A GENTE NUNCA ESQUECE…

Alguns de vós, respeitáveis leitoras e leitores, certamente pertencem à minha geração e, identicamente a mim, aprouveram-se com propagandas históricas – “Se é Bayer, é bom!” ou “Onde um pneu é um pneu!” ou “Isso é o que é!” – e deleitaram-se com publicidades televisivas cujas agências, para enfrentar desafios até então tidos como intransponíveis, como, por exemplo, criar uma boa narrativa sobre o produto em referência para um curto espaço de tempo disponível, nem sempre superior a trinta segundos, demonstraram criatividade e coragem para expor na telinha uma combinação, com esmero em busca da perfeição, envolvendo uma frase ou um jingle cuja simplicidade dissesse tudo e algo mais sobre a coisa a ser vendida e, o mais importante, caísse nas graças do grande público, uma boa e impressionável pitada de humor e um personagem que conquistasse, pela empatia, as massas que, embora sempre sedentas de consumo, ora se mostram bastante exigentes.

Nessa viagem de volta para o passado, revisito algumas produções marcantes que, a meu exclusivo critério, sempre mereceram ser tratadas como hour concours, ou seja, não poderiam participar de qualquer concurso porque seriam muito superiores aos eventuais competidores.

É o caso do estilizado passarinho da Zorba, na década de 1980. Feliz e confortavelmente acomodado na parte mais sensível e sensual da indumentária íntima masculina, ali onde o “passarinho dorme”, ele é acordado por outro da espécie, sai pela porta lateral, fecha a porta do seu aconchego e diz: “Quer agradar? Dê Zorba!”. Há quem sustente que a ideia do “passarinho” surgiu a partir do “pintinho amarelinho” do Gugu Liberato. A confirmar. Há outras narrativas da época acerca do tema, tais como: “Dia 12, embrulhe o passarinho pra presente!” – obviamente com forte valor apelativo em torno do Dia dos Namorados – e “Zorba, para seu passarinho sair do sufoco!”. E é esse “sufoco” que me faz imaginar como seria usar as tangas de couro de sete mil anos atrás. Santa evolução! Ah, naquela época, por volta da década de 1980, é claro, dominava a sensação de que havia coisas que jamais se poderia divulgar, publicizar, por serem de uma intimidade que o conservadorismo de então impediria tal afronta. E a cueca era uma delas. O sutiã e a calcinha também. Quebrou-se ali um tabu.

Quem de nós não se deliciou com o Salsicha da Cofap?! Sereno, habilidoso e intrépido, muitas foram as curvas perigosas que o cachorrinho – um Dachshund, raça de cães oriunda da Alemanha, e paixão de todos nós – enfrentou em filmagens que procuravam mostrar a eficácia, a eficiência e a efetividade dos amortecedores da marca. Essas peripécias episódicas sempre vertiam em frases de apelo comercial, como esta: “Não fique no mato sem cachorro. Use turbogás Cofap!”. Será que existia alguém com a mesma ousadia do Salsicha? Certamente, sim. Apesar dos riscos que desaconselhavam tal prática. Um dia qualquer, por alguma razão certamente relacionada à proteção animal, desempregaram o Salsicha, para o desencanto de muitos, incluindo este escrevinhador que ora vos oferece, amáveis leitoras e leitores, estas tão mal traçadas linhas. Agora confesso: eu adorava ver em ação o cachorrinho de corpo espichado. E, não sei o porquê, teimava em chamá-lo de Linguiça (à época, com trema).

Quando um produto de pequeno porte tinha pretensões de avançar no mercado em que atuava, grandes desafios certamente teria de enfrentar, incluindo o sempre corajoso e perigoso ingresso em nichos já sob o domínio de tradicionais e respeitáveis competidores. Nesses casos, uma boa e bem direcionada publicidade ajudava… e muito! Foi a aposta que a Kaiser fez aí pelos meados da década de 1980. Surgiu, então, um baixinho de bigode que, com sua indefectível boina, vivenciou inúmeras situações engraçadas, hilárias até, sempre embaladas pelo jingle “A Kaiser é uma grande cerveja… ninguém pode negar!”. Lembro-me de uma, impagável (no sentido de cômica, de não haver preço que pague): o bar cheio de gente alegre e cerveja pra todo mundo; garçons que atendem a todos com incontido prazer; o celular do baixinho bigodudo toca: é a mulher dele querendo saber por que ele ainda não tinha voltado para casa; trabalho, muito trabalho é a desculpa para quem ainda estava no escritório, fazendo serão; aí a galera toda reproduz o barulho de máquinas de escrever em pleno uso, num necessário reforço à compreensível mentira; de repente, ele percebe que a companheira está ali, também se deliciando com o néctar dos deuses, entre amigas, numa das mesas laterais do bar; e o embaraço que, de imediato, o domina vai perdendo força à medida que todos cantam o jingle já consagrado entre os “kaiserianos”. E mais um casamento é salvo.

