A ESSÊNCIA DA VIDA

“Um homem velho é apenas uma ninharia,

trapos numa bengala à espera do final,

a menos que a alma aplauda, cante e ainda ria

sobre os farrapos do seu hábito mortal.”

[William Buther Yeats,

poeta e dramaturgo irlandês,

em Viajando para Bizâncio.

Tradução: Augusto de Campos].

 

De uma beleza única, inigualável, o rosto aparentemente pequeno, mas de uma expressividade elegantemente manifesta, os cabelos brancos e lisos, corte curto até à nuca, penteados para trás, airosamente adornados por fina tiara rósea com laço lateral de igual cor, os olhos irrequietos, de um azul claro generosamente atraente, e ligeiramente nipônicos – Eu sou japonesa! –, o sorriso de uma graciosidade pueril, candidamente cativante, o corpo franzino, frágil, angelical, embora exuberante na simplicidade de suas vestes, a voz agradavelmente sussurrante, límpida, suave, ela afirmou ter apenas 82 anos e sustentou chamar-se Aparecida – a pronúncia forçada de um “c” chiado como se fosse “ch” –, contrariamente ao que revelaram as zelosas cuidadoras, para quem ela é paulista, de Marília, e seu nome oficial é Carla, mas teima em usar o da filha mais velha, que mais frequentemente a visita. Extrovertida, comunicativa, sociável, o contato com ela fluiu com naturalidade, sem deixar de proteger-se ao perceber que podia revelar vivências no relacionamento com familiares e, por extensão, as razões de a terem albergado ali, no lar de idosos, quando, sem titubeios ou perturbação, mudava o rumo da conversa, como, por exemplo, ao fixar o olhar no jovem mais moreno do grupo, levantou-se, gingou, balançou os macérrimos braços e quadris e festejou a descoberta numa expressão de profusa alegria: – Baiano! Meu rei! Baiano! –, provocando em nós graciosos sorrisos e efusivos aplausos.

 

“Minhas queridas irmãs, nossa vida ainda não terminou. Viveremos. A música é tão alegre, tão viva… Poderíamos acreditar que estamos quase a saber por que vivemos, por que sofremos… Se pudéssemos saber! Ah! Se pudéssemos saber!…”

[Anton Tchekov, em As três irmãs.

Tradução de Maria Jacintha].

 

Na outra ponta do banco de alvenaria com revestimento de cerâmicas brancas, tendo como encosto a parede em textura alaranjada, um tanto quanto desgastada, o retraimento, a indiferença, a morbidez, a solidão de quem já não mais expressa nem sente quaisquer emoções. Taciturna, melancólica, apática, ausente, o olhar perdido no vazio do nada, a essência da vida completamente perdida sem a mais mínima noção do quando e muito menos do porquê, ela, certamente a mais jovem do grupo de idosos que ali convivem e dividem, em silêncio e conformismo, os efeitos das suas trajetórias pessoais no plano terreal, as vivências, as realizações, as frustrações, as venturas e desventuras, os amores e desamores, os enlaces e desenlaces, os encantos e desencantos, as batalhas travadas no cotidiano insensível e irreversível, com suas estimulantes vitórias e deprimentes derrotas, as desesperanças, as angústias, as saudades, ela – repito – apenas se entrega, sem o mais inócuo gesto de reação, à atual fase vegetativa, o vestíbulo para a viagem derradeira, tripulante de um velho barco desprovido de leme, vagando à deriva e que se deixa levar pela correnteza tranquila, calma e serena de um rio de planície. Já em fase avançada do mal de Alzheimer, revela deficiências que confirmam tal diagnóstico: o mutismo, a desorientação espacial, a incapacidade de reconhecimento de rostos – até mesmo os familiares ou de mais frequente convivência –, de controle dos esfíncteres e de realização das tarefas rotineiras, e, em consequência, a total dependência de terceiros. No aconchego maternal de braço e colo, uma bem cuidada e bem vestida boneca, que, no entendimento das zelosas cuidadoras, não simboliza um retorno à idade pueril, mas resquícios de um relacionamento generoso com os filhos que, vivendo em terras longínquas, quase nunca a visitam.

 

“Nós mortais arriscamos diariamente nossa vida porque sabemos que ela, de um jeito ou de outro, vai acabar.”

[Yuval Noah Harari,

em Homo Deus – uma breve história do amanhã.

Tradução de Paulo Geiger].

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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