ZONA DE RECONFORTO

George Orwell: “Há somente quatro maneiras de um grupo dominante perder o poder: ou bem é vencido de fora, ou governa tão mal que as massas são levadas a revoltar-se, ou permite que um grupo Médio forte e descontente passe a existir, ou perde a autoconfiança e o desejo de governar.” (À página 244, de 1984 – São Paulo: Companhia das Letras, 2009).

Um dia alguém achou por bem me advertir, em uma das minhas muitas andanças de memória pelo passado, reminiscências que sempre me fazem recordar de onde vim, e isso me ajuda a entender o que ora sou e me encoraja a prosseguir na permanente construção do que devo ser no que está por vir. E ele me questionou com ar professoral, em agradável roda de conversas, num encontro de família quase casual: Lembrar o passado é sofrer duas vezes. De imediato, refutei: Só que o meu passado não se compõe apenas de sofrimentos. Eles, na verdade, são a argamassa na diuturna edificação da minha razoável existência terreal que um dia findará, inexorável e infelizmente talvez. Sem eles, eu já seria um prédio em ruínas… prestes a desabar de vez. Afinal, como sustenta um velho provérbio português, “Duro com duro, não se faz bom muro”. Entremeemos, pois, um pouco de flacidez.

Pois bem. Lembrei-me hoje de uma das aulas de Educação Moral e Cívica, na segunda ou terceira série ginasial (ano de 1966 ou 1967, não sei precisar), ou seja, eu na ebulição da vicejante adolescência, na vã crença de ser o senhor absoluto dos meus irrefletidos atos, e o país já sob o regime militar em plena efervescência, o povo sob a férrea censura de institucionais atos, sistema de exceção instaurado em caótico processo intervencionista, que se concretizou simbolicamente em fatos ocorridos no curso do confuso dia 1º de abril de 1964 (comemorava-se “a Revolução” em 31 de março, feriado nacional, com desfiles patrióticos pelas ruas e avenidas, nos céus aviões em voos mirabolantes espargindo fumaças com as cores da bandeira nacional, dada a popular carga de “mentira” que envolvia – talvez ainda envolva – a efetiva data do esverdeado evento).

Elio Gaspari: “A verdade – é triste dizer – é que o Exército dormiu janguista no dia 31…” “… E acordou revolucionário no dia 1º.” (Citando o general Cordeiro de Farias; segundo ele, conspirador). “João Goulart caiu no dia 1º de abril.” (Às páginas 81, 83 e 121, respectivamente, de A ditadura envergonhada – São Paulo: Companhia das Letras, 2002).

O professor era um calejado padre salesiano, cujo nome já não recupero nas estropiadas interações sinápticas, embora haja um dado incidental que, nem tão expressivo seja para o que pretendo adiante narrar, ressurge das cinzas com a nitidez de fato recentíssimo, qual seja a amputação de duas das três falanges do dedo mindinho da mão direita do missionário então em ação evangelizadora por virginais terras amazônicas, decepadas, segundo ele mesmo contava, por flecha que, mirada para a sua bem acentuada testa e saída de arco carente de aperfeiçoamentos, um índio adolescente contra ele atirara, sem razão aparente, certamente apenas para avaliação de habilidade. A integridade física do “alvo humano” restou preservada com a combinação de três ágeis e simultâneas ações reflexas: o abaixamento da cabeça em direção ao peito, a curvatura frontal do tórax e o desvio, com a mão direita, da trajetória do artefato pontiagudo, num lance muito parecido com o que compete a goleiros que, de mão trocada, mandam para escanteio a bola que teima aninhar-se no fundo das redes através do quadrilátero pórtico que lhes cabe defender (e lá se foram os dois terços do dedinho). Com entusiasmo que lhe corava as maçãs do rosto ovalado, fazia reluzir os olhos cinza escuros ainda não protegidos por lentes de correção, invadia-lhe o corpo longilíneo, atlético, encapsulado em batina de cor preta que descia da base do pescoço e se estendia até os tornozelos, à frente um fileira de botões encobertos por específica dobradura do tecido, com mangas que iam até os punhos, agitava-lhe os braços de orador nato (que expressavam mais que a reconhecida oralidade), o mestre nos falava sobre a corrupção, assegurando tratar-se de irmã gêmea da humanidade, gestada pelo mesmo barro divino (e assim a sua origem essencialmente humana), mas nascida por sopro satânico (de entidade do Mal que nessa época também já existia: o contraponto do Bem, do Supremo Ser, a quem não se subjugava; ao contrário, até o submetia a vexames – há registros bíblicos!), a qual, àquela época, já grassava em corredores e gabinetes dos nossos tão disputados e endeusados atores políticos.

