“Vítimas do amor ruim”

Na sala de espera, dois sofás, formando um L. Sentei-me no primeiro; elas já ocupavam o segundo. Eram duas senhoras que, apesar da curta distância, ignoraram a minha presença e conversavam, como se tomassem o chá das 5.

Eu, nervoso, na iminência do dentista, abri maquinalmente o celular. Mas, sem bisbilhotice alguma, interessei-me pela conversa e me distrai.

Pude perceber que elas vinham de uma geração anterior à minha… Imaginei: Quando eu me ocupava de gaiolas e de canários, elas já roubavam o sono aos pais, namorando no portão…

A conclusão era óbvia, pois falavam de boleros e de bailes da jovem guarda! …No meu tempo, a jovem guarda já estava velha… (Eu venho de Bee Gees a Michael Jackson). Mas confesso que invejei um dois pra lá, dois pra cá.

Enquanto uma cavava evocações no fundo da memória, a outra ficava com os olhos parados no tempo …e um meio sorriso nostálgico nos lábios…seguindo uma teoria do escritor Raul Pompeia, sobre a saudade, eu diria que elas estavam a voar nas asas de uma saudade hipócrita.

Ah! mas, se o passado é um atalho colorido; o presente é o caminho inteiro, com cascalhos e espinhos! … Elas voltaram! … Não dá para se afastar muito… (“O presente é tão grande! Não nos afastemos muito. Instou Drummond) …Voltaram como quem salta de um sonho dourado a um pesadelo.

Este mundo está uma porcaria, disse uma. Ao que a outra emendou: Tudo por causa do comunismo!…

Quase saltei do sofá mas silenciei o meu instinto de professor… Nesse conceito (muito peculiar) de comunismo, incluíam as relações homoafetivas, as coreografias da juventude, as novelas da Globo “lixo”… E, para não restar qualquer dúvida, assacaram (como exemplo inequívoco) umas tatuagens, numa região pouco ortodoxa, para tal, do corpo de Anitta.

Garanto que não ri… E até pensei em intervir, naquele “moinho de vento”Mas, como não tenho o desassombro de um D.  Quixote, recuei… De mais a mais…como interferir naquela fantasmagoria, se não restara um mísero nexo com a realidade?… Como, Santo Deus!… solidarizar as tatuagens impudentes de Anitta, com um sistema sociopolítico e econômico?

Fiquei a pensar na ingrata missão dos meus amigos comunistas… Oh! Meus valorosos camaradas! …que tarefa árdua a dos senhores!…pois, antes de qualquer tecido palpável, se faz mister a paciência e a resiliência de uma Penélope (para desfazer esse sudário de vento).

Da minha parte, vejo o comunismo como uma bezerra, num pântano, para muito além do brejo, imune a qualquer sopro de berrante…Resgatá-lo seria operar um milagre intelectual!

Imaginemos: não existe efeito sem causa. Portanto, antes de suas revoluções e de seus próceres, haveria de haver toda uma contextualização. Uma custosa caminhada (uma jornada de Santiago) pelas ideias de Marx, pela Rússia dos czares, pelo ópio chinês, pela devassidão cubana…Só então, poderíamos chegar a Lenin, a Mao, aos irmãos Castro e Che Guevara…

Contudo, tentemos, ainda que mais não seja, para restituir a verdade e levar alguma dignidade à sua memória, não permitamos, pois, que o sonho de tantos camaradas receba (como réquien) uma tatuagem no derrière de Anitta.

Esses espetáculos de dissonância cognitiva, entre os madurões infelizmente não são fenômenos isolados. Contudo não os vejo como motivo de memes, de chacota…Não há nisso espaço para alívio cômico, senão para preocupação.

Houve, com efeito, uma orquestração para sequestrar consciências e transformar pessoas (especialmente as mais idosas) em títeres de uma causa alheia…Nisso há um dedo malandro do capitalismo, pois misturar comunismo comquestões morais, é sempre o velho truque infalível.

Isso me faz lembrar aquela crônica “um amor conquistado” de Clarice Lispector. Uma leitura de cinco minutos que vale por uma vida!

Um homem passa diante da estação, puxando um quati, como se fosse um cachorro. E, de tanto fazer o papel de cão, o bichinho já se comportava como tal. Ela reflete que, se àquele animal fosse dado saber quem realmente era, ele odiaria o homem e o abandonaria para sempre. Para Clarice, aquele bicho era uma “vítima do amor ruim”.

Assim, como o quati da crônica, muitas pessoas, especialmente as mais idosas, estão expostas à ostentação pública (a colherem o riso ou a dó) …Às vezes, fantasiadas com as cores da pátria (como se patriotas fossem)… são levadas a acreditarem em fantasmas que desafiam o melhor do realismo fantástico!

Nem Érico Veríssimo (no seu Incidente em Antares); nem José Saramago (na sua Jangada de Pedra) se atreveriam aos extras terrestres, às chuvas artificiais, aos fantasmas que povoam os grupos de WhatsApp…

Na minha visão empírica (sem nenhuma pretensão, além do olhar), acho que essas criaturas não fizeram uma transição saudável…perderam-se nas estações e ficaram à mercê da pátina do tempo…

Estive com amigos, após o hiato da pandemia, porém vi-os tão reacionários que fiquei a pensar: Quando o vagão do tempo passou, vocês não estavam.

De fato, são almas estacionadas (ou mesmo retrocedidas)a um tempo que jamais viveram…  Homens e mulheres, com capacidade de contribuir, de criar e até de amarmas que se atribuíram uma data de validade… e se tornaram os exilados do tempo!

Vi-os estafados, malcriados, porque queimam suas energias com o imponderável da sexualidade alheia, como se quisessem dar conta do que rola na cama, entre as pessoas…Como voyeurs… participam do espetáculo da vida apenas por frestas!

Sonham com os “bons tempos”, quando podiam fazer piadas com negros e gays e (todos eram felizes!) Mas será que as mulheres pretas sentiam-se contempladas, nas caricaturas de negras malucas, no carnaval?…E os homens, nas figuras de atores brancos, pintados de pretos velhos?…E os gays (em mil trejeitos) nos programas de humor? …Se dependerem disso, para serem felizes, (como não tem mais volta), hão de morrer de tédio!

Se alguém me pergunta (como o fez o professor Camilo França) sobre a origem dessa distopia… Sinceramente não sei…Até porque os fenômenos sociais não têm uma certidão de nascimento. Eles advêm de gatilhos…

Mas um deles (tenho convicção) foi a política dos AFETOS ou dos valores AFETIVOS.

Partiu-se do tripé: Deus, pátria e família. A partir daí, abriu-se um combo de infinitas possibilidades e de esdrúxulas combinações…O curioso dessa política é que ela exime o demandante de qualquer resultado prático, de qualquer coisa tangível.

Ora, quem vai se enredar com casa própria, emprego e renda, se basta frequentar igrejas, vestir verde e amarelo e hastear bandeira? … Quem vai construir escolas e hospitais, se basta uma infalível receita de família? …

Vejam-se os ingredientes: Tome-se um ambiente devidamente hétero. Com meninas vestidas de rosa; meninos, de azul. