A esquerda institucional, o marxismo tradicional e a crítica do valor

“o que distingue o pior arquiteto da melhor abelha é que ele figura na mente sua construção antes de transformá-la em realidade”.

Karl Marx.

O marxismo tradicional considerou que bastaria eliminar a extração de mais-valia privada, que assim passaria para as mãos do Estado pretensamente proletário, para que tudo pudesse caminhar para uma sociedade futura sem classes sociais distintas, sem Estado e sem o partido da classe operária; para uma sociedade comunista.

Concluído o processo de revolução armada, com a destituição do poder burguês (ou até mesmo feudal, como no caso da Rússia dos czares e da China dos Mandarins), seria trilhado o caminho seguro para o comunismo preconizado por Karl Marx.

Em países continentais como a Rússia e a China foi possível o fechamento das respectivas fronteiras contra o assédio e pressão contrarrevolucionária externa e interna e obter a consolidação de um poder político capaz de promover um avanço tecnológico contra a atraso e miséria social destes países precursores da experiência marxista tradicional.  
Houve êxitos neste aspecto, tanto assim que a Rússia pode se contrapor militarmente com poderio armamentista até então desconhecido contra a Alemanha de Hitler e ajudar substancialmente o mundo a se livrar do domínio nazifascista.  

Entretanto, a relação social intramuros não deixou de ser capitalista, e sob a forma política verticalizada do Estado proprietário dos meios de produção cujos dirigentes viriam do partido da classe operária e o Estado seria gerenciado dentro dos interesses pretensamente proletários.

Instalou-se o capitalismo de Estado.
A pressão contra a transição necessária para uma sociedade livre do agrilhoamento do sistema de produção social sob a forma valor e seu fetichismo da mercadoria não era (e não é) coisa fácil, principalmente quando ainda havia espaço de expansão para tal forma de relação social.  

Tanto assim que Lenin, mesmo com toda a respeitabilidade advinda da condução vitoriosa do processo revolucionário bolchevique que livrou o povo russo de um regime monárquico feudal atrasado, teve que introduzir a NEP – Nova Política Econômica –, que nada mais era do que concessões ao capitalismo privado de alguns setores da produção para o combate à fome que solapava a popularidade do regime então instalado.
Doente, e cada vez mais debilitado por enfermidade que o levou à morte em 1924, aos 53 anos e apenas oito anos após a revolução bolchevique, não se sabe se ele teria tido tempo para fazer a correção de rumos necessária.  
O certo é que em toda a sua obra político-revolucionária, Lenin jamais abordou a questão da crítica da economia política marxiana no que concerne à negatividade intrínseca da forma valor e que diz respeito à necessária superação da relação social sob tal pressuposto e suas categorias fundantes, que permaneceram intactas sob seu breve período de governo.  
A crítica do valor enquanto modo de relação social negativa sob quaisquer formas políticas de governo é parte fundamental da obra da maturidade de Karl Marx e que suponho fosse por ele conhecida como estudioso do marxismo.  
Josef Stalin, que o sucedeu no poder político russo, ao invés de caminhar no sentido da superação das tais categorias capitalistas, preferiu, por comodidade e ambição inerentes ao seu estilo ditatorial que é em tudo e por tudo contrário ao que se preconiza como sociedade revolucionária anticapitalista, de ideal comunista, preferiu perseguir antigos revolucionários, como no expurgo dos anos 30 do século passado, e positivou ainda mais o modo de produção social capitalista sob o tacão do Estado pretensamente proletário.  
A fome dos anos 30 jamais justificaria o holodomor, como ficou conhecido o confisco da produção de grãos ucraniana entre 1932 e 1933 para sustentação do regime russo e que levou à morte milhões de pessoas naquela região de agricultura fértil e que ainda hoje vive oprimida pelos seus vizinhos.
Com a vitória dos aliados na segunda guerra mundial na qual a Rússia teve papel preponderante, Stalin pôde se afirmar como grande dirigente dito comunista até a sua morte aos 74 anos em 05 de março de 1953, na Datcha de Kuntsevo, Moscou, logo após 8 anos do término da segunda guerra mundial, quando começaram a vir à tona as atrocidades por ele cometidas em nome da liberdade comunista falseada.  

Na China de Mao Tse Tung, cujo regime revolucionário havia apenas começado (em 1949, quatro anos após o término da segunda guerra mundial e sob os escombros desta), a admiração à inescrupulosa orientação stalinista
serviu como exemplo a ser seguido, numa repetição de métodos e conceitos, até 1976, quando Deng Xiao Ping, promoveu a guinada para o capitalismo privado chinês, mantendo a forma política de centralização de comando sob um partido que se autointitula comunista.  

Nos dois exemplos sabemos todos o que veio a seguir.  
A China acelerou o seu ingresso na economia de mercado até atingir, hoje, o capitalismo de mercado livre sob o regime explorador de mais-valia de agricultores pobres urbanizados para conquistar o mundo com suas mercadorias baratas vendidas na concorrência mundial de mercado, causando um decréscimo na produção global de valor nunca antes experimentado.

A Rússia seguiu caminho parecido abrindo-se à economia de mercado, cujo marco de tal comportamento é simbolicamente compreendido como o momento da queda do Muro de Berlim em 1989 e a unificação da Alemanha dividida entre o bloco dito comunista oriental e o bloco capitalista liberal na época da guerra fria.  

