A eterna campanha: entendendo Jair Bolsonaro

O Brasil está atordoado com um presidente que arranja confusão dia sim e outro também. Muitas pessoas ficam chocadas com as declarações tresloucadas de Bolsonaro, mesmo em momentos em que uma trégua seria a melhor decisão a ser tomada, como no caso da crise atual da pandemia.

O conflito é marca registrada de Bolsonaro. Sempre foi assim, desde quando ele era um militar que tramava contra seus compatriotas a fim de aumento salarial, passando pela figura de um desconhecido deputado do baixo clero que arranjava encrenca com Deus e o mundo em busca de popularidade, até chegar à presidência da república.

Certa vez, quando era deputado, ele disse que, se fosse presidente, fuzilaria o então presidente FHC. Polêmico? Sim, essa era a intenção dele. Essa declaração o levou a ser entrevistado por uma rede de TV. Durante a entrevista, ele confessou que falou aquilo para polemizar e que, se não tivesse dito aquilo, não teria sido entrevistado por aquela TV.

Bolsonaro sempre entendeu a lógica do que chamarei de “visibilidade manipulada”. Todavia, esse fenômeno se somou a outro inédito: as Fake News em tempos de redes sociais. Uma coisa era contar uma mentira nos “longínquos” anos 90, em que a comunicação era lenta e existia um oligopólio em sua divulgação. Outra coisa bem diferente é contar uma mentira que em menos de 24h chega aos quatro cantos do país e também do planeta, sem depender de nenhum tipo de burocracia do setor de comunicação. Tanto é que, atualmente, ele esnoba a mídia, a mesma que ele precisava manipular na década de 90 para conseguir espaço para uma entrevista. Foi assim que Bolsonaro conseguiu se alçar ao cargo de presidente, usando também com muita destreza a repulsa de grande parte da população aos governos anteriores, principalmente o do PT.

Quando era deputado, fazia sentido ser polêmico 24h por dia e atiçar sua base eleitoral, o que garantia sua reeleição e de seus parentes (o que, por algum motivo desconhecido, ele chama de nova política) devido ao que o seu eleitorado poderia identificar como “engajamento” nas pautas que o elegeram.

Sabendo disso, Bolsonaro, quando deputado, sempre esteve em campanha, o que explica sua baixa produtividade na Câmara, sendo um deputado insignificante para o país, durante mais de 20 anos. Perceba, em uma campanha eleitoral faz sentido atacar adversários, se diferenciar deles, acusá-los de ações às quais rejeita. Quando finda a campanha, o político deve exercer o diálogo e a busca por consensos para que o país caminhe.

Agora, como presidente, ele entende que deve manter a mesma postura que tinha como deputado. Todavia, em tese, ele deveria ser o mais interessado em conseguir fechar acordos, realizar as reformas prometidas, enfim, aprovar medidas no Congresso, por exemplo. Mas seus atos mostram que ele não se importa com o trabalho do cargo de presidente – assim como não se importava com o trabalho de militar e com o de parlamentar. Prova disso é que ainda em 2019 – com apenas 6 meses no cargo – ele já anunciou que era candidato a reeleição em 2022, além do fato de que no meio de uma das maiores crises do planeta, com o coronavirus, ele simplesmente não se importa de desagregar e de atacar agentes políticos que poderiam ser seus parceiros para vencer a crise e evitar a morte dos brasileiros, incluindo o Ministro da Saúde indicado por ele próprio. O importante para ele é ser polêmico e garantir assim visibilidade para a sua campanha – agora, financiada com dinheiro público, como ficou claro em seu pronunciamento em rádio e TV no dia 24/03, em que chamou o coronavirus de “gripezinha” e atacou um médico e uma emissora de TV que considera seus adversários políticos. Afinal, cerca de 30% do eleitorado aprova seu governo, número que lhe garante no 2º turno em 2022 e lhe dá fortes chances de governar por mais 4 anos.

Dessa forma, sua campanha já começou. Aliás, nunca parou. Ele age da mesma forma há mais de 30 anos, uma eterna campanha que o fez passar de militar sem futuro no exército a presidente. Ele está certo em se manter em campanha, está se dando bem com isso – considerando uma pessoa que só pensa em si próprio. Os brasileiros é que têm que decidir se querem um candidato ou um presidente no Alvorada

Marcio Pessoa

Márcio Pessoa é sociólogo e professor da educação básica na rede estadual do Ceará.

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