Pelo menos uma frase pelo bravo mestre então dita, gravei a ferro e fogo: Chegaremos a uma época, discípulos meus, que se fará necessária a existência de fiscal do fiscal do fiscal do agente público. Ou seja, o sistema de desvios de recursos do erário se ampliaria, a seu ver, de forma tal a não mais restringir-se a, concentrar-se em ambientes atapetados e refrigerados, a não mais respeitar certas fronteiras, a propagar-se por outros vieses e a envolver os mais distintos níveis da gestão pública, comumente amasiada, em conluio com promissores empresários, cidadãos de bens, ardilosos na arte de dar nó em pingo d’água em proveito próprio.

Assim, ao longo de todos esses anos, a máquina vem funcionando também movida por esse tipo de óleo, de azeite, numa química que concorre para fazer sangrar o gigante adormecido; e aperfeiçoando o seu modus operandi, multiplicando os seus tentáculos, ampliando a sua área de atuação e arrebanhando agentes. Afinal, quantos de nós não gostariam de merecer o usufruto do “dinheiro fácil”? Certamente, poucos! (Já ouvi alguém afirmando que “Todo homem tem o seu preço: alguns se vendem por qualquer valor; outros negociam o ‘valem quanto pesam’; há, ainda, os que resistem, apenas porque não lhes é oferecido o de que se consideram merecedores.” Atirem-me a primeira pedra…! Simbolicamente, é claro!). E barragens e açudes (do tipo “sonrisal”, pois se derretia já nas primeiras precipitações pluviométricas) se construíram e se reconstruíram em propriedades privadas (de coronéis)! E pontes de madeira que não resistiam sequer à ação dos cupins se elevaram sobre o leito de inexpressivos riachos! E estradas vicinais foram abertas, indo do nada para lugar nenhum, entrecortadas por bueiros vários!

Com o passar dos tempos, até houve avanços.

E, na vastidão do solo pátrio, projetos e mais projetos canalizaram recursos para obras e mais obras que, se iniciaram, logo inconclusas foram abandonadas! E o mensalão se aboletou a dois ou três passos da porta de acesso ao gabinete presidencial, sem que ele de nada soubesse! E as rendas do petróleo enlamearam patrimônios pessoais de quem se portava como insuspeitáveis! E dólares se acomodaram em cuecas! E malas abarrotadas de dinheiro vivo deram outra finalidade a apartamentos inabitados! E sistemas de rachadinhas se instalaram em gabinetes de lídimos representantes do povo! (Um colega de faculdade, já no desabrochar do fluente século, compondo a folha de pagamentos do gabinete de um deputado estadual na condição de assessor legislativo, devidamente contratado por indicação de influente cabo eleitoral, apenas “o ponto batia” em sala que todos da mesma espécie e ao mesmo tempo não cabia, apenas a metade do salário que, segundo ele, era-lhe devido, recebia; quanto à outra parte, bem, precisar o seu efetivo destino não sabia.) E negócios espúrios ganharam (e ainda ganham!) roupagem jurídica no relacionamento de apaniguados com secretarias e até ministérios! (Pode até dar-lhes o revestimento de aparente legalidade, mas, na essência, não convence nem os tribunais de varas primárias!). E há até quem se aproveite da morte (dos outros, é óbvio!) para faturar algum! E tudo isso me faz lembrar a reprimenda que Deus dirigiu a Pedro, no momento em que o chefe da Igreja advertira o Todo Poderoso por não distribuir equanimemente as desgraças naturais pela face da Terra, em claro e injusto favorecimento àquele vastíssimo território, de belas e largas costas, bem provido de riquezas naturais, o qual viria a se chamar Brasil: Cala-te, Pedro! Tu não sabes que tipo de gente vou colocar lá! Piada velha que já não mais faz rir. E o que não faz rir pode fazer chorar. Retenho as minhas lágrimas, reservando-as para funções mais dignas, mais honrosas, mais justas.

