Vitória de Bolsonaro: o impacto nos partidos políticos e na democracia, por Josênio Parente

 

A democracia, no Brasil, ganha novo patamar. As eleições de 2018 apresentaram resultados significativos de mudanças de um Brasil que se estruturava, a partir da Constituição de 1988, pela hegemonia cultural da esquerda e onde a disputada acontecia entre o PSDB versus o PT. O resultado das eleições não significa mudanças fulminantes para a política. Apenas a direita veio para participar ativamente da disputa eleitoral. É, portanto, coerente com a sociedade civil que vinha se organizando nessa direção.

A mudança da mobilização da sociedade civil aconteceu forte no segundo governo Dilma, com a presença de uma mobilização da direita buscando fidelizar eleitores e liderando movimentos de rua e atuando racionalmente nas redes sociais, na nova racionalidade que a internet permite, convencendo seu eleitor e animando os indecisos. Sobre este momento, vamos discutir o impacto dessa realidade na estrutura partidária acompanhando nossa reflexão através de vários artigos nesse espaço.

O judiciário ganhou um papel ativo nesse processo competitivo, pois as operações chamadas “Mensalão” e “Lava Jato”, durante os dois governos Lula e atuante até o segundo governo Dilma, apresentaram o PT, o partido no poder já há bastante tempo, como “chefe de quadrilha” que rouba o país. A imprensa também participou, pois potencializou essa campanha pelas tevês abertas e as redes sociais. O estrago na imagem, contudo, não foi como o esperado, pois o PT, herdeiro da hegemonia cultural de esquerda, resistiu aos embates, ao contrário do PSDB que perdeu a batalha da ocupação de espaços do centro-esquerda, como ambicionava. O partido, contudo, não desistiu e nem se incorporou ao partido vencedor. Em política também acontece que dois corpos têm dificuldades de ocupar o mesmo espaço, sobretudo em competição aberta.

A direita liberal já vinha buscando construir uma hegemonia cultural nos espaços deixados pelo PSDB, para concorrer com a da esquerda, inclusive mobilizando as forças da soberania popular, ao contrário da direita intervencionista, mas que vinha ganhando espaço pelo aumento da violência e do crime organizado na sociedade brasileira. Em 2012 o PT sofreu um baque nas eleições municipais,  pela campanha de ódio ao partido. A direita, órfã de uma força organizada, percebeu que existia um potencial eleitoral ainda não trabalhado pela política via partidos políticos. Grupos potencialmente de direita estavam fragmentados em diversos partidos políticos. Os evangélicos (defendendo bandeiras morais) e os militares (pela segurança), ambas correntes mais conservadoras. Os Setores empresariais, como o agronegócio, o sistema financeiro e aqueles ligados à segurança, como armas, empresas da área, são mais ligados ao liberalismo econômico. Apesar de muito heterogêneos, basta lembrar que no grupo mais conservador, evangélicos e militares, também estão divididos, respectivamente mais teocráticos e mais laicos.

A reeleição de Dilma Roussel, deste modo, foi o ponto de inflexão, pois representou não apenas uma derrota para a oposição ao PT, mas uma decepção chocante para o PSDB e seus aliados. Nesse momento o Brasil se mostrou dividido, o Sudeste, a maioria dos votos do PSDB aconteceram lá, contra o Nordeste, a maioria dos votos ao PT. A sua vitória sobre o PSDB foi de pequena diferença, correspondendo à vitória do partido em Minas Gerais, a terra de Aécio. A cúpula do PSDB já estava em Minas para comemorar a vitória que parecia inevitável. A hora da virada, porém, não aconteceu e o PSDB reagiu a essa derrota de forma muito emotiva: “não vamos deixar o PT, a Dilma, governar! ” Esta divisão abriu espaços para a entrada em cena dessa nova direita, uma aliança heterogênea, mas com um início de organização, formada de conservadores, teocráticos e liberais laicos, que não tinha mais esperanças de chegar ao poder tão cedo, via aliança com o PSDB.

Dois grupos heterogêneos, hospedados no PSL e no PT, representados respectivamente por Bolsonaro e por Haddat, chegam ao segundo turno das eleições de 2018. Um clima de ódio, inclusive dentro da família, estava instalado durante a campanha. Isso vai refletir no desfecho da eleição de 2018, quando o PSDB se dividiu no apoio ao PT, mas marcou posição de não apoiar o PSL. A infidelidade foi significativa, inclusive em SP, o berço do partido, onde o candidato a governador apoiou abertamente a eleição de Bolsonaro. O terceiro colocado, Ciro Gomes, que chegou a ter real chance de ser vitorioso, também fez um apoio crítico ao PT. O PSB, mais próximo ao PT pelo centro, dividiu-se regionalmente, onde o Sudeste apoiou o PSL e no Nordeste o PT. Assim, assistimos uma tentativa de adaptação dos partidos ao sistema partidário que estava se organizando.

Há uma grande expectativa quanto ao novo governo e sua relação com a sociedade civil. Foi uma eleição realmente impactante para o sistema partidário e realizada em clima de ódio. O tradicional discurso de Bolsonaro é de extrema direita, mas  vem caminhando para o centro por pressão mesmo de uma direita que liderará a economia. Outra dificuldade foi na formação do Ministério, devido ao discurso de que seria técnico, e não político, e percebeu-se que o instrumento da representação política é o partido político, e o governo é ideológico, e o modelo exige governar com os que o apoiaram, com a coalizão dominante. O destaque são os evangélicos, a base moral da campanha conservadora. Num Estado laico, a moral é de responsabilidade do privado, a base religiosa está nas famílias, na escola, e se tender para a Escola sem Partido não encontra fundamento na democracia, que é esencialmente fundada numa diversidade de interesses da sociedade civil, unida civilizadamente pela crença na alternância do poder.

A democracia ganha, assim, um novo patamar. A diversidade inerente da sociedade civil vai se expressar, como em outras democracias já estabelecidas. A participação política, expressão da soberania popular, ganha novos instrumentos, como as redes sociais, mas novas crenças de que é na participação que se constrói a sociedade e na tolerância que se constrói a civilidade. Não é passividade, mas a tolerância com a existência da diversidade cultural, política e religiosa.

Essa expectativa parte de um pressuposto democrático, e não de um nacionalismo excludente, que também é ventilado, e há elementos que estão postos. Vamos na esperança de que a democracia predominará! Que as minorias não sejam perseguidas e que a liberdade, base da civilidade, seja a orientação.

Josenio Parente

Josenio Parente

Cientista político, professor da UECE e UFC, coordenador do grupo de pesquisa Democracia e Globalização do CNPQ.

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