A ARTE DE CONTAR

REVISITEI-OS. É O QUE COMUMENTE FAÇO. É ASSIM QUE INVARIAVELMENTE ajo ao me afligirem pressentimentos de que meu irrequieto espírito tende a esboroar-se de cruciais enfraquecimentos, a padecer de graves e inexplicáveis acabrunhamentos e, por conseguinte, a carecer de urgentes e eficazes estímulos de revigoramentos. (Torno-me repetitivo? Sim! Jamais hei de, no particular, deixar de sê-lo. Confesso que isso me faz bem.).

Valho-me, então, de intervenções regenerativas de consagrados mestres das narrativas, em prosa ou versos, de respeitáveis arautos das ideias que brotam de mentes abundantemente vicejantes, isentas de intercorrências de qualquer ordem, imunes de perturbações de qualquer matiz, insubmissas a altercações de qualquer natureza, de quem, enfim, reconhecidamente se sobressai nesta divina arte de criar e recriar, cujo processo construtivo tem, no pensar e no sentir, no perceber e no avaliar, a fôrma e a centelha, e, na palavra, o seu principal insumo, a matéria prima em essência, a rocha marmórea a ser esculpida, o barro à espera do sopro vital. Então, eu os visito. Ou revisito.

Assim, enveredo-me por caminhos – seguros porque tantas vezes percorridos, por essa ou por outras razões de inquestionáveis validezes – que me permitem o aprazível e deleitoso embrenhamento por searas férteis, fecundas, de cultivos bonançosos, reconhecidamente frutíferos, sempre generosos na revitalização dos que sofrem de perda de ânimo e neles encontram o alimento ideal. Então, eu os leio. E até os releio.

E é assim, pela leitura, que, às vezes, vou de Machado a Montaigne, sem deslembrar Huxley, o mestre da “narrativa das ideias”; em outras, de Campos a Harari, com passagem introspectiva por Pessoa; ou de Lispector a Guimarães, sob o olhar telúrico e poético de Alencar; e ainda, de Rubem a Rubens, ou seja, do singular Alves, o pedagogo e educador – a quem me curvo em especial reverência –, ao plural Fonseca, o narrador da violência urbana, com parada estratégica em Quintana, o “aprendiz de feiticeiro”, com seus poemas que espargem a inconfundível voz da surpresa e do espanto; e também de Saramago a Brown, com uma inevitável incursão por Yalom, o psicoterapeuta e professor que se revela talentoso escritor; enfim, de tantas fontes, de águas cristalinas ou turvas, remansosas ou revoltas, volumosas e profundas ou nem tanto, extraio o bálsamo que me revigora o desassossegado espírito, que lhe dá ânimo novo. E como se fênix fosse, das cinzas renasço.

Agora, no fluente caso, rememorando os idos tempos de leitor contumaz das crônicas de Airton Monte, poéticas, e as de Tarcísio Matos, hilárias, em espaços abertos em jornal local, sem me descuidar, contudo, da poesia cabocla de Patativa do Assaré, essências balsâmicas também, embora de distintos efeitos, permiti-me fazer uma caminhada por solo paraibano. Sem da minha alva rede de varandas ausentar-me, é óbvio! Viajo, pois, nas asas da prazerosa leitura. Em deleitoso voo.

Em João Pessoa, a simpática capital do Estado, com sua orla de naturais embelezamentos e prazerosos encantamentos (os quais um dia saboreei até fartar-me, em solo próprio, graças à generosidade de um compadre amigo, filho arretado de Alagoinha), revisitei Ariano Suassuna, o gênio da prosa cabocla, sertaneja, puramente nordestina, autor de Romance d’A Pedra do Reino e do clássico Auto da Compadecida, sem citar outras obras de igual jaez, de quem ouvi, em edição especial, um dos hilários causos com sabor de anedota, cujo autor ninguém nunca ouviu falar, envolvendo o general Góis Monteiro (Pedro Aurélio de), então ministro da Guerra de Getúlio Vargas.