Feita toda essa digressão que, a princípio, seria apenas uma introdução, só que eu me entusiasmei mais do que devia – resquícios dos tempos em que discípulo fui de um padre orador – e escrevi mais do que pretendia, vamos ao que aqui a nós – o escrevinhador e seu pacientíssimo leitorado – interessa.

Com efeito. Reputo válido, para os fins a que se destina, o procedimento da comprovação de vida exigido, no âmbito da previdência oficial – a privada e a pública –, de aposentados e pensionistas. Defendo até que se desenvolva um instrumento em irrefutáveis bases algorítmicas que possibilite esse acompanhamento, com um razoável grau de aceitação científica, em períodos mais curtos (O atual é a anualidade). Tivesse esse formal meio de controle fiscalizatório sido implementado há mais tempo e um considerável volume de recursos não teria escoado pelo ralo da sagacidade, da engenhosidade, da esperteza, do mau-caratismo de muitos insaciáveis sugadores das magras tetas dos sistemas previdenciários das três esferas de poder, os quais agem geralmente movidos por omissões propositais, em tese criminosas, ou arrimados em documentação falsa obtida não raramente através de atos de corrupção, mantendo oficialmente vivos parentes que há muito jaziam em sepulturas quase nunca por eles visitadas. (Um caso desses bateu à minha porta, nos estertores do século passado. Um filho perdera a mãe, mas se negara a perder o usufruto da pensão da viúva. Como não pôde fazer o recadastramento da falecida, além da suspensão do benefício, logo identificado como legítimo responsável pela então pensionista, arrolaram-no em devido processo legal. Queria saber como resolver o imbróglio em que se metera, sem ter de devolver o que não lhe pertencia e que já nem mais existia. Aconselhei-o a contratar um bom advogado ou tentar uma honrosa negociação com o INSS. Não sei no que deu; nem mais o rapaz revi.) O desvio do jeitinho brasileiro que resiste ao tempo. Infelizmente. Acho até que o Gérson tinha razão…

Pois bem. Após um período de suspensão – antes o ritual (simples!) se dava ao longo do mês de aniversário do servidor público inativo (ou de pensionista) e se ambientava no setor de recursos humanos do órgão a que se vinculava à época da aposentação ou do falecimento –, em face das rigorosas medidas adotadas em plena pandemia, a partir do meio do ano, o governo retomou o procedimento, agora em novo formato, tendo como agente de recadastramento (recolhedor dos dados tidos como indispensáveis), sem prévio agendamento, a instituição financeira com quem o informante mantém relacionamento, em qualquer das agências que lhe dão maior ou menor capilaridade. No meu caso, o Banco do Brasil.

Elegi a agência da Reitoria, dada a proximidade de minha residência, o que me oferece um acesso mais tranquilo e rápido. Com início de atendimento previsto para as 10 horas, lá cheguei por volta desse horário. Inseri-me numa fila de poucas pessoas, posicionada na parte frontal da agência, mas logo conduzida pelo gentil gerente para o interior do estabelecimento, por ele distribuídas pelas duas geminadas fileiras de poltronas pouco confortáveis na área de espera, observadas, com rigor, as recomendações sanitárias, mormente quanto ao uso de máscara e ao distanciamento social. Eu até quis reclamar por tratamento prioritário legalmente reservado aos idosos; recuei sem fazê-lo, tão logo percebi que todos ali mereceriam tal prerrogativa, exceto, talvez, as duas senhoras que adentraram aquele recinto na sequência. Não sei bem por que, mas o solícito gerente a mim se dirigiu, alertando-me: O senhor tem dez pessoas à sua frente. É, portanto, o décimo primeiro a ser chamado. Respondi-lhe, então: Tudo bem! Até o meio-dia nada tenho mesmo a fazer… Apenas ele se houvera enganado na contagem, eis que, quando ali chegamos, dois clientes já se achavam em pleno atendimento. Assim, eu era o décimo terceiro…

O silêncio se fez por alguns minutos, logo quebrado pelo senhor de número 5 que, voltando-se para quem estava às suas costas, deu o pontapé inicial em nuançada conversa.

