100 ANOS DO CINEMA E DO AUDIOVISUAL CEARENSE – PARTE I Por Duarte Dias

Texto dedicado a Ary Bezerra Leite, José Augusto Lopes, Levi Jucá, Ethel de Paula, Firmino Holanda, Francisco Silva Nobre (in memoriam), Douglas de Paula (in memoriam) e Francis Vale (in memoriam).

Pontos de referência para a memória coletiva de uma sociedade, as efemérides, quando bem compreendidas, não se reduzem apenas ao ato de celebração em torno de um episódio histórico, político ou social; antes, constituem-se como uma oportunidade para a reflexão e a crítica acerca dos seus valores, provocando, mediante questionamentos e análises consistentes, reformulações e mudanças significativas no contexto em que se acham inseridas.

Ao reconhecer a natureza e o significado de suas efemérides, a sociedade passa a ter a possibilidade de aprofundar e fortalecer sua identidade cultural, aprender com o passado e entender melhor o mundo ao seu redor.

Uma dessas oportunidades se dá neste ano de 2024, com uma efeméride incontornável para a cultura brasileira: os 100 anos do cinema e do audiovisual cearense.

Tal marco se dá em função do Dia do Audiovisual Cearense, que desde 2008 é celebrado na data de 15 de outubro, conforme assinala a Lei Estadual Nº 14.166.

O dia 15 de outubro registra o feito de Adhemar Bezerra de Albuquerque, que nesta data, no ano de 1924, exibiu o seu filme “Temporada Maranhense de Foot-Ball no Ceará” no Cine Moderno, belo cinema que ficava em frente a Praça do Ferreira e que pertencia a Luiz Severiano Ribeiro.Trata-se, no caso, da primeira obra audiovisual cuja autoria se sabe de um cearense.

Adhemar Bezerra de Albuquerque, além de realizador audiovisual – dirigiu vários documentários nos anos seguintes, entre eles o célebre “Joaseiro do Padre Cícero”, de 1926, exibido em cinemas de Fortaleza, Manaus, Recife e Rio de Janeiro, um feito para a época-, foi também fotógrafo renomado, empresário e produtor, sendo o responsável pela produção da histórica filmagem do bando de Lampião (1936), realizada pelo sírio-libanês Benjamin Abrahão Botto.

Porém, a despeito da justíssima homenagem ao pioneiro Adhemar Bezerra de Albuquerque, convém não esquecermos de que a sétima arte já estava presente no Ceará desde o final da última década do século XIX, quando das primeiras exibições promovidas por Ernesto de Sá Acton, Antonio Ferreira Braga e Manoel Pereira dos Santos, o famoso Mané Coco, dono do Café Java, na Praça do Ferreira, onde a turma da Padaria Espiritual costumava se reunir.

Celebrar o centenário do cinema e do audiovisual cearense, portanto, também significa resgatar e refletir sobre o que veio antes e depois do dia 15 de outubro de 1924.

Em uma sociedade que não tem por hábito reconhecer e muito menos enaltecer dignamente sua própria história, a memória de seus cidadãos e a preservação de seus marcos simbólicos – o demolido Edifício São Pedro, na Praia de Iracema, que o diga -, torna-se ainda mais louvável o esforço coletivo para dar visibilidade e perspectiva histórica para uma atividade que, possuindo o primado da comunicação e das artes no mundo contemporâneo, foi e tem sido fundamental para a vida de muitas gerações de cearenses.