Segundo o celebrado dramaturgo, que dizia gostar de doidos porque, na loucura, eles veem os fatos com olhar diferenciado, o que os aproxima da realidade não alcançada com a mesma profundidade pelos que se autonomeiam lúcidos e se satisfazem com o perfunctório, passageiro e superficial das coisas; e complementava: E é assim, indo além do normal aparente, do óbvio, que sempre agem os bons escritores, ou seja, com um outro olhar sobre o mesmo objeto; que declarava ser defensor da mentira – e ele a praticava com esmero! –, desde que, não ofendendo a ninguém, ela servisse à arte; que, do seu rico repertório de frases, ora elejo, por óbvio, esta: Quem gosta de ler não morre só; que criou personagens alegóricos, pois não representavam indivíduos, mas tipos de uma específica cultura, dos quais válido é ora citar João Grilo, o traquinas de fina astúcia, e Chicó, o contador de causos e mentiroso ingênuo; que admitia, sem pestanejar nem gaguejar, ter perfil que se aproximava mais deste que daquele; que recorrentemente deixava transparecer o amor que devotava incondicionalmente à sua língua mátria, para ele a mais melódica entre todas as outras; pois bem, conforme Suassuna e o seu jeito bem peculiar de narrar causos, o ministro da Guerra da Alemanha nazista teria convidado os seus congêneres da Itália fascista e do Brasil da Era Vargas para, em Berlim, conhecerem a organização e a disciplina do exército sob seu rigoroso comando. Eles, com a escolta de 10 soldados de suas respectivas nacionalidades, agora acomodados em avião de transporte de tropas, a 10 mil metros de altura, ouviram da autoridade hitlerista: Eu vou lhes dar uma demonstração da disciplina do povo alemão e do seu exército. Convocou, então, um de seus soldados que, perfilando-se diante dele, reverenciou-o com uma singular continência. E entre eles se estabeleceu este diálogo: Você ama a Alemanha? Sim, senhor! Você respeita o nosso Führer Adolf Hitler? Sim, senhor! Então, salte de cabeça e sem paraquedas. E o soldado saltou para a morte. Nisso, o ministro italiano julgou que alcançaria o mesmo resultado. Convocou, então, um de seus soldados que cumpriu o mesmo formalismo. E idêntico foi o diálogo entre eles. Você ama a Itália? Sim, senhor! Você respeita o nosso Duce Benito Mussolini? Sim, senhor! Então, salte de cabeça e sem paraquedas. E isso aconteceu. Agora era a vez do ministro brasileiro. E Góis Monteiro não se fez de rogado. Escolheu um de seus soldados, e o protocolo foi o mesmo. Só o diálogo é que não. Senão, vejamos. Você ama o Brasil? Sim, senhor! Você respeita o nosso chefe nacional, o presidente Getúlio Vargas? Sim, senhor! Então, salte de cabeça e sem paraquedas. A reação teve tudo de jocosidade e nada de disciplina. Mas será possível?! Às nove horas da manhã, tu já estás bêbado, Góis?! E ali se salvava mais um destemido brasileiro por conta da insubmissão, ou melhor, da irreverência de caráter nacional.

Já em Campina Grande, a Rainha da Borborema, quem me recepcionou foi Jessier Quirino, o arquiteto da poesia cabocla, sertaneja, tipicamente nordestina, o versejador genial, o contador de causos versátil e versado nas coisas do sertão, do agreste, o fazedor de artes de robusta prodigalidade. Deu-me, então, as boas vindas, recitando em grande estilo o seu Paisagem do interior (Matuto no mei da pista / menino chorando nu / rolo de fumo e beiju / colchão de palha listrado / um par de bêbo agarrado / preto véo rezador / jumento, jipe e trator / lençol voando estendido / isso é cagado e cuspido / paisagem de interior). E por aí vai… com o dizer “cagado e cuspido”, de uso corriqueiro nas brenhas do sertão e enfiado no refrão com que o autor arremata cada uma das nove estrofes de dez versos, remetendo, por vias tortas e de forma degenerada, à expressão “esculpido em Carrara”, o mármore da Toscana (Itália) muito usado em esculturas com reconhecida parecença com os respectivos homenageados.