– Amigos, vocês sabem dizer se o mercado São Sebastião se mantém aberto durante a tarde?

– Eu tenho quase certeza de que fecha às 3. Mas o comércio do entorno fica aberto até mais tarde. – Respondeu o de número 13 (eu).

– Acho que vou sair daqui em tempo de… Vocês já perceberam como estão os preços das coisas? Só pra que vocês tenham uma ideia, em janeiro eu comprei umas estacas de concreto reto, a mais em conta, que me custaram R$4,50 a unidade. Hoje, onde achei um preço mais camarada me cobraram R$20,00 por estaca. À vista. Isso é um absurdo!

O idoso de número 7, apresentando-se como professor universitário aposentado por invalidez, em razão de sequelas insanáveis que lhe causaram experimentos na área em que atuava – a Química –, acrescentou:

– É um absurdo, sim. Mas a tendência é piorar. O custo desta pandemia vai influir, sim, nos preços de tudo. E o pior: nós que somos assalariados, que dependemos da execução orçamentária de governos de todas as esferas, vamos sofrer o flagelo da inflação sob o impiedoso castigo da não correção de salários, sem afastar o risco da elevação de impostos diretos a corroer o que ainda nos cabe receber. Preparem-se. O pior ainda está por vir… – Lá estava em busca de esclarecimentos sobre registro de portabilidades em seu mais recente extrato bancário.

– O pior está por vir. Com os combustíveis, o gás de cozinha… do jeito que a coisa vai… sei não, viu! O meu marido diz que a gente está pagando… e muito caro, por sinal… para viver num país que já foi nosso… os índios que me desculpem. – Quem interveio? A idosa de número 2, uma morena alta, de cabelos brancos, mais parecendo capulhos de algodão, com um par de óculos escuros que lhe encobria boa parte do rosto. Logo se foi. E, ao sair, desejou a todos nós que Deus nos livrasse das ondas do coronavírus… que estariam por vir.

– Essa questão dos preços desenfreados dos derivados do petróleo é, na minha pobre opinião, um caso grave e obscuro. – O ex-professor de Química, com ar professoral, os óculos derreados até bem próximo da ponta do nariz, fez um comentário tão interessante que atraiu a atenção de todos os integrantes do grupo. – Vejam bem, vocês. Um dia desses, ouvi na rádio CBN, a entrevista de quem se dizia ser especialista em negócios internacionais no segmento petrolífero. Segundo ele, o ponto ótimo pretendido e a ser alcançado pela Petrobras seria a paridade do preço da gasolina… ele disse “gasolina”… não se referiu a combustíveis, genericamente… a paridade com o dólar. E ressaltou: “Um litro da gasolina igual a um dólar.” Pelo que sei, com a constante desvalorização do real, não vou me surpreender se essa coisa disparar em direção à estratosfera… (Convém ora consignar que a nau verde-amarela já dobrou este Cabo das Tormentas… e vai indo… vai indo… à deriva, mas vai.)

O senhor de número 3, identificando-se como ex-servidor, ora na inatividade, da universidade (UFC/Reitoria) – “Isto aqui também me pertence!”, observou, apontando para o piso, num gesto metonímico (a parte pelo todo) com a fleuma que parecia ser-lhe peculiar – discorreu sobre o tema com serenidade:

– O que acontece com o petróleo, a meu ver, também ocorre com outros produtos genuinamente nacionais. Deveria pertencer ao povo brasileiro, mas não… está sob o humor, ou melhor dizendo, sob o jugo do mercado internacional. Agora, interessante é que os entendidos de economia defendem essa anomalia, a meu ver, repito. Argumentam que os preços têm de acompanhar o mercado, que é conduzido à base do dólar, para que a Petrobras possa oferecer rendimentos atrativos aos seus investidores, remunerar bem o capital deles, das ações da empresa por eles detidas. Ora, amigos, quem é o sócio majoritário da Petrobras? Isso. O governo brasileiro, ou seja, o povo brasileiro. Vocês têm ideia de como esse capital, a fatia do bolo… a fatia maior… que nos pertenceria, é remunerado? Que ganhos temos pelo investimento público mantido no capital da Petrobras? Só lhes garanto uma coisa: eu não sei!

