A CULTURA DO DESCARTÁVEL

De há muito tenho percebido que a principal filosofia do século XXI é a do descartável. Ainda na época de estudante de Letras, quando escrevi a primeira crônica, preocupei-me com as miudezas que eu juntava, irritavam minha mãe, e o fim que elas teriam com o tempo, quando os espaços diminuiriam e a gente fosse obrigado a viver naqueles minúsculos apartamentos dos filmes.

Minha mãe tinha uma noção de limpeza que eu duvidava ser possível algo mais limpo que a TV, o chão da sala, a cristaleira com peças de porcelana chinesa legítimas, quando a porcelana não era feita para quebrar e ser jogada fora. Os chineses comunistas faziam as coisas para durar. Os chineses da geração coca-cola fazem as coisas para descartar. Essa é a lógica do Capitalismo. Consumir, exaurir e descartar para reiniciar o ciclo de consumo. Neste processo, o homem entra como consumidor, usufruidor e, ao descartar o excesso ou o não utilizável, descarta um pouco de si também.

Não falarei dos acumuladores compulsivos, porque não quero invadir o terreno dos psicanalistas, eles já têm problemas e se alimentam dos problemas alheios, muitas vezes descartando os seus para o quartinho da bagunça existencial. Mas, como disse, esse terreno é deles. O meu é o da observação e do registro.

Primeira vez que eu me deparei com as sobras e o que fazer delas, era ainda adolescente. Tomava café com pão e, sem minha mãe por perto, para me repreender, deixei cair farelos de pão na roupa, no chão, sobre a mesa era uma verdadeira farofada. Foi aí que observei uma formiga realizando sua busca de comida para o formigueiro. Não irei me meter com os zoólogos especializados em insetos, mas as formigas têm um olfato superior ao olfato dos leões, se compararmos os tamanhos dos animais. O bom da crônica é que ela nos permite desvairar. Pois bem. A soldadinha provou o farelo de pão, carregou um na sua mochila atrás da nuca (suponho) e desabou rumo a outras que vagavam pelo chão, já cada uma carregando a sua cota. Em pouco tempo, dezenas de formigas invadiram meu terreiro e, me ignorando completamente, rapidamente fizeram a limpeza. Restaram os farelos sobre mim. Sacudi-os e me afastei um pouco para que elas continuassem o serviço. Aquelas formigas socializavam as sobras. Como uma sociedade que depende um indivíduo dos outros, todas trabalhavam e preservavam o bem comum na sua coletividade.

Quando me tornei um homem inseticida, que não admite formigas no seu pequeno apartamento, percebi que tinha me tornado uma peça de decoração no meio da natureza das coisas animadas. Vivia em função de organizar tudo e me adaptar ao espaço do mínimo. Não sei quando me tornei assim. Não sei se posso voltar a ser esfarelador de pão e amigo das formigas. Talvez eu tenha sido descartado pelo sistema e esteja apenas esperando o momento de ele me entregar às formigas.

De que serviu me transformar neste autômato que trabalha até não servir mais? De que vale ter sobras sem formigas? Assim me parece a solidão. Nós descartamos a presença de outros seres que vamos soçobrando das nossas relações até que um belo dia, belo? Sim (para muitos que ficarão será um belo dia), você vai se deparar com um vazio profundo e terá na memória apenas o pesadelo de querer ser novamente aquele velho menino sonhador que esfarela o pão.

 

 

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza – Ceará. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor em Letras UERN. Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 25 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014 – Ensaios; Poesia na bagagem, 2018 – Poesia; O olhar tardio de Maria, 2019 – Conto; Crítica da razão mestiça, 2021 – Ensaio, dentre outros. Vencedor de Prêmios Literários nacionais e regionais. Contato: [email protected]

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