2022 é o novo 2002?

A plataforma petista para as eleições de 2022 é apostar que Lula pode fazer agora o que já fez na década passada. Esta tese alimenta a subjetividade de parte da população com lembranças da época onde havia consumo para as famílias, renda no bolso do trabalhador e da classe média, crescimento econômico e política social.Ora, o brasileiro nunca teve vida fácil nos anos 80 e 90, viu uma grande melhora na sua renda com o sindicalista no Planalto (tanto que os escândalos de corrupção e os erros da gestão eram deixados de lado pelo povão, apesar de constantemente constar na mídia tradicional), perdeu parte dessa renda com Dilma, mais ainda com Temer e entrou num buraco sem fim de sofrimento com Bolsonaro.

A terceira via é uma invenção de jornalistas e a população sabe disso. Ciro Gomes não consegue sair do seu nicho de votos. Então em quem apostar? Lula! se ele fez uma vez pode fazer de novo. Esta tese simples, mas apaixonante é uma poderosa arma eleitoral, e os responsáveis pelo marketing do partido dos trabalhadores sabem muito bem disso. A mensagem é clara: 2022 é o novo 2002.

Potente do ponto de vista eleitoral, esta tese, entretanto, perde força sob uma análise aprofundada. O Brasil cresceu e distribuiu renda para a população mais pobre (bom lembrar que os ricos e herdeiros ganharam mais ainda) na Era Lula graças a uma série de fatores específicos da época, dentre elas o fato de a China ter comprado a rodo produtos brasileiros que contribuiu decisivamente para o chamado boom das commodities, processo muito positivo para nossa economia. Hoje em dia os chineses, fortalecidos politicamente, preocupam-se em expandir seus negócios pela África e Oriente Médio, industrializando nações menores e as tendo como aliadas na Guerra Fria 2.0 com os americanos, diversificando suas ramificações econômicas e dominando parte do mercado global, desta feita comprar produtos essenciais em países da América do Sul já não é mais rentável para o gigante asiático.

O boom dificilmente retornará. Além disso, o mercado (leia-se os grandes operadores financeiros, empresários e corporações poderosas) na Era Lula se adaptou muito bem às propostas do novo governo já que o petista fez o possível para seguir a matriz fiscal de FHC.

Hoje em dia os operadores financeiros, empresários e as corporações poderosas adotaram uma posição pouco moderada no debate econômico defendendo flexibilização e reformas que retiram direitos trabalhistas sem grandes preocupações, como no governo Temer. Mesmo com todos os seus erros e escolhas ruins, a saber, ter se unido à direita tacanha do PFL e posto em prática um governo liberalizante que não desenvolveu o país e fez pouco pelo combate a miséria e a desigualdade social,

FHC pelo menos não queimou o filme do Brasil perante a comunidade internacional. No seu governo ninguém temia riscos à democracia e golpes de estado, como tememos hoje. A dupla FHC-Lula consolidou o modelo liberal democrático por aqui.

Qual o legado positivo para o próximo governo deixado por Temer-Bolsonaro? Objetivamente a imagem de uma país que abandonou seu pioneirismo na defesa do meio ambiente e resolveu que a sua natureza e seus nativos podem ser queimados e mortos em favor da mineração, da venda de madeira e da destruição de terras. Nem mesmo o grande capital norte-americano e europeu quer se associar a isso.

O acordão feito pelo PT para poder governar em 2002 dificilmente se repetirá tal e qual em 2022, novas alianças com o Centrão terão um custo muito mais alto que outrora em razão da expressiva ala bolsonarista que hoje integra o bloco.

Um possível governo petista terá que lidar com as consequências de vender um produto falso para seus apoiadores. A oposição anti-lula e a extrema-direita nunca estiveram tão fortes e atuantes como agora e isso certamente irá atrapalhar os planos do petismo, além do fato da economia estar em baixa (como recuperar?), com altos índices de desemprego, inflação, trabalho precarizado, exploratório e pouco produtivo, com a imagem internacional do Brasil estando na pior.

Apenas nostalgia e culto às habilidades do líder não irão resolver os graves problemas nacionais.

Com o Centrão fortalecido(o que não é nenhuma novidade) o apoio a um governo progressista custará muito caro e se o PT e seus aliados acha que facilmente poderá fazer seus famigerados acordos tendo a imprensa sedenta por um escândalo nessa nossa era digital e lava-jatista é melhor se atualizar. Barroso admitiu que o impedimento de Dilma Rousseff (que o STF permitiu, lembremos) ocorreu por falta de apoio político parlamentar e não por um crime cometido pela ex-presidenta no exercício de suas funções. Para bom entendedor meia palavra basta, diz o dito popular, e no país dos bacharéis, palavra de ministro é que vale muito mesmo.

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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