Em 1987, a W/Brasil, contratada pela Valisère, lançou a campanha publicitária que, certamente, mais público conquistou neste país continental, com um palavreado simples, eivado de romantismo, qual seja “O primeiro sutiã a gente nunca esquece”. A menina-moça que se envergonha por ainda não usar sutiã como todas as outras coleguinhas, ao chegar no seu quarto percebe haver uma caixa de presente sobre sua cama; tomada de perplexidade ao abri-la e verificar que se trata de um sutiã, não contém a prazerosa satisfação de vivenciar, em frente ao espelho, a experiência inenarrável porque inaugural de uma nova fase da vida. À época, aquela frase se nos apresentou como uma realidade fantástica, bem mais apetecível, palatável que aqueloutra, a que afirmava gostar o brasileiro de levar vantagem em tudo e sobre a qual se fundou a questionada Lei de Gerson. Ela nos marcou tanto que passamos a usá-la em relação a vivências que jamais poderão ser apagadas da memória: o primeiro encontro, a primeira paixão, o primeiro beijo, o primeiro emprego, o(a) primeiro(a) filho(a) e por aí vai.

E por aí foi. E chegou ao hoje, mais precisamente por obra e graça de uma palavra que, desde cedo, ainda na frieza da madrugada, perturba as minhas já gastas caraminholas. E a palavra é preempção. E ela me faz, de imediato, perceber que o primeiro trabalho, de muitos que depois vieram, jamais esquecerei.

Pra começo de conversa, preempção é um instrumento de uso primordialmente contratual no universo das coisas privadas, dentre muitos que compõem o arcabouço legal brasileiro, também conhecido como direito de preferência, o qual consiste na obrigação do comprador em oferecer ao vendedor o bem que objetiva vender ou dar em pagamento, de tal sorte que este possa exercer tal direito ou, em renunciando, permitir que o negócio se faça com terceiros interessados.

Pois bem. Tão logo assumi o posto de analista de processos na área de fiscalização do BC, incumbiram-me de propor as providências cabíveis – instauração do competente processo administrativo, comunicação à Receita Federal, comunicação ao Ministério Público ou simplesmente o arquivamento –, após análise acurada, arrimada no regramento legal e infralegal então vigorante e ao caso específico aplicável, de tudo quanto se continha nos autos instaurados, após verificação fiscalizatória movida por muitas reclamações de clientes que se julgavam prejudicados, contra empresa de compra e venda de carros usados sediada a duas quadras do edifício-sede daquele órgão federal. O pressuposto era de que se configuraria ali um até então inédito caso de mercado marginal, em face da concessão de crédito, prática ilegítima, porque privativa de instituições financeiras autorizadas a funcionar pelo BC.

E como tal empresa agia? Usando farto material de publicidade, eles arrebanhavam clientes em potencial, todos interessados num tipo de negócio novo no mercado, qual fosse o de vender o carro e sair da loja ainda com a sua posse, embora por tempo determinado, preservada a propriedade então legitimamente transferida ao comprador. Ocorre que a avaliação se dava sempre a preços abaixo dos de mercado, com os negócios se concretizando invariavelmente em valores equivalentes a não mais de 75% do avaliado, dependendo do estado de conservação do bem, por meio de contratos que continham dois conjuntos de cláusulas adicionais bem interessantes: um deles equivalendo a contrato de locação de veículo, com estipulação das necessárias condições, incluindo valor mensal do aluguel e o tempo de fruição (seis meses, no máximo), e outro estabelecendo entre as partes o direito de preempção, cuja validade, no caso de bem móvel, não poderia exceder a cento e oitenta dias (daí, o contrato de locação ser de até seis meses). Cumprido esse prazo contratual, a empresa notificava o locatário quanto ao interesse de venda do veículo, concedendo-lhe o prazo legal de três dias para o usufruto do direito de preempção ou, em caso de renúncia, para devolver, por força do acordo firmado entre as partes, o bem até então por ele locado, para que a pretendida venda pudesse ocorrer com a participação de terceiros.

Como, em quase todos os casos, os efeitos da preempção não se consumavam, não eram levados a bom termo, a empresa recorria à Justiça que, por sua vez, acionava os órgãos de polícia com ordens de busca e apreensão, em favor do legítimo proprietário. Era nesse momento, sem o dinheiro da venda/empréstimo e ante o iminente risco de perder o veículo, que os muitos clientes se julgavam prejudicados.

Concluído este meu primeiro trabalho, que de minha memória jamais se apagará, configurado restou, à luz das normas legais e infralegais então vigentes, que se tratava, sim, de mercado marginal, porquanto a empresa invadira espaço onde não podia atuar, considerando, fundamentalmente, que: a) o valor da compra era, na realidade, o valor do mútuo; b) a diferença entre o avaliado e o contratado – cerca de 25%, não menos que isso – correspondia a encargos cobrados antecipadamente; c) a transferência de propriedade do veículo servia como garantia de pagamento do mútuo; d) o valor do aluguel equivalia a parcelas mensais que deveriam ir abatendo o saldo devedor do mútuo; e) o direito de preempção, combinado com a locação, funcionava, no primeiro momento, como engodo, como isca, para atrair os incautos; e, de per si, no desfecho de cada caso, como forma de garantir à empresa – e mutuante – a recuperação integral do valor emprestado, ou porque o mutuário recomprava o veículo, agora em preços de mercado, ou porque o devolvia, de bom grado (arrisco-me a dizer que nunca) ou por ação policial.

Alfim, é bem verdade, sim, que o primeiro caso a gente nunca esquece…

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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