Não entro em conversa de bêbado!

Amanheceu chovendo e eu precisava ir a um banco, na Floriano Peixoto, encerrar uma conta e pegar um documento para enfiar na boca do leão, que enche as burras do Governo. Que absurdo! Quem já viu salário suado de trabalhador ser renda?

Saí de chapéu para proteger as lentes dos óculos. Os pingos eram grandes, do tamanho de um pote e doíam na pele, como dizia o povo do sítio Latadas onde nasci.

De tanto ficar em casa, os movimentos das ruas pareciam estranhos para mim e me obrigavam a ser cauteloso. Não queria escorregar e largar a bunda no chão como acontecera certa vez.

Quando cheguei na agência bancária, tinha uns quatro gatos pingados e não peguei fila, mas a burocracia infernal para encerrar a conta tomou-me muito tempo. Quando pensei que estava finalizando, a biometria não deu certo porque minhas impressões digitais já estão apagadas, pelo desgaste do tempo, avisou-me o funcionário que me orientava.

Olhei para a parte inferior da frente do meu tronco e brinquei: espero que você também não se apague pelo desgaste do tempo.

O rapaz entendeu a piada, sorriu e brincou: – será que já não se apagou?! Arrependeu-se e pediu desculpas de forma tímida.

Para concluir a operação, na falta da biometria, eu precisava aguardar a gerente que estava para chegar. Fui esperar na calçada para proteger-me do famigerado corona vírus. Ambientes fechados são mais perigosos.

Na calçada e debaixo da marquise, dois homens simples que pareciam “chumbados”, discutiam política e futebol mais ou menos assim: – “eu sou Fortaleza e não abro, e voto Ciro, porque é verdadeiro. Bolsonaro é um mentiroso”. – “Eu sou Ceará desde pequenim e, entre as mentiras do Bolsonaro e as verdades do Ciro, eu fico com as mentiras”. Olhando pra mim, perguntou: – “num tô certo, patrão?” Eu, pra não entrar na conversa, fingi ser estrangeiro e respondi de forma pausada: – “I don’t understand, Sir”.

Eles riram em tom de galhofa e um falou para o outro: – “deve ser mais um gringo fdp, que está aqui pra robar o Brasil”.

Não entro em conversa de bêbado! Para livrar-me, topo tudo, até ser americano.

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira

Gilmar Oliveira, Professor Universitário.

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