Permitiu-me, então, declamar o seu Comício em beco estreito (uma referência fônica circunstancial ou proposital, diria eu, a Baker Street, uma das mais conhecidas ruas londrinas, endereço fictício do detetive Sherlock Holmes, personagem criado pelo escritor Arthur Conan Doyle e transportado para o Rio dos tempos imperiais pelo humor irônico de Jô Soares, em O Xangô de Baker Street). E eu me esforcei, além dos limites de minhas inexpressivas possibilidades, para imitar o mestre, embora convicto estivesse de jamais atingir tal desiderato. (Pra se fazer um comício / Em tempo de eleição / Não carece de arrodei / Nem dinheiro muito não / Basta um F-4000 / Ou qualquer mei caminhão / Entalado em beco estreito / E um bandeirado má feito / Cruzando em dez posição). E por aí vai…

E, se Ariano sabia exemplarmente, Jessier sabia e sabe, bem melhor que muita gente tida como boa no mister, com doses certas mesclar o humor brejeiro, a ironia jocosa e o sarcasmo saudável. E, ao ouvi-los ou lê-los, não há quem consiga não sorrir.

E os dois paraibanos, o imortal Suassuna e o vivíssimo Quirino, então me fizeram recordar modestas e divertidas incursões de dois personagens – Zé Augusto e Zé Carvalho – em narrativas do meu multifacetado protagonismo, os quais, em distintos espaços – um em Baturité; o outro em Caucaia – e assíncronos tempos – um na minha adolescência; o outro já na minha idade adulta –, concorreram, com boas pitadas de essências edulcorantes, dulcificantes, para saborosos momentos de graça, de prazer, de satisfação. De alimento para o desassossegado espírito, em síntese.

O Zé de Baturité, augusto certamente por ser respeitável como arrimo de família, como marido de uma exemplar prenda do lar, como pai de uma reca de filhos, uma escadinha de não menos de oito degraus, e como profissional – era agente de endemias, popularmente conhecido como “mata-mosquito” –, gostava de, aqui e acolá, encostar-se em balcão de bodega e tomar umas e outras, sem ou com tira-gosto de torresmo, com alguma sobra lançada ao vento para a recolha dos santos (afinal, aqui pra nós e que a torcida do Flamengo não saiba, para os bêbados tudo se dá em abundância; fácil se torna, portanto, a partilha).

E era esse hábito que, de certa forma, definia o seu comportamento tão antagônico, os dois jeitos tão díspares em suas relações interpessoais, notadamente as do seu cotidiano convívio. Se sóbrio ou ébrio, sucumbia a uma timidez exacerbada que o fazia andar de cabeça baixa, sem esboçar o menor gesto de aproximação mínima com quem quer que fosse, até embrenhar-se pelo interior da sua moradia, sumindo das vistas e das oiças de todo ser vivente e, por assim dizer, abelhudo, bisbilhoteiro, em medidas várias. Agora, se ele estivesse em meio termo, ou seja, nem sóbrio nem ébrio, mostrava-se sociável, cumprimentava solenemente as pessoas, conversava longamente, falava com fluidez e pertinência, revelava inteligência, mundividência e senso crítico; era, sim, um ser deveras interessante.

Num sábado à tarde, estávamos – eu, o Zé Milton do Chicó, o Claudionor e o Claudemir da dona Eunides, o Marcos Alverne e o Sérgio da dona Fransquinha, e o Tico do Mário, todos adolescentes ou pré – sentados no velho camburão enegrecido, sem boca e sem fundo, deitado e recostado na parede de trás da capela de Cristo Redentor, enchendo miolo de pote enquanto esperávamos outros integrantes da turma, de forma que pudéssemos desenvolver alguma atividade lúdica de nossa preferência (jogo de bola ou da bandeira, quase sempre), quando o seu Zé Augusto surgiu do nada, aproximou-se de nós e, de pronto, reclamou o direito de sentar-se. Devidamente enturmado, ele instigou-nos assim:

