A AMBIGUIDADE DA GRANDE IMPRENSA: OS QUE DETÊM A PROPRIEDADE DO EMPREENDIMENTO E OS QUE PRODUZEM A OPINIÃO MIDIÁTICA

Sou dos que acompanham, com interesse e uma confessada angústia, o papel da mídia no plano político.

Nos regimes autoritários, o Estado detém o poder manipulador sobre a orientação político-ideológica da mídia. Nas chamadas democracias ou o que podemos entender por esse substantivo adjetivado, a mídia corresponde a uma empresa de porte ou conglomerado de meios de comunicação que para manter-se recorre ao patrocínio de anunciantes ou a recursos governamentais, aquele envolvimento entre propaganda e notícia, produção de opinião e interesses da máquina que governa.

Há duas fontes evidentes de influência nas orientações, nesse caso, da mídia: os anunciantes e os governos. Uma e outra financiadores da empresa midiática, cada uma delas a seu modo, o que lhes dá força necessária para intervir na firmação e condoludação da “opinião” da empresa…

A mídia moderna, nos países de democracia aberta, confronta o que parecia impossível ocorrer em um sistema capitalista. A perfeita acomodação entre a direção capitalista do empreendimento e as tendências afirmativas de uma redação seduzida pelo pensamento de esquerda e posta a seu serviço.

Nas empresas de maior porte, no plano imagético, sobretudo, na televisão, ocorre um equilíbrio mais ou menos estável entre a empresa e a redação, entre os escalões que detém o controle sobre a empresa e os que produzem as notícias e a opinião que veicula.

Parece evidente aos olhos de qualquer analista, entretanto, que os interesses da empresa de mídia estão associados a outros nexos conjunturais. Políticos e partidos, lideranças parlamentares ou alianças podem eventualmente chocar-se com liberalidade consentidas a comentaristas e articulistas de textos jornalísticos veiculados pela mídia impressa ou digital. Na mesma medida da interferência de atores governamentais, os interesses em conflito podem gerar insatisfação. Alguém pagará o preço dessa subversão não consentida de opiniões.

Os proprietários dão, em última análise, a última palavra. Mas não chegam a aprofundar as discordâncias de modo a desestabilizar o empreendimento. Como o mercado de emprego na mídia é, no fundo, controlado pelo empresariado, parece natural que assalariados (os jornalistas, artistas e toda a mão de obra) procurem manter um nível de entendimento consensual. Os sindicatos fazem o trabalho e resguardam as relações.

Nestes episódios recentes, de demissões de formadores de opinião, em algumas empresas (Globo, CNN e JP) ocorreram pelos mesmos fatos e circunstâncias. Venceu o lado empresa. A parte opinião aceitou e não deixou os seus encargos e obrigações. A dança das cadeiras movimentou os demitidos e conservou os seus empregos.

Alexandre Garcia exibe a medalha de campeoníssimo na degola dos insurgentes em diversas emissoras. Para um profissional que se impõe como independente pelo que pensa e escreve essa elevada rotatividade fala bem do caráter e da coragem do “influencer”.

Nos países totalitários, assim como pretendem os políticos progressistas no Brasil, o pensamento e a opinião são unânimes entre a direção da empresa de mídia e os que nela trabalham…

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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