– Algo parecido, amigo, ocorre com a indústria farmacêutica. Extraem insumos da nossa flora, recebem gordos incentivos do governo, desenvolvem suas pesquisas usando pessoal qualificado com educação bancada com recursos públicos, mas os remédios, que daí se originam, vão para as prateleiras das farmácias, muitos deles a preços abusivos. Há até quem rebata essa crítica citando as políticas públicas de oferta de produtos a preços módicos e até com gratuidade. Esquecem esses que políticas públicas se sustentam à base de recursos orçamentários. Ou seja, quem banca somos nós. – Explanou, a seu modo, o senhor das estacas de concreto reto.

A senhora de número 9, também professora universitária, na Ciências Sociais, certamente já na inatividade, instilou umas gotas de política no colóquio, sem perder a elegância:

– E para complicar, senhores, o presidente dá contínuas demonstrações de plena e total incompatibilidade com o cargo. Não sei o que os senhores pensam sobre este crítico momento em que ora vivemos, mas convencida estou de que, infelizmente, o país padece de desgoverno… com congressistas incapazes de agir eficaz e efetivamente. Em meio a grave crise institucional, e o presidente teima em remar contra a maré. Alguém podia até dizer a ele que a conquista das pessoas, eleitores e contribuintes, depende fundamentalmente de dois fatores: a educação e o respeito mútuo. Se é que ele sabe o que isso significa…

– Professora, a senhora não acha que cada povo tem o líder que merece? – O número 13 (eu) indagou-lhe.

– Meu Deus, o que eu fiz, o que nós fizemos para merecer este que está aí?! – Contestou, com incontida impaciência, a mestra.

– Eu só sei que vou votar no barbudo, só pra tirar esse energúmeno do poder… – Quem isso afirmou categoricamente foi o senhor de número 5, já avançando duas posições na fila de espera. – E o senhor, vai votar em quem? – Com o olhar questionador, dirigiu-me a pergunta.

Refleti um pouco. Olhei ao meu derredor. Percebi que todos me olhavam com um enorme ponto de interrogação que, assentado na lombada do nariz, perfazia toda a curvatura pelos sobrolhos. Criei coragem – afinal, quem nada deve, nada teme – e respondi-lhe:

– Bem. Costumo dar-me o rótulo de eleitor diferenciado. Nada de especial; apenas diferente. São muitas as frustrações. Não faço as minhas escolhas movido pela emoção. Respeito quem age assim. Procuro pôr umas pitadas de razão antes de abrir o cardápio…

– Poupe-nos desse discurso todo, senhor! – Quem agora entrou na conversa, com ar de tempestuosa indignação, foi a senhora de número 6, até então silente e aparentemente desinteressada pelo assunto. – É só dizer um nome… Simples, assim.

– Perdoe-me, senhora! Desculpem-me vocês todos! Na verdade, eu sei apenas em quem não vou votar… Sou avesso a polarizações, de qualquer ordem. Não advogo para corruptos, ativos ou passivos, nem para incompetentes e malcriados. Em nome da liturgia do cargo. – Dito isso, calei-me.

O ex-professor de Química advertiu-nos:

– Vocês não acham que está muito cedo para discutir uma eleição que só vai acontecer daqui a um ano? Há tantos problemas para se resolver… e ficam essas lideranças fajutas desviando a atenção do povo para questões que só interessam a eles. Eu acho até que o meu título já perdi… E lhes digo que não sinto a mínima vontade de achá-lo. Até porque quando eu for precisar dele, votar, pra mim, já terá deixado de ser obrigação. Posso então me abster.

Fez-se o silêncio, novamente.

