A DITADURA DO FETICHISMO DA MERCADORIA

Não há ditadura maior do que o fetichismo da mercadoria. Assim o é porque se processa na mente, ainda que seja auxiliada pelas armas e imposta por estas desde os primórdios do seu surgimento.

Mesmo diante da evidência das mudanças climáticas causadas pela maior emissão de gás carbônico na atmosfera pelas duas locomotivas capitalistas do Mundo, Estados Unidos e China, que atingem países ricos e pobres (com evidente maior prejuízo para os segundos, pela pobreza que só aumenta), e compromissos firmados e inadimplidos nos fóruns internacionais de que promoveriam a redução de tal procedimento, o capitalismo segue em frente na sua autofagia suicida.

No momento que escrevo este artigo, o Rio Grande do Sul padece sob tempestades de chuva e vento que matam e desabrigam milhares de pessoas como nunca antes se viu.

Mas não só o Planeta se aquece como se intensificam as guerras com poderio bélico nunca antes existido, mas também podemos sucumbir como espécie por uma guerra nuclear atômica que a todo dia se anuncia como possível.

A que se deve o flagelo da guerra senão à ambição de poder e riqueza proporcionados pelo fetiche da mercadoria que embrutece o ser humano e ocorre em nome da vida provocando a morte???

Por que se gastam milhões na produção de armamentos senão para gerar o lucro da venda de tal produção e dar poder a quem as detém como forma de submeter os demais seres humanos dos países que se quer subjugar, senão em razão dessa coisa absurda que é a coisificação da vida pelo processo de mercado onde se processa a celebração da morte no altar do fetichismo da mercadoria, o santo Graal da “modernidade” decadente???

O jovem estadunidense que deixou sua vida e seu sangue derramado nas terras vietnamitas, ou voltou mutilado no corpo e/ou na alma por matar pessoas que desconhecia, é igual aos russos e ucranianos que deixam seus sonhos de amores e realizações nos campos de trigo do país invadido.

Entretanto, Lyndon Johnson e Vladimir Putin, títeres da tirania política do capital, justificaram e justificam a morte em nome de uma hipotética vida coletiva que eles afirmam estar ameaçada sem explicar que são movidos por uma engrenagem política a serviço do capital do qual são obedientes representantes teleguiados por uma esquizofrenia demoníaca que lhes dá ordens repulsivas e que consiste no fetichismo da mercadoria.

A vida sob o regime de produção de mercadorias ilude a todos como o sonho do apostador de bilhetes de loterias que faz planos de gastos da dinheirama que pode ganhar por meio daquele bilhete e que assim continua a jogar mais para manter o sonho e a esperança de ganho viva, ainda que sempre irrealizada, do que a incerteza das probabilidades de que um dia vai ganhar o prêmio ainda em vida.

O êxodo de jovens russos temerosos de uma convocação militar para a guerra eufemisticamente denominada de “operação especial na Ucrânia” que a propaganda oficial tenta convencer como sendo necessária por conta de pretensos “objetivos nobres” que implicariam sobre a dignidade heróica de defesa da pátria, resulta de uma consciência que se cria sobre a iniquidade da guerra.

Heróis são os que têm a coragem de dizer não à guerra, ainda que isto lhes custe perseguições e mortes.

Os protestos no campus da Universidade de Columbia, nos Estados Unidos, em New York, contra o massacre do governo de Israel aos palestinos em Gaza, foram reprimidos por policiais obedecendo ordens políticas que justificaram (injustificadamente) o ato como sendo “iniciativa para retomada do Campus, que sofreu atos perturbadores de violência, formas de intimidação e destruição de propriedade”.
A violência e prisões policiais dos estudantes e outros que se manifestavam no pátio da Universidade de Columbia e no seu Hamilton Hall
contra a violência em Gaza é tratada pela sociedade da mercadoria como legítima defesa, tal qual faz o regime sionista de Bibi Netanyahu confirmando aquilo que disse Bertold Brecht: “do Rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem.”

