A FACE MAIS CRUEL

O capitalismo encontra formas de renovar sua exploração e de se fundir aos regimes autoritários. Coopta lideranças para lhes dar a falsa ideia de ascensão por mérito. Privilegia algumas categorias profissionais para criar uma rede de dependência e de exclusão dentro do sistema. Controla o braço armado oficial e estimula a formação de milícias para justificar a necessidade de combater o crime.

Em circunstâncias de exceção como essa, em que estamos vivendo, aproveita para acentuar as diferenças. Alimenta o ódio de classes e mantém as migalhas para os pobres e a fortuna para os ricos. Trabalha sempre com análise do mercado e prospecta soluções em vista de, caso o plano “A” não dê certo, testar todos os planos possíveis para controlar a máquina estatal, inclusive, alternando o poder entre direita e Centro-esquerda, onde cria uma zona de flutuação de políticos sempre dispostos a servirem ao capital. 

Quando chega ao poder com a direita, faz concessões porque tem uma oposição que atua na legalidade e alimenta o estado jurídico de ações e as ruas de manifestações. Quando chega pela ao poder pela via da esquerda, cria programas protecionistas e explora a máquina estatal, expandindo o lucro das grandes empresas, como bancos e empreiteiras, e aumenta as sobras da pobreza, de forma que, do muito que não se tinha, parece ser melhor do que não ter nada. 

Em tempos de crise, como em guerras ou pandemias, mostra sua face mais cruel, porque permite o genocídio como modo de eliminar os seres inviáveis e usa a economia como contraponto à mortandade. Se há, aqui, qualquer semelhança com o Brasil, foi proposital, pois as singularidades são mais fáceis de detectar no campo da Ciência. Mas como a Ciência e sempre uma coisa para cientistas, o povo quer ir para os bares, os estádios e realizar análise de conjuntura da casa do BBB. 

Bons tempos, quando ler um livro era encher a mente de ideias e alimento para conversas infinitas sobre personagens e sobre o próximo livro de determinados autores. Vejo minha face no espelho e sinto saudades. Vejo o espelho da realidade e ela me mostra a face mais cruel do que nos tornamos.

Carlos Gildemar Pontes

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza - Ceará Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Vencedor de Prêmios Literários nacionais, regionais e locais. [email protected] Tem 23 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 (Coleção Alagadiço Novo, v. 29) – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Literatura Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) - Conto Super Dicionário de Cearensês, 2000; Literatura (quase sempre) marginal, 2002 – Crítica Literária.; Os gestos do amor: magia e ritual, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Diálogo com a arte: vanguarda, história e imagens, 2005 – Ensaios; A essência filosófica do amor, 2014 – Filosofia/ Comportamento ; Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto

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