007 Spectre: E a polidez que reveste o filme de referência

De 1962 a 2015 transcorreram-se mais de 50 anos. Em meio a esse tempo, James Bond esteve conosco em várias cidades, aventuras e também criando laços com seus amigos e inimigos. No décimo quinto ano desse século, o diretor Sam Mendes em seu segundo trabalho junto ao agente secreto leva Bond aos limites da sua própria história. E tudo o que flui de Skyfall (2013) atinge um grau de solidez nos termos da cinematografia poucas vezes percebido na franquia. Assim é  007 Contra Spectre¹ (Spectre).

Uma mensagem enigmática do passado leva James Bond (Daniel Craig) à Cidade do México e Roma. Lá, ele encontra Lúcia Sciarra (Monica Belucci), viúva de um criminoso, que o dá pistas para se infiltrar numa perigosa organização chamada Spectre. Contando com a ajuda de Madelaine Swan (Léa Seydoux), filha de um antigo inimigo (Mr. White), o agente secreto embarca no seio da corporação oculta e descobre que ele mesmo possui uma conexão com o antagonista (Christoph Waltz) o qual procura.

Partindo do princípio, podemos dizer que o 24º filme da franquia baseada nos caracteres de Ian Flaming aposta na sofisticação em um cinema de gênero que não se excede. Mendes cria seu universo do filme de ação dosando a sobriedade que o espaço da estória exige, com levíssimos toques de descontração. Bond trava lutas em aeronaves em queda livre ou em trens em movimentos, mas não esquece de alinhar o braço do terno enquanto caminha sob o topo de um prédio.

O realizador arquiteta a diegese fílmica, ou seja, ele cria a realidade na qual o filme se apresenta. E esta se mostra crível nas situações de risco extremo em que o herói se insere, conjuntamente ao toque de aventura que igualmente nos avisa que ele também é uma personagem da ficção.Pode parecer confuso, entretanto, é analisando as intenções da direção que notamos o quão sério Spectre é. O elo com a tradição é um princípio norteador dessa premissa.

Esse tradicionalismo nada tem a ver com a distopia percebida em obras destituídas de consistência. Seja pela falta de foco no desenvolvimento das estórias; seja pela negligência com o todo do trabalho artístico em detrimento à questões de natureza comercial e alheias ao cinema como arte. A visão sistêmica que Sam Mendes tem da atmosfera envolta em 007 é o que garante a consistência do projeto por ele assinado.

Isso porque em 148 minutos o longa se apresenta conjuntamente aos outros três filmes que o antecederam. Assim as tramas de Cassino Royale (2005), Quantum of Solace (2008) e Skyfall (2013) se interligam numa espécie de desfecho que poderíamos chamar do legado que Craig e cada um dos diretores anteriores deixaram à série. Spectre, portanto, minimamente se coloca como um filme feito feito de referências.

Olhando pela superfície, parece estarmos falando de mais um projeto de Hollywood em busca de cifras que superem os investimentos de produção. Vendo além, no entanto, notamos tratar-se de um tributo que, de fato, transpassa o ano de 2005 e retorna à Era Sean Connery nos anos 1960. O roteiro de Spectre se desenrola na certeira combinação de cenas de ação (sejam elas de risco ou de perseguição de carros) e dos diálogos que complementam as situações em que as personagens se lançam. Tudo é colocado em medidas exatas.

E por se tratar de um exercício de realização antes mesmo do cinema como ato industrial, nosso longa não quebra o pacto com os códigos dele originários. Daí os limites que ele mesmo encerra. Bond vai ao encontro de seus rivais, estes são apresentados sem muita presa, surgindo das sombras, assim como ocorre com o paranoico Blofeld (Waltz) em sua extensa mesa cercada por tantas outras figuras sinistras que compõem a organização criminosa.

O líder da Spectre surge das sombras num reforço à tradição que a série 007 herda

O líder da Spectre surge das sombras num reforço à tradição que a série 007 herda

Esses vilões, à propósito, são no fundo uma celebração a tantas outras personagens que marcaram a história do agente secreto como Dr. Julios No, Emilio Largo além do mesmo Ernst Blofeld de “From Russia with Love” (1963). O próprio brutamontes Mr. Hinx (David Bautista) que segue Bond em Spectre, é uma releitura mais complexa de OddJob (Marold Sakata).

Não obstante, a direção  de arte igualmente assume a relevância de registrar uma marca fílmica. Uma vez que se vemos todos os personagens em seus ternos, blazers e vestidos temos os signos iniciais que nos avisam estarmos diante de um “James Bond”. As roupas dos interpretes falam, não delas mesmas, mas de 50 anos de história desses caracteres que atravessam toda uma geração. Iniciada com a espectatorialidade de nossos avós e hoje presenciadas por eles além de nós mesmos.

É claro que uma crítica apenas dificilmente daria conta das questões que o longa concentra. Nem mesmo os filmes disso se encarreguem. Mas as adaptações das missões do agente para o cinema encerram mais um ciclo e de maneira muito positiva.

Mendes e sua equipe concluem um ciclo na clareza de que o entretenimento no cinema não é uma caixa vazia de sentido como defenderiam os apocalipticos², mas sim uma fonte de refino e bom trato no fazer cinematográfico. Craig nos dá adeus e define a linha que separa o herói empostado no decorrer de uma década. Sua decisão com o dedo no gatilho é a soma do trabalho que se pode definir em uma palavra: brilhante!

1  007 Contra Spectre segue em cartaz nos cinemas de Fortaleza.

2 ECO, Umberto. Apocalípticos e integrados . São Paulo: Perspectiva, 1993, 5ª ed.

FICHA TÉCNICA
Título Original: Spectre
Gênero:  Ação, Aventura,Thriller
Tempo de duração: 148 minutos
Ano de lançamento (Reino Unido, EUA): 2015
Direção:   Sam Mendes

 

Daniel Araújo

Daniel Araújo

Crítico de Cinema, Realizador Audiovisual, e Jornalista.

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