A FÉ A IDEOLOGIA COMO TERAPÊUTICA E ABLUÇÃO DAS ALMAS

As pestes, desde os tempos mais recuados, foram recebidas pelas populações vítimas de uma incontrolável epidemia como uma fatalidade do destino ou condenação pela vontade dos deuses tomados pela ira santa que os domina por precedência e direito divino.

Essas entidades todo-poderosas foram criadas pelo medo e pelo excesso de fé que a ignorância estimula e fortalece em determinadas circunstâncias. Os humanos carentes de explicações e justificativas, não as encontrando atribuíam aos deuses que iam criando a responsabilidade para interpretar esses mistérios. E o fizeram com tais caudados e método que passaram a designar estas imponderáveis potestades em função do poder que lhes atribuíam — por especialidade e pelas Suas indiscutíveis habilidades terapêuticas. A esse processo ingente de sondagem do desconhecido e das demonstrações conclusivas chamaram de “milagre”.

A peste negra, na Idade Media, engendrou explicações metódicas, porém reducionistas. A medicina engatinhava por esse tempo pelos caminhos árduos das descobertas dos segredos, monopólio das divindades. Xamãs, os ímãs e os monges incorporaram-se a esses exércitos brancaleones da salvação. A assepsia das almas era a terapêutica aparentemente mais eficiente para curar as vítimas das pestes que as condenavam à morte e compensatoriamente, em casos verificados e confirmados — ao Paraíso ou ao Inferno.

Queimavam-se os portadores das pestes, expulsavam-nos das cidades, punham-se as pobres criaturas em lazaretos e como tratamento adequado lhes eram reservadas as persignações e orações afirmacionistas.

Por aqueles tempos, os “negacionistas”, como hoje os denuncia judiciosamente o presidente Lula, iam direto para a fogueira das vaidades ou deles se retirava por precaução a cabeça, piedosamente separada do resto do corpo pelos anatomistas primitivos…

Com o COVID foi assim. Com a influenza, com a dengue e a Aides e com os desvios da fé e as ideologias. E pelas medidas de assepsia étnica.

No Brasil, que já se confrontara consigo memo, ao tempo de Oswaldo Cruz, na revolução das vacinas, não foi diferente. Esquerda e direita municiadas pela própria ignorância presunçosa que as acompanha tornaram-se afirmacionistas e negacionistas, segundo as próprias circunstâncias eleitas, conforme registra a contabilidade eleitoral desses brilhantes e consequentes feitos..

A morte foi sempre e sempre será um negócio lucrativo, nas guerras ou pelas endemias e pelas pestes. A morte não traz apenas tristezas, tem as suas compensações, conforme prescreve o Código Civil dos países civilizados. Uma delas e muito proveitosa, em certos casos, a herança.

Ser “negacionista” nestes tempos em que vivemos não é menos perigoso do que era no passado, a negação de alguns dogmas da fé guardados pela Inquisição, pelas milícias de Stálin, de Mussolini ou de Hitler.

A pós-verdade ou, se assim o preferirem, a “pós-mentira”, é um exercício dialético dominado por extraordinário poder lógico dotado de franquias que tornam tanto a mentira, quanto a verdade, fatores transitórios, transeuntes e provisórios de uma realidade literalmente “afirmacionista”

Não serão os médicos que alterarão esta inclinação ancestral da humanidade pelo absurdo e pela ignorância. Nem os filósofos, tampouco. É obra para os ideólogos “pós-afirmacionistas”…

Neste meio tempo secular, milenarista, a fé foi substituída pela ideologia, que, a rigor, são uma única e mesma coisa.

São unções afirmacionistas de uma realidade provisória em processo “trans” em uma sociedade “woke”, Deus sabe o que estas designações possam significar em língua portuguesa…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.