– Meninos, vocês são estudiosos, inteligentes. Por isso, trago uma charada cujo mistério espero que vocês desvendem. É o seguinte, dois pontos. Prestem bem atenção. Numa cidadezinha do interior, cometia pecado mortal quem não guardasse o dia da santa padroeira. Era mal visto quem desrespeitasse essa regra, quem não observasse esse costume já tradicional. Ocorre que um cidadão, recém chegado àquelas paragens, por total desconhecimento dessa norma, resolveu pescar neste abençoado dia. Os que o viram indo pras bandas do rio com os apetrechos de pesca nada lhe disseram. A natureza cuidaria de castigá-lo na exata medida do seu merecimento. Quando o pescador voltava pra casa, certos de que ele nada conseguira, perguntaram-lhe: E aí, a pescaria foi boa? E ele respondeu: Mais ou menos, amigos. Alguém, então, quis saber: E quantos peixes pegou? Ele matutou um pouco e assim matou a curiosidade daqueles homens: Eu pesquei nove sem cabeça e seis sem rabo… E aí está o enigma a desvendar.

O seu Zé Augusto, que era casado com dona Fransquinha e morava na casa em frente, ordenou o Sérgio, seu filho, a ir pegar um caderno, um lápis e uma borracha. E retomou a conversa.

– Enquanto ele não volta, ouçam esta historieta que agora vou lhes contar. A paróquia de uma outra cidadezinha do interior recepcionou um novo vigário. Na manhã de um sábado, o velho padre achou por bem ir logo conhecendo todo o rebanho sob seu pastoreio. Pegou a estradinha de chão batido que saía da lateral da matriz e, a pé, caminhou por algum tempo sem encontrar uma viva alma. Depois de uma curva, avistou um casarão de platibanda alta, três portas, calçada de alguns degraus frontais, aparentemente abandonado. Aproximou-se. Viu, então, um moleque de uns dez anos de idade, entretido na recuperação de uma vistosa arraia. E entre eles se deu este diálogo:

– Ei moleque, como você se chama?

– Eu não me chamo, seu padre. Os outros é que me chamam.

– Tudo bem. E com que nome os outros chamam você?

– Pedrinho. Pedro da Dasdor.

– Pedro (Só podia ser Pedro! – meditou o santo homem), você pode me dizer para onde vai esta estrada?

– Seu padre, essa estrada nunca foi e nem vai a lugar nenhum. Ela nunca saiu daí. Quem vai é quem caminha por ela.

– Certo. E eu, caminhando por esta estrada, vou chegar aonde?

– Numa localidade conhecida como Lagoa dos Porcos…

– E isso fica muito longe daqui?

– Não. É só a distância de uma beiçada…

– Obrigado, Pedrinho. Você parece ser um menino esperto. Por favor, me esclareça uma dúvida. Onde estão os meninos e jovens inteligentes desta cidade?

– Eles foram para a cidade grande… estudar na faculdade… pra ser doutor… médico, engenheiro, advogado…

– E os mal educados e metidos à besta…?

– Também foram para a cidade grande, seu padre…

– E pra quê?

– Se internar no Seminário… pra ser padre…

Todos nós rimos. Ele apenas esboçou um sorriso descolorido.

Agora com o caderno, o lápis e a borracha trazidos pelo Sérgio, seu Zé Augusto, indagou-nos:

– Vocês já ouviram falar em Malba Tahan?

– O homem que calculava? – A resposta em forma de nova pergunta quem a formulou fui eu.

– Sim. Você sabe alguma coisa sobre ele, algum enigma por ele desvendado?

– Sei, sim, seu Zé. Meu pai um dia nos contou o caso da herança… dos camelos…

– Foi mesmo?! Você poderia contar isso pra gente?

– Pois não. Um pai havia deixado uma herança de 35 camelos a ser repartida entre seus três filhos, nas seguintes proporções: para o mais velho, a metade; para o do meio, a terça parte; e para o mais novo, a nona parte. Só que o número 35 não é divisível nem por dois, nem por três, muito menos por nove. Por se tratar de animais, as divisões teriam de dar necessariamente quocientes inteiros, exatos. Nada de décimos ou centésimos. O homem que calculava tomou emprestado o camelo do amigo e, com a aceitação dos três herdeiros, incluiu-o na herança que, de 35 passou a ser de 36 camelos, número passível de ser dividido por dois (18 camelos, para o mais velho), por três (12 camelos para o do meio) e por nove (4 camelos para o mais novo). Todos satisfeitos com a justa divisão, logo perceberam haver um resto, uma sobra de 2 camelos, cuja destinação aceitaram. O camelo emprestado pelo amigo voltou para o seu legítimo dono. E o outro serviu de paga ao homem que oferecera a solução justa e adequada.

