do jeito que andam os ânimos ou eles se acalmam ou vão desencadear uma rixa ainda mais agressiva.

O fiz! Poucas hostilidades verbais não se acobertam perfeitamente pela desfaçatez de um forjado sorriso, o mesmo se aplica à linguagem escrita. Prezo muito pela cordialidade em minhas relações e o bem estar geral dos que me circundam. À vista disso, igualmente comprometidos com o bem-estar social da vizinhança, os distintos moradores do prédio, muito provavelmente, devem estar com ouvidos atentos na varanda, como eu, com o propósito de avaliar melhor o que é dito no duelo retórico acima, caso as agressões orais evoluam, incitando em nós, cidadãos de bem, uma intervenção rápida e precisa, o que é invariavelmente o certo a se fazer nesse tipo de situação.

Acho que quebraram alguma coisa de vidro! Ela xingou a mãe dele, batendo forte a porta do quarto.Protegida pelo cômodo trancado, grita aos quatro ventos suas desventuras sexuais, comprometendo diretamente a masculinidade do rapaz; ele não deixa por menos, apela ao acentuar os detalhes físicos que ela mesma reiterava odiar em seu corpo, o que também não se faz. Ouço sons de objetos quebrando e, na sequência, as luzes da varanda de cima se apagaram, parece que os pais dele acabaram de ser desconvidados para a ceia de Natal. Será que está na hora chamar a polícia? Novamente o curto silêncio é interrompido por uma sequência de palavrões; ela diz que vai matá-lo; ele diz que ela não consegue; ela diz que pegou uma faca; ele ri. Vou ligar!

Informei com detalhes o nível das ameaças e pedi por urgência. A sirene alta do carro da polícia calou de pronto o casal que parecia forçado a interromper décadas de insultos velados. Temi por suas vidas. Será que aconteceu uma fatalidade?

Encontrei os policiais posicionados com armas em punho no elevador, seguimos silenciosos até o andar de cima, onde uma pequena multidão de curiosos já se amontoava no hall em frente ao apartamento. Me infiltrei entre eles. Parecia coisa de filme! Um dos policiais arrombou a porta de entrada com um chutão, mas, longe de suprir nossa expectativa, o jovem casal foi surpreendido afetuosamente enroscado, debruçados sobre o janelão da varanda. Eles projetavam seus corpos como se quisessem enxergar algo que ocorria do lado de fora, o susto estampado em suas faces desestabilizou por inteiro a multidão de curiosos que se tumultuavam logo atrás das autoridades.

– Acho que vocês estão no apartamento errado. Aconteceu alguma coisa grave? – Falou a moça com convincente tom de surpresa.

Os policiais ficaram para explicar o mal-entendido. Como os demais moradores do prédio, voltei para casa embasbacado com o ocorrido. No elevador, troquei com a vizinhança uma sequência de olhares cúmplices, risos contidos e aquele: “Que noite!”, que é partilhado como um sopro efusivo de euforia. Ao chegar em casa, notei o fatídico pacote de lâmpadas natalinas ainda intocado sobre a mesa de centro, foi quando, para minha surpresa, pela primeira vez desde que cheguei, um instinto genuíno de pertencimento tomou conta de mim, eu era agora fazia parte do bando.

Naquela mesma noite, pendurei os famigerados pisca-piscas e toda a fachada do prédio ficou iluminada de maneira harmônica e uniforme, como era o natural.

:)  

Raquel Catunda Pereira

Raquel Catunda Pereira

Raquel Catunda Pereira é romancista, dramaturga e contista cearense premiada com as obras "Historia entre Mundos", Prêmio Rachel de Queiroz; "Espetáculo de Você", Concurso Jovens Dramaturgos" e "A Equilibrista", Coletânea de Contos Ideal Clube. A escritora é também Mestre em Literatura Comparada pela UFC e exerce atividades como educadora em escolas de Fortaleza.

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