O senhor de número 4, parecendo ser o mais idoso do grupo e se apresentando como engenheiro aposentado do DNOCS, disse-nos, com voz meio abafada, estar ali para fazer o recadastramento. Então falou-nos, mais claramente, que a filha, profissional atuante na área da psicologia empresarial, uma vez houvera observado que a quem deseja tornar-se interessante para alguém cumpre, necessariamente, mostrar-se interessado por ele ou ela, sob pena de não fazer jus ao que pretende. E tornando minhas as palavras da minha filha, – concluiu – os entendedores entenderão. E calmamente avançou para a posição mais próxima do atendimento.

A última da fila, aparentando ser a mais jovem da turma, que até então se mantivera mais atenta à tela do celular, essa senhora bem apreciável no modo de vestir-se e portar-se fez, de repente, um desabafo que em todos nós muita surpresa causou, não pelo conteúdo, mas pela forma:

– Pô! Esses marginais não têm mesmo jeito, não! – E, sem desviar o olhar para qualquer um de nós, prosseguiu. – Desde o momento em que entrei nesta agência, insistem em estabelecer contato comigo… e de Belo Horizonte, pasmem! Pelo que tenho percebido, querem que eu aceite fazer um negócio, um investimento caído dos céus… em bitcoins! (A senhora de número 12, minha vizinha do lado esquerdo, voltou-se para mim e sussurrou: Que diabo é isso? O senhor sabe? Em voz baixa, a mão direita em concha, esforcei-me em esclarecer: Bitcoin é uma moeda, um tipo de dinheiro eletrônico, que só circula na forma digital, não física como as que usamos, e não sofre o controle de qualquer país. Pareceu-me não haver entendido bem, mantendo-se alheia ao que acontecia ao seu derredor.) Garantem eles que isso me renderia bem mais que todas as outras modalidades de poupança e investimento. O pior é que não sabem, nem sequer desconfiam que não tenho perfil para riscos financeiros de qualquer natureza e, mais ainda, não disponho de lastro que neles possa despertar tamanho interesse. Sabe, isso me cheira a cilada a engodo! – Tornou o olhar para a tela do celular. Certamente era ou fora executiva em segmento financeiro.

– Celular e bitcoin, mistura perigosa. – Com essa observação, atraí a atenção dos demais. E prossegui. – Há dois dias, enviaram-me um e-mail de ameaça. Um texto até certo ponto longo, carente de coerência e coesão textuais, ou seja, de uma sequência lógica, além de recheada de afrontas à língua portuguesa. Informavam que teriam vasculhado todos os meus acessos a sites vários e, com base nos resultados obtidos, traçado um perfil que me revelava ser contumaz em navegações por sites pornográficos. Teriam, então, produzido um longo vídeo consolidando esses desvios comportamentais meus, ameaçando enviá-lo a familiares, amigos e pessoas com quem me inter-relaciono mais frequentemente. Eu poderia evitar isso. Bastava fazer a transferência para uma determinada conta, mantida não sei por quem em agência bancária paulista, de um valor em real equivalente a 800 bitcoins, algo em torno de R$4.500,00 à época. Enviei-o, de imediato, à lixeira. Alertei as pessoas mais íntimas sobre essa possibilidade, lembrando que todos me conheciam e não seria qualquer “armação” de marginais eletrônicos que poria em risco a minha sempre ilibada reputação.

A executiva retomou a palavra, agora olhando para mim:

– Enquanto o senhor falava, mais duas tentativas de contato… Eu vou é desligar esse troço! Pelo menos enquanto estiver no interior desta agência. – Fê-lo.

Outros assuntos permearam as conversas, agora com número reduzido de interlocutores. Chegou a minha vez. Fui muito bem atendido. Permaneço vivo até para o sistema previdenciário que sustenta a mim e a minha família. No próximo ano, procederei como então definir as normas aplicáveis. Ao sair da agência, os relógios marcavam, exatamente, doze horas. Meio dia, então. E, assim, eu retornava à desejada zona de reconforto.