– Muito boa. Gostei. Eu não conhecia esse caso. Alguém tem alguma coisa a acrescentar?

– Eu mesmo, seu Zé. Alguns dias depois de ter ouvido este caso, eu falei assim pro meu pai. Pai, na época desse fato, ou ainda não haviam descoberto o arredondamento, ou o homem que calculava não sabia disso, ou sabia e não quis fazer uso desse recurso. Prestem atenção. Ao dividir 35 por 2, para encontrar a metade, o resultado é 17,5, ou seja, 17 camelos e metade de outro. Arredondando pra mais, vamos encontrar os mesmos 18 da solução original. Ora, 35 dividido por 3, a terça parte, é igual a 11,666, uma dízima periódica. Arredondemos pra mais e chegamos aos 12, a exata parte que coube ao herdeiro do meio. Por fim, 35 dividido por 9 é igual a 3,888, outra dízima periódica, que, arredondado pra cima, dá os mesmos 4 camelos entregues ao mais novo. E ainda sobraria 1 camelo. A solução teria sido a mesma, portanto.

– Bravo, garoto! Todos entenderam, não é? – E os meninos disseram Sim!, com alguns acompanhando as anotações que o seu Zé Augusto fazia na folha até então branca do caderno, as quais comprovaram a exatidão de todo o arrazoado.

– Pai. – A voz agora pertence ao Marcos Alverne, um geniozinho ainda em processo de formação e filho mais velho do seu Zé. – O senhor, ao se referir ao Malba Tahan, parece ter demonstrado que teria algum feito extraordinário dele para nos apresentar. Estou certo?

– Sim, filho. Tenho, sim. É o enigma dos quatro quatros. Calma. Eu explico. Para o homem que calculava, podemos formar um número qualquer empregando, com o auxílio substancial do cálculo, somente quatro quatros. Agora vejam. (Enquanto anotava as operações aritméticas na folha branca do caderno, ia explicando). 44 menos 44 é igual a zero. 44 dividido por 44 é igual a 1. 4 sobre 4 mais 4 sobre 4 é igual a 2. 4 mais 4 mais 4, tudo isso dividido por 4, é igual a 3. Interessante, não é? A proposta que ora faço a vocês consiste em encontrar, em sequência, mais alguns números. Tahan assegurava ser possível atingir o número 100. Aceitam o desafio?

– Sim. – Alguns se prontificaram a prosseguir na busca de soluções para o jogo dos quatros.

– Eu vou deixar vocês livres para as suas brincadeiras, para os seus jogos de todos os dias…

– Mas, seu Zé! – A intervenção quem ora faz é o Claudionor. – E a questão dos peixes sem cabeça e sem rabo…

– Vocês já desvendaram o mistério? Não?! Pois bem. Vejam aqui no caderno. – E ele escreveu, a lápis, um ao lado do outro como se formassem uma dezena, os números 9 e 6. – Aqui estão representados numericamente os peixes que o homem disse haver pescado. Agora, vamos tirar a cabeça do nove. – E com a borracha apagou a parte superior do 9, um quase círculo. – Agora, extraiamos o rabo do seis. – Apagou, então, a parte superior e encurvada do 6. – Percebem o que restou? O número 10. Portanto, a pescaria em dia da padroeira rendeu ao homem dez peixes inteiros. Vão brincar. – Entregou o caderno, o lápis e a borracha ao Sérgio, dizendo Vá guardá-los!, e calmamente se dirigiu à sua casa.

