A era digital está virando uma nova idade das trevas

 A máscara da economia digital adotada pelo capitalismo em sua fase neoliberal está se mostrando mais selvagem que as versões anteriores. Em vez de caminharmos para uma era da informação, prosperidade e esclarecimento, estamos regredindo à idade das trevas.

Dois autores essenciais para pensar o mundo de hoje e para onde iremos amanhã, são Cédric Durand, autor de “Tecnofeudalismo: crítica da economia digital”  e Naomi Klein, que escreveu “A Doutrina Do Choque. A Ascensão Do Capitalismo Do Desastre”.
Durand, cujo livro ainda não tem tradução para o português, aborda a ideia de que com as novas tecnologias, o capitalismo se renovou regredindo. O Big Data e as Big Techs (Google, Amazon, Facebook, Uber…) não tornaram melhor a vida das pessoas, mas estão criando verdadeiros feudos e tornando impossível a sobrevivência econômica  sem o uso das grandes plataformas onde predominam o monopólio, a vigilância e a captura de dados em um processo que se autorreforça pois seus serviços são cada vez mais indispensáveis.
“No seio do mercado, havia uma monopolização, por parte do capitalismo, dos meios de produção, mas estes meios eram plurais. Os trabalhadores precisavam encontrar emprego e, de certo modo, podiam escolher o posto de trabalho. Existia uma forma de circulação que dava lugar à concorrência. Nesta economia digital, neste tecnofeudalismo, os indivíduos e também as empresas aderem às plataformas digitais que centralizam uma série de elementos que lhes são indispensáveis para existir economicamente na sociedade contemporânea. Trata-se do Big Data, das bases de dados, dos algoritmos que permitem os processos”.
Já Klein mostrou como o capitalismo usa graves crises, muitas das quais provocadas por ele mesmo, para aplicar medidas desumanas e até genocidas, com investidores privados se apropriando de bens e recursos públicos e depois transformando essas reformas em mudanças permanentes.
Em  meados do ano passado, ela publicou o artigo “Corporações tentam acelerar distopia tech” revelando como os gigantes do Vale do Silício estão usando a pandemia Covid-19 para aumentar seus lucros e redesenhar o mundo.
“Muito mais high-tech do que qualquer coisa que vimos nos desastres anteriores, o futuro que está surgindo à medida que os cadáveres ainda se acumulam está tratando nossas últimas semanas de isolamento não como uma necessidade dolorosa para salvar vidas, mas como um laboratório vivo para um futuro permanente — e altamente lucrativo — sem contato físico.
Esse é um futuro em que, para os privilegiados, quase tudo é entregue em casa, virtualmente por meio de tecnologia de streaming e nuvem, ou fisicamente por um veículo sem motorista ou por um drone, e então ‘compartilhados’ na tela de uma plataforma mediada. É um futuro que emprega muito menos professores, médicos e motoristas…É um futuro que alega ser executado por ‘inteligência artificial’, mas na verdade é mantido em funcionamento por dezenas de milhões de trabalhadores anônimos escondidos em armazéns, centros de dados e moderação de conteúdos, fábricas escravizantes de eletrônicos, minas de lítio, fazendas industriais, frigoríficos e prisões, onde são deixados desprotegidos de doenças e hiperexploração. É um futuro em que todos os nossos movimentos, todas as nossas palavras, todos os nossos relacionamentos são localizáveis, rastreáveis e passíveis de terem seus dados minados por colaborações inéditas entre os governos e as empresas gigantes de tecnologia”.
Esse futuro apontado por Durand e Klein é sombrio. Moldado por uma aliança espúria entre grandes empresas de tecnologia, corporações financeiras e governos, aponta para a instauração de monopólios, dependência, manipulação política, privilégios e predação global.
Está calcado na disseminação de mentiras (fake news), absurdas teorias da conspiração, como a de que vacinas são maléficas, e meias-verdades usadas para confundir em vez de informar.
Pressupõe, como já acontece em muitos lugares, uma vigilância constante e o uso de nossos dados por empresas privadas para fins comerciais ou para detectar e influenciar as tendências políticas e os comportamentos sociais, como ocorreu nas eleições de Trump e Bolsonaro.
Ao contrário dos que muitos afirmam, as tecnologias não são neutras e precisam ser reguladas, tendo em conta os direitos e o bem-estar da maioria.
A máscara  da economia digital adotada pelo capitalismo em sua fase neoliberal está se mostrando mais selvagem que as versões anteriores. Em vez de caminharmos para uma era da informação, prosperidade e esclarecimento, estamos regredindo à idade das trevas.
Links:
A hipótese do Tecnofeudalismo – https://bityli.com/c65OL
Corporações tentam acelerar distopia tech- https://bityli.com/NYevU

Haroldo Barbosa

Jornalista independente, assessor de comunicação, sócio da @abraji, apaixonado por software livre.

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