(…)

Hoje, previdentes leitoras e leitores, surpreendi-me com um reencontro improvável. Reconhecemo-nos na fila do caixa de autoatendimento bancário, no primeiro andar do mercado São Sebastião. Era ele, sim, o senhor das estacas de concreto reto. Não me poupou da pergunta que certamente o incomodava. Fê-la.

– O que o senhor acha do recuo do presidente?

– Eu faço duas leituras, amigo. A primeira em face do comportamento instável, inconstante e mutável que ele tem adotado, o que dá ao recuo o revestimento de “desconfiável”. Costumo chamá-lo, por isso, de capitão-maré ou mito-maré. Diz de manhã; desdiz à tarde. Assim, muitos desconfiam de que esse recuo não garanta perenidade. Parece mais com estratégia política. Quando menos se espera, virá mais um estouro da boiada. A outra em face do relacionamento com os seus seguidores. Os que concordarem com o recuo, certamente mandarão um recado ao líder: Embora seguindo-o, não aprovávamos o modelo de liderança por Vossa Excelência até aqui adotado. De outro modo, os que discordam do recuo também postarão mensagens nas redes sociais, ao líder endereçadas: Fomos traídos! Se estamos na luta, não há como aceitar recuos! Covardia, não! E o presidente é quem mais perdeu nessa desenxabida… e temerosa!… estratégia.

Chegou a vez dele de ir ao caixa. Logo depois, a minha. Despedimo-nos. Ele deixando transparecer ser lulista desde a mais tenra idade. Eu com as minhas dúvidas, incertezas e desconfianças.

Sem em mim causar a mais anêmica das surpresas, quem ora me interpela é o venturoso permissionário “dose dupla” – com venda de doces e salgados no atacado (no térreo) e de material de limpeza e conservação (no primeiro plano). Ex-militar e ora atuante empresário do comércio, jamais nega ser seguidor do bolsonarismo, segundo ele, dada a profunda frustração que lhe causou o petismo. Indagou-me, de pronto, como se a nossa conversa já se arrastasse há algum tempo:

– Você sabe por que os motoqueiros apoiam o Capitão? Por que aderiram às motociatas?

– Não sei… – Respondi-lhe também prontamente, sem acrescentar, por receio de ser incompreendido, um dos usuais complementos da popular expressão, qual seja “não quero saber e tenho raiva de quem sabe”.

Ele retirou do bolso da camisa polo cor de vinho o celular – um desses “ais” modernosos, cuja função menos expressiva é a de telefone – e logo me mostrou na luminosa e icônica tela uma postagem que só alcançou o meu exigente, no específico caso, nível de entendimento quando ele justificou a razão de fazê-lo (ou “fazer isso”):

– Professor, o valor do DPVAT de motos ultrapassava a casa dos trezentos paus… Hoje, pouco passa de doze… Ou pra ser mais preciso, é de doze reais e vinte e cinco centavos. Sabe quem fez isso? Quem desmontou o esquema do roubo sem retirar qualquer direito até então assegurado aos motoqueiros? Sabe quem?! Ele. O Capitão. A categoria abraçou o homem. Você acha que ele não merece isso?

– Merece, sim. É claro. Eu só acho, amigo, que o brasileiro continua negociando muito mal o seu voto… – Quase dizia tudo o que pensava a respeito. Não consegui.

– Como assim?! – Cobrou-me incisivamente um esclarecimento.

– Antes a crítica se dirigia aos votos de cabresto, atados a nó górdio à vontade dos coronéis. Depois surgiram os votos vendidos, ou melhor, os trocados por dentaduras, óculos, tijolos, telhas, cimento, barro, areia… Agora, temos um upgrade… e um voto para presidente alcança a bagatela de cerca de trezentos reais anuais. Pior que as bolsas que pagam quase isso ao mês. Convenhamos, amigo, assim fica difícil discutir sobre política neste país. Deixou de ser um assunto sério…

– Mas você também é muito exigente…

– Pois é. Talvez aí resida o meu problema. De difícil solução… É o que me  parece.

Despedimo-nos. Ele resistente na opção que fez. Eu, agora ainda mais, com as minhas dúvidas, incerteza e desconfianças. Hei de resistir. Sempre! E isso me reconforta.                                                     

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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