É interessante considerar que o capitalismo precisa de expansão comercial de novas fronteiras de produção e comercialização de mercadorias sem a qual não sobrevive, e foi justamente tal necessidade que forçou as aberturas capitalistas nestes dois países após cumpridas as etapas de modernizações capitalistas intramuros.  

Mas a expansão capitalista necessária, sem a qual o capitalismo esbarra nas suas próprias fronteiras, não pode suportar a paralisia que lhe é imanente e definha definitivamente!  

É justamente neste ponto que a teoria marxiana contida no “O Capital” e bem mais detalhada nos rascunhos de estudos de Karl Marx hoje dado ao conhecimento (nos GRUNDRISSE, obra que no Brasil somente em 2011 foi dado a conhecer no idioma português) encontra seu ponto de maior credibilidade histórica, confirmada pela atual situação de impasse irresolúvel sob a lógica da produção capitalista, equivocadamente considerada como dado ontológico da existência humana e como conquista irreversível da humanidade.  

O limite interno de expansão capitalista encontra sua fronteira histórica em dois aspectos:  
a) não há mais nenhuma sociedade mundial onde possa se instalar como novidade, e nem se desenvolver substancialmente sob os auspícios da produção mercadorias, vez que nestas sociedades empobrecidas nas quais se instalou tal modo de produção impera a miséria crescente e a barbárie;
b) a guerra da concorrência mundial de mercado impôs a substituição gradativa da fonte primária da produção de valor capitalista, o trabalho vivo, assalariado, dito abstrato porque produtor de valor econômico, pelo trabalho morto, das máquinas tecnológicas (da era da microeletrônica dos robôs, computadores e satélites de comunicação mundial imediata), que somente  produz valor de modo globalmente decrescente, porque reduz o valor das mercadorias no altar da mão-invisível do mercado sem que haja acesso à compra e venda destas pelos trabalhadores tornados supérfluos na era do desemprego estrutural.

Desta forma, a direita nazifascista, doutrina que se considerava morta e sepultada pela consciência mundial consolidada graças aos horrores produzidos por ela na segunda guerra mundial, ressurge pelas mãos daqueles que temerosos de perderem os privilégios adquiridos na sociedade do capital, ou por mera ignorância histórica, e que sem nenhum pejo defendem os seus postulados, e não raro se expondo com as insígnias que até há bem pouco tempo seriam objeto de repulsa populacional.  

Por sua vez a socialdemocracia em seus vários matizes, incorporando os partidos da esquerda institucional e os partidos dito comunistas, também institucionais, adeptos do marxismo tradicional revogado pelo próprio Marx, preconizam a volta da retomada do desenvolvimento econômico numa demonstração de duas possíveis hipóteses simultâneas ou não, quais sejam:  
– dependência por deliberada e consciente aderência à forma de relação social capitalista da qual se tornaram defensores pretensamente humanistas e administradores políticos por incrustação ou inclusão no orçamento estatal cobrador de impostos (leia-se dinheiro advindo da produção capitalista e cobrado aos explorados assalariados nos quais tal forma de relação social extrai mais-valia, e que ainda financiam a própria opressão estatal);
– por ignorância do caráter fetichista, egocêntrico, autotélico, onívoro, opressor, socialmente destrutivo e autodestrutivo da forma valor.  
E neste sentido que a crítica do valor não é uma mera corrente de pensamento doutrinário, mas a própria síntese da revolução atual antagônica ao servilismo político “bem-intencionado” e por ser uma constatação marxiana (porque foi por ele elaborada na maturidade e que se torna cada vez mais atual, cerca de 160 anos após) e que deve ser incorporada pela esquerda revolucionária como condição sine qua non para a superação dos impasses políticos-econômicos-ecológicos atuais e como forma de contraposição à autodestruição da humanidade.

A crítica capitalista feita pela esquerda tornou-se obsoleta porque se tornou parte integrante do seu próprio objeto: a produção social capitalista. Assim, é a própria esquerda que tem que se reciclar sob pena de sucumbir perante a direita que cresce mundialmente em face do descrédito dos seus opositores de esquerda por estes últimos não apresentarem e defenderem alternativas consistentes.  

Trilhar um caminho pedregoso, com os graves riscos de quem trafega na contramão do sistema, é a única forma de atingirmos aquilo que Karl Marx preconizou como forma de alcançarmos os cimos luminosos que a própria humanidade forjou ao desenvolver os saberes científicos atuais.

Tais saberes ora adquiridos, caso instalássemos revolucionariamente um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades coletivas e não para a já impossível reprodução capitalista do valor no quantum necessário para a sobrevida do sistema de exploração, nos possibilitariam uma vida confortável e sustentável ao invés da barbárie que se instala pela contradição entre tais saberes e o conteúdo da relação social que se tornou obsoleta junto com os postulados políticos ora praticados.  

Não precisamos de salvadores da pátria, nem de pátria;  
não precisamos de estadistas, nem de Estado;
não precisamos de guerras, mas de paz em uma vida sem armas;
não precisamos de riqueza abstrata acumulada por poucos, mas de riqueza material acessível a todos;
não precisamos de eleições para o exercício de um poder delegado e vertical, mas de decisões horizontalizadas, sem transferência de responsabilidades a procuradores infiéis;
não precisamos de heróis, mas de gente simples e de vida simples compartilhada e solidária;
não precisamos da morte, mas de vida sustentável, longeva, saudável e feliz!

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;