Há uma violência intrínseca à forma-mercadoria, mas que por sua aparente neutralidade, ou seja, por se apresentar como um fato social aparentemente ingênuo e benfeitor (mas trágico) que consiste em produzir um objeto que é transformado em mercadoria e que atende ao consumo e satisfação de uma necessidade social, humana, de modo meramente oportunista, encobre a essência de seu conteúdo de segregação social.

A forma-mercadoria havida pelo oportunismo de uso dessa mesma necessidade humana de consumo para se obter a escravização indireta pelo trabalho abstrato produtor de mercadoria e mais valia que concentra a riqueza social material transformada em riqueza abstrata e que assim viabiliza à acumulação excludente do capital, tem sua essência configurada como um vírus corrompedor de toda a sociedade e de decomposição da alma humana.

A mercadoria tem valor de uso e valor de troca que se consubstancia como acumulação excludente de valor do tempo-trabalho nela hipostasiado, que se transforma em acumulação do capital num processo de necessária reprodução continua que tende ao infinito, mas que termina por esbarrar na finitude do consumo humano e nas contradições que lhes são imanentes, tornando-se socialmente destrutiva e, por fim, autodestrutiva de sua forma fantasmagórica.
É a segregação social da forma-mercadoria e seus paradoxos existenciais que se manifestam nas disputas de mercado, onde cada capitalista produtor e detentor da sua mercadoria, tenta excluir os seus concorrentes, após explorar o trabalho abstrato e o tempo-valor de quem a produz, aquilo que serve como eterno motor da guerra entre os homens teleguiados pela ditadura da riqueza abstrata nela contida e à qual os homens servem politicamente.

Como se falar, portanto, em democracia como sinônimo de expressão da livre vontade coletiva, ou seja, de eleições livres para escolha de um governante que nada governa, mas é que governado a priori por uma relação social ditada pelo fetichismo da mercadoria que a tudo corrompe socialmente???

Quando um governante se corrompe, apropriando-se indebitamente dos impostos estatais do aparelho de estado que serve à grande e abrangente corrupção da forma-mercadoria (leia-se capitalismo), seja para si ou para a manutenção política do seu partido, ele está estabelecendo uma concorrência com o Deus a que serve politicamente (o aparelho de estado nada mais é do que um serviçal do capital), daí porque há um constante frisson entre a necessidade de reprodução do capital e a debilidade de sua cidadela protetora, o estado, quando subtraída pela corrupção política.
Sergio Moro, e seus amigos do Ministério Público, manipulando o processo criminal pelo uso de arbitrariedades na instrução processual que promoveram, pareceram falsamente e equivocadamente ao grande público como benfeitores sociais, induzido por um processo midiático político-judicial parcial e faccioso de combate à corrupção com o dinheiro dito público (que além de não ser do público pagante, existiu e ainda existe), e que num primeiro momento foram endeusados (e ainda o são por incautos observadores da cena política), inclusive a ponto de ter boneco inflado em manifestações públicas como sendo um super-homem.

Na história dos anais da vida pública brasileira, o episódio da Lava Jato, serve e servirá de estudos futuros para que se compreenda que enquanto existir a forma-mercadoria como sistema social de produção, existirá o facciosismo judicial hipócrita; a corrupção sistêmica imanente ao próprio capital; e de quebra, a corrupção política e do crime organizado, que se confundem por objetivos comuns: poder do dinheiro, e seu poder derivado sem soberania de vontade: a política.

O dinheiro, única mercadoria sem valor de uso, é a representação numérica da abstração valor que comanda negativamente a vida social real e que somente se reproduz pela fórmula da crítica marxista: dinheiro que se transforma em mercadoria, que se transforma em mais dinheiro (D=M=+Dinheiro), num processo que tende ao infinito até esbarrar na ilogia de sua própria essência destrutiva e autodestrutiva, crítica jamais observada pelos maus intérpretes ditos marxistas dos ensinamentos de Karl Marx, o sábio barbudo judeu-alemão antissionista, tal qual Albert Einstein.

Mas ainda há esperança. Afinal, é durante a escuridão da noite sombria que se pode ver o brilho das estrelas!

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;