E foram muitos os nomes envolvidos na construção desta história, vindos das mais diversas áreas e atuantes nas mais distintas vertentes do nosso cinema e do nosso audiovisual, como os já citados Ernesto de Sá Acton, Antonio Ferreira Braga e Manoel Pereira dos Santos, mas também J. Martins, J. Bezerra da Rocha, Moura Quineau, Frei Leopoldo Vonnegut, Roberto Muratori, Antônio e Henrique Messiano, Júlio Pinto, José e Joaquim de Oliveira Rola, Padre Guilherme Vaessen, Karla Peixoto, Clóvis de Araújo Janja, Amadeu Barros Leal, Antonio Girão Barroso, João Maria Siqueira, Darcy Costa, Cleyde Holanda, Raimundo Getúlio Vargas Carneiro de Araújo (Seu Vavá), Armando Lameira, Antonio Donizetti, Henrique Jorge, Enondino Bessa, Régis Frota Araújo, Eusélio Oliveira, Ezaclir Aragão, Luiz Geraldo de Miranda Leão, Emiliano Queiroz, Otacílio Colares, Hélder Martins de Moraes, Alder Teixeira, Pedro Martins Freire, Tarcísio Tavares, Adhemar Oliveira, Chico Anísio, Franzé Santos, Wilson Baltazar, José Natal Marcelo de Oliveira, Renato Aragão, Lourdes Martins, Jhoseffi Macena, José Wilker, Manuel Eduardo Pinheiro Campos, Péricles Leal, Jane Azeredo, Wilson Machado, Mirian Silveira, Ary Sherlock, Luiz Severiano Ribeiro…

Elencar todos os nomes se mostra uma tarefa impossível, pois trata-se de uma lista infindável de personalidades, verdadeira legião de cineastas, roteiristas, atores, atrizes, cineclubistas, técnicos, críticos, professores, pesquisadores, exibidores, músicos, produtores e empresários que fizeram e fazem do cinema e audiovisual cearense um rio caudaloso, profundo e fértil, capaz de avivar e cultivar a mais árida das mentes, desde que essa tenha a predisposição, sensibilidade e, principalmente, acesso a toda esta vasta história.

E é para isso que também servem as efemérides: proporcionar acessibilidade e conhecimento a quem nelas queira se aprofundar.

Um exemplo: Quantos sabem da existência de Vittorio Di Maio, italiano que fundou, em 1908, a primeira sala fixa de cinema do Ceará, o Cinematógrafo Art-Nouveau, também conhecido como Cinema Di Maio ou Cinema Cearense, na esquina da Rua Major Facundo com Rua Guilherme Rocha, em frente a Praça do Ferreira?

Além de ter, por um período, vivido e trabalhado no Ceará – fundou ainda a primeira sala de exibição do Crato, o Cinema Paraíso, em 1912, vindo a morrer em Fortaleza, em uma cena dramática, digna de um grande clássico do cinema mudo – Vittorio Di Maio é reconhecido por eméritos pesquisadores brasileiros como o autor da primeira filmagem feita no país, “Chegada do Trem em Petrópolis”, de 1897, retirando a primazia do também italiano Afonso Segreto, que por décadas foi considerado o primeiro a realizar uma filmagem em terras brasileiras, com o seu “Uma vista da Baía de Guanabara”, de 1898.

A celebração dos 100 anos do cinema e do audiovisual cearense se apresenta, portanto, como uma excelente oportunidade para se debater e trazer para o conhecimento de todos este vasto legado construído por centenas de mãos e mentes por vezes apaixonadas, românticas e abnegadas, mas também empreendedoras, sagazes, criativas e determinadas, que seguem escrevendo a história por meio desta linguagem que, industrial, tecnológica e múltipla em suas mais diversas e sofisticadas formas de produção e fruição, subsiste no público naquilo que lhe é fundamental: a capacidade de evocar, individual ou coletivamente, uma ampla gama de memórias e emoções.

Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador audiovisual, fotógrafo e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum autoral, "Jardim do Invento", em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, e ex Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (2016-2019), desempenha, desde 2015, as funções de programador e curador do Cinema do Cineteatro São Luiz e Assessor de Políticas Culturais do Instituto Dragão do Mar (IDM), vinculado a Secult-CE.

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Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador audiovisual, fotógrafo e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum autoral, "Jardim do Invento", em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, e ex Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará (2016-2019), desempenha, desde 2015, as funções de programador e curador do Cinema do Cineteatro São Luiz e Assessor de Políticas Culturais do Instituto Dragão do Mar (IDM), vinculado a Secult-CE.