A GENEALOGIA DA CONDENAÇÃO

Toda vida é eterna. A que dura um minuto, cem anos ou que se reintegra à energia que vibra no universo. Não existe eternidade para escolhidos. Existe uma projeção mental para aprisionar as razões pelo medo de errar, segundo a perspectiva dos ordenadores, punindo aqueles que erram. Foi assim com Prometeu, Jesus ou Mandela. 

A punição é uma ferramenta utilizada para limitar o instinto irracional humano, adequá-lo à condição de convivência racional com o coletivo. E quem determina o racional? Um sistema criado para funcionar de acordo com uma hierarquia onde, no topo, ficam os sábios, os poderosos e os mais fortes, portanto, na hierarquia que se criou para organizar a sociedade, não é admitido que existam os não sábios, os fracos e os pobres. A punição é proporcional ao “erro” cometido.

Prometeu roubou o fogo dos deuses, a sabedoria, o que daria vida às criaturas de barro que criou. Foi condenado ao castigo eterno de ter seu fígado devorado por abutres durante o dia, enquanto à noite o fígado se regenerava. Até nesse episódio, os gregos já compreendiam a fisiologia humana. O fígado é um dos órgãos que se regenera. Se tivéssemos continuado sob orientação do mundo grego, estaríamos num patamar bem mais elevado que este, judaico-cristão.

Jesus foi condenado pelos homens, seus semelhantes, porque pregou algo que não era praticado pela humanidade, o amor. Foi açoitado, pregado numa cruz e morreu. Os seus seguidores, dentre os quais alguns homens de visão, conseguiram organizar o povo em torno do cristão que se sacrificou. O sacrifício de Jesus pode ser visto sob dois aspectos: primeiro, o de extremo despojamento do egoísmo, pregando o amor e a justiça; segundo, o de que seu pai, maior que ele, Deus, enviou sua cria para salvar a humanidade. Ora, se o mundo era habitado em todos os continentes, quando os africanos, os americanos, os australianos, não dominados pelo império romano, saberiam da existência desse homem e sua sina de ser o criador/criatura de uma religião? Por acaso não seriam o amor e o egoísmo sentimentos humanos e não criações filosóficas que conceituam atitudes? Foi aí que se criou uma mitologia para explicar a necessidade de cultivar os ensinamentos de Jesus. Mas essa mitologia foi distorcida pela cúpula da igreja que nasceu deste episódio. No processo de colonização, sob a tutela do cristianismo, Deus ignora os seus filhos “pagãos” ou de outras religiões, pois assim seria preciso uma conversão para que o Deus cristão passasse a aceitar como salvo a parte do humano não cristão. 

Mandela foi condenado e preso por ser negro e querer que os negros pudessem ter a mesma igualdade de condições de existência que os brancos. Cada um com seu penar. E nós, escolhemos nossos algozes para que os condenados pelo sistema sejam punidos pelos erros que cometeram. Não é função aqui enumerar o que seja erro ou virtude, porque seria um julgamento com base no sistema que os criou, justificando a “nossa condenação”. Temos dois senhores: o Estado e a Religião. Ambos querem restringir a nossa liberdade. Ambos querem domesticar nossos sentimentos sem o suporte da razão. Foi assim que ocorreu com os índios durante a colonização das américas. Houve um apagamento cultural e a imposição de um modelo estranho, imperativo de um modo de vida que corrompeu a vida de milhões de seres humanos já devidamente adaptados ao seu modo de ser feliz. Os povos originários foram condenados por sentirem e compreenderem suas emoções e seus sentimentos através dos seus deuses ou seu Deus, sem a intervenção dos donos de Deus. 

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza - Ceará Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Vencedor de Prêmios Literários nacionais, regionais e locais. [email protected] Tem 23 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 (Coleção Alagadiço Novo, v. 29) – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Literatura Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) - Conto Super Dicionário de Cearensês, 2000; Literatura (quase sempre) marginal, 2002 – Crítica Literária.; Os gestos do amor: magia e ritual, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, 2005 – Ensaios; A essência filosófica do amor, 2014 – Filosofia/ Comportamento ; Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto

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