My Brilliant Friend

“Comentada no enfoque da maternidade, do feminismo, das escolhas, mas um grande diferencial são as cenas e vivências de um cotidiano onde as relações entre as pessoas são recheadas de amor/desamor, ciúmes, rivalidade, inveja, competição, ingredientes que aparecem nas entrelinhas dos diálogos, sobretudo entre Lila e Lenú.”

A série italiana “My Brilliant Friend” está em sua terceira temporada no HBO Max. Quem acompanhou as duas primeiras temporadas já está familiarizado com os dramas familiares, romances, brigas, gritarias e reviravoltas nos relacionamentos que são ingredientes obrigatórios nesta série tão intensa e cheia de situações onde nos colocamos com tamanha interação.

Baseada nos livros de “Elena Ferrante”, a série retrata uma Itália pobre dos anos 50, e a amizade entre Lenú e Lila, ambas muito inteligentes, mas de maneiras diferentes: uma caótica, outra organizada.

Ao longo de suas vidas elas constroem uma amizade fraternal genuína, com pitadas de ciúmes, rivalidade, inveja, cooperação, ajuda mútua, num momento pós-guerra do sul da Itália. O elenco é totalmente italiano e a direção é da cineasta Alice Rohrwacher.

Em muitos momentos nos identificamos nas relações que os episódios trazem com tamanha precisão, além de abordar muitas questões femininas como gravidez, maternidade, pinceladas numa Itália que fervilhava transformações ao longo do século 20, incluindo as turbulências dos anos de chumbo (1960-1980) período sócio-político conturbado na Itália, marcado por uma onda de terrorismo, com o estabelecimento da máfia na região.

A terceira temporada caminha pelos anos 70 e faz um recorte da vida em sociedade daquela época. Enquanto assistimos, nos deparamos com algumas cenas difíceis de engolir: assédio, abandono, agressividade.

A série foi muito comentada no enfoque da maternidade, do feminismo, das escolhas, mas um grande diferencial são as cenas e vivências de um cotidiano onde as relações entre as pessoas são recheadas de amor/desamor, ciúmes, rivalidade, inveja, competição, ingredientes que aparecem nas entrelinhas dos diálogos, sobretudo entre Lila e Lenú.

O olhar sobre estas questões se torna difícil exatamente porque potencializa dentro de nós os mesmos sentimentos, e nesta série de relações tão intensas, acabamos por fazer uma imersão em nós mesmos, e em muitos momentos, o cotidiano aparece de forma a nos perturbar: possuímos sentimentos contraditórios pelo mesmo objeto, mas negamos, por não conseguirmos entrar em contato.

Para quem se interessa em ler os livros antes de ver a série, valem muito a pena. São eles: A amiga genial, História do novo sobrenome, História de quem foge e quem fica, e História da menina perdida.

E para quem deseja saber ainda mais sobre Elena Ferrante, “A filha perdida” é um filme obrigatório.

Elena Ferrante é o pseudônimo de uma escritora italiana que ninguém conhece. Ao longo destes anos a imprensa e os fãs tentam descobrir quem ela realmente é, mas sem sucesso. Eleita uma das cem pessoas mais influentes do mundo pela revista Time, a anônima é uma autora lida por 13 milhões de pessoas.

A grandiosidade desta série talvez seja a capacidade que Elena Ferrante teve em traduzir sentimentos em histórias bem contadas, entrelaçados num cotidiano muitas vezes próximos a nós, afinal, sentimentos contraditórios estão aí nos entremeios de qualquer relação, mesmo se negamos possuir.

As três temporadas são excelentes e My Brilliant Friend é uma série valiosa.

Em tempo, este texto foi escrito ao som da música: “In Remembrance of You”, de Max Richter.

Claudia Zogheib

Claudia Zogheib é Psicanalista, Psicóloga Clínica, especialista pela USP- Departamento de Psicologia. responsável pelas páginas Cinema e Arte no Divã, Auguri Humanamente www.claudiazogheib.com.br / www.augurihumanamente.com.br

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