O Zé de Caucaia, carvalho certamente porque não se intimidava ante às muitas e diversas exigências da vida, nem se quedava às mesmices do cotidiano, a mim sempre pareceu ser um bom exemplo para a frase O carvalho não é apenas testado, mas enrijecido pelas tempestades, da escritora americana Lettie Cowman, autora da obra Mananciais do deserto, um manual de espiritualidade. Conheci o Zé num momento de muita espirituosidade, num sábado à noite, na área alpendrada, frontal, da modesta e acolhedora casa do Cantinho Maluju, ele na companhia do meu sogro Antônio Pereira, e, de imediato, duas características nele percebi. Uma. Não admitia que sequer insinuassem ser ele telespectador assíduo das novelas globais. Negava com mais veemência que Pedro na bíblica – e medrosa! – negação a Jesus. Embora discorresse, com brilho nos olhos e riquezas de detalhes, sobre personagens marcantes, sobre cenas empolgantes e até sobre capítulos inteiros, sempre ressalvando Pelo que me contaram... ou Pelo que soube... E costumava até dar palpites, sugerir enredos, antecipar finais. Era, sim, um viciado em novelas… enrustido ou dissimulado, talvez… mas era. Duas. Gostava de contar piadas, narrar causos, sempre cobrando, com gestos de mãos ou braços, a atenção de quem se dispunha a ouvi-lo, cuja risada de desfecho se tornava inevitável, pois o contador tinha o hábito de dar ao remate, ao acabamento da narrativa o  recorrente acompanhamento de uma sonora e contagiante gargalhada.

Dos muitos causos por ele narrados, das muitas piadas que naquela noite ouvi, uma recentemente reouvi em vídeo gravado por Ariano Suassuna e postado em rede social. Ei-la. Um doido, ao passar por outro, dele reclamou a continência que lhe seria devida. O outro questionou: E por que eu devo bater continência pra você? O primeiro doido justificou assim a cobrança que fizera: Ora, porque eu sou Napoleão Bonaparte. O segundo objetou: E quem te fez ser Napoleão Bonaparte? O primeiro empertigou-se e, de forma altiva, revelou: Foi Deus. E o segundo não contemporizou: Eu?!

Uma certa manhã de domingo, Zé Carvalho me fez parar o carro em frente à agência do Banco do Brasil de Caucaia. Com gestos, pediu para eu destravar a porta. Ele a abriu, entrou e sentou-se no banco do carona. Seguiu-se, então, este diálogo:

– Zé, você quer uma carona para…?

– Não. De jeito nenhum. Eu quero é lhe contar um causo que ouvi ontem à noite.

Eu estacionei o carro junto ao meio-fio, desliguei o motor e me propus a ouvi-lo com a atenção que ele sempre requeria.

– Pronto, Zé. Fique à vontade.

– Pelo que me contaram, professor, um forasteiro, de barba e bigode, chapéu de palha de aba curta, entrou num bar ali do Grilo…

– O do Dico ou o do Maduro?

– Digamos que tenha sido o do Dico, que estava cheio de animados clientes, todos bebendo e conversando. O forasteiro, com jeito e calma, conseguiu chegar ao balcão, junto à parede lateral. Aí, de mão espalmada, bateu com força no balcão e isso fez tremer copos e garrafas. Todos pararam o que faziam e, espantados, olharam para o forasteiro que, aproveitando a atenção de todos, meteu-se a repentista: Perdi a chave do carro / A mulher desapareceu / Aqui, neste bar, todos são cornos / E o único homem sou eu. Levou a mão ao próprio peito e esperou a reação. No outro lado do bar, um idoso se deleitava com umas boas doses de uísque. Era oficial reformado da PM. Nesta hora, ele tirou um reluzente revólver do cós, pôs sobre o tampo do balcão com a boca do cano voltada para o forasteiro, a ele se dirigindo: Amigo, por favor, repita estes versos que eu achei por demais interessantes. E o forasteiro baixou a crista e refez o discurso, ou melhor, o repente: Já achei a chave do carro / a mulher já reapareceu / Aqui, neste bar, todo mundo é homem / O único corno sou eu.

Após a recorrente gargalhada, o Zé arrematou: É por essas e outras que dizem não haver valentão em Caucaia. Os que aqui aparecem os meninos matam ou os velhos amedrontam. E haja mais uma sonora gargalhada.

O Zé Carvalho era simplesmente fantástico.

Assim como o seu Zé Augusto, o Ariano Suassuna, o Jessier Quirino. O Malba Tahan também.

E o meu irrequieto espírito mais uma vez os reverencia.

Saber narrar ou contar é, com certeza, uma arte.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.