2022. E depois?

Nada é o que parece ser, mas o seu contrário

“Qui contrôle le passé, contrôle le futur”, Aldous Huxley

Nada será o mesmo, transcorridas essas postulações grosseiras pela ocupação do poder no Brasil.

Sequer o povo, ainda que assustado e tomado de receios pela sobrevivência ameaçada, pelos grãos de liberdade que lhe são roubados,  será o mesmo. 

Carecido dos bens da cidadania, e por tanto tempo vítima da esperteza de governantes e políticos, de partidos e lideranças pouco respeitadas, o povo, os brasileiros, os eleitores, os contribuintes, os desvalidos de empregos e de esperança —  ampliaram, em confrontação com a perversa realidade que nos oprime e deprime, o olhar compassivo e a hesitante percepção da realidade. De uma realidade imposta, por bem dizer,  não mais pelo capricho das “elites” enredadas nas fontes originais de todo o poder, porém pelos “campos dominantes” e os “coletivos”  por onde greis ideológicas se insinuaram em comandita  e se reproduzem, por elástica cissiparidade, por toda a estrutura de poder do Estado.

Das elites “agressivas” de outros tempos, assim designadas por Djacir Menezes, em obra seminal, persistem ralas semelhanças, fora o compadrio ideológico, tangidos pela nova modernidade, instalado nos acampamentos do Estado.  

A igreja e os sortilégios da fé contam pouco, nestes dias confusos, como alavancas de domínio e influência na sociedade, embora novas seitas se instalem à sombra de  salvadores anunciados, intermediários confiantes  da revelação divina. A salvação insinua-se, nestes tempos sem graça, em lances estóicos,  como batalha nos páramos terrenos, ao largo da administração da vontade divina…

As “novas elites”  espelham a racionalidade da ordenação de forças dispersas em busca de alianças oportunas, embora passageiras como tudo que ressuma os caprichos humanos. 

 Elas estão bem mais próximas  do erário e do orçamento da União  do que das distantes fontes que construíam a sua força, o seu poder e influência nas retaliações da propriedade da terra, nas disputas travadas com a serventia da moeda da autoridade, da obediência e das lealdades reclamadas.

A mídia tradicional, construída pela patriótica e eficiente convivência  entre o privado e o público, à sombra protetora de todos os governos, perdeu o papel escrito, o “script” que a fazia poderosa,  a voz e a imagem, tomadas em sua configuração real e na projeção metafórica da sua influência.

O povo ganhou voz, pouco educada, admitamos, contida apenas pelos limites da indigência imposta  pelos  falsos propósitos de oferecer “educação para todos”. Ainda assim, pôde alcançar e enxergar o que lhe era negado por estratégia ou pura e simples inépcia dos seus governantes. Precisamente aqueles que foram escolhidos e eleitos no passado por eleições celebradas,  como hoje se festejam as urnas eletrônicas e os novos cânones médicos e da rica farmacopeia da ciência “afirmacionista”. 

Fôssemos mais atentos e críticos sob o peso desse interminável encantamento de serpentes a que chamamos de eleições, teríamos suspeitado, há tempos, de que não é de eleição que estamos propriamente a falar.  Mas de um movimento flagrante de “tomada do poder”, com múltiplas estratégias de substituição dos fatos pela versão que lhes é dadas.  Nada é o que parece ser, senão o seu contrário. “Fake” não é a falsa notícia de um falso fato construído sobre uma fita encenada como fato. “Fake” é o rótulo carimbado sobre ideias com as quais os  “influenciadores” de profissão não concordam e, por serem, assim pouco toleradas, veem-se condenadas por risco seguro contra a democracia.

“Revisores” são os “desconstrutores” da opinião. Sob o falso argumento de que, a não existir um fato plausível a comprová-la,  a verdade não existe. Não são os fatos e as circunstâncias que firmam o sentimento da verdade, mas como esses cortes da realidade são percebidos e dogmatizados na sociedade. 

Nesses remoídos de absoluta falta de bom senso, a opinião só há de ser considerada e permitida se houver comprovação de que ela reflete a verdade. O que há de parecer um paradoxo incontornável. A opinião  traz consigo o traço dominante da crítica, é contraposição lógica, contraponto. Como expressão de exercícios lógicos que a racionalidade lhes impõe, a opinião, o pensamento, a liberdade da palavra prezam o fatos e servem-se das evidências como sinais de busca da verdade. Só o dogma não é por si uma verdade inconteste.

Mais do que uma eleição de feições legais, servida por instrumentos definidos como legais, segundo ritos legais, consagrados  como associados à prática democrática, assistimos a uma performance inusitada. Partidos nascidos de intenções suspeitas,  privados de ideias, muitos deles, organizaram-se para a boa gestão das convergências aliciadoras,  de olhares cúpidos, concupiscentes,  postos no compartilhamento do horário eleitoral “gratuito”. Ou nos dividendos da partilha do Fundo partidário ou na socialização das dotações secretas negociadas entre lideranças do governo e da oposição.

Sobre esses arranjos, as criaturas mais  espertas intuíam. No mais eram conjecturas que desapareciam nas folhas da velha mídia, afogadas nos interesses da própria prosperidade financeira. A intuição sempre foi, no Brasil, um luxo ostensivo dos poucos que se punham a pensar, protegidos pelas suas cuidadosas conveniências.

O que parece ter mudado no imaginário coletivo, mesmo entre a militância saudosa das promessas do passado, está na persistência das suspeitas, não como boatos, porém vistas como evidências embaraçosas. Tais suposições, outrora abafada pelos insignes intermediários entre a coisa pública e as privadas, sobreviveram e ganharam voz e expressão nas redes sociais.  Cada brasileiro transformou-se em “editor” da sua palavra. É verdade que a  democratização do processo de elaboração dos fatos  e da opinião não terá contribuído para a emergência, entre “fakers” e “users”, das “wright ideas”  de um “brave new journalism”. Não era de esperar que fenômeno de tal porte pudesse acontecer.

Ao contrário,  essa tendência opiniática, “progressista”, parece ter banalizado a análise, vulgarizado a ressignificação  da observação e transformado a realidade em aparência pouco real dos fatos com os quais se constroem a memória e a história do homens (não cederei à tentação politicamente correta,  cediça e hipócrita para acrescentar “e das mulheres”).

Aos céticos restará a espera para os acertos finais com essa  maravilhosa caixinha (cibernética) de Pandora para descobrir do que serão  capazes estes novos brasileiros, criaturinhas sedentas de liberdade política, prontos a romper com os grilhões das amarras familiares, libertários ao ponto de pretenderem construir a carta da sua própria democracia, definidos nas suas preferências relacionais, dispostos a confrontar o passado e a reformar o futuro.

O Brasil, seja quais forem as vozes que se façam ouvir nestas eleições, não será o mesmo. Quebraram-se de vez as liturgias do passado. O passado não passará de um lançamento sem fundo disponível nas contas e haveres recolhidos. O Estado forte, as insígnias mentais do totalitarismo rondam as nossas incertezas.  Hanna Arendt sempre traz a palavra precisa em momentos de persistentes dúvidas: “O objetivo da educação totalitária nunca foi incutir convicções, mas destruir a capacidade de formar alguma”… 

O futuro ? Resta encontrar quem possa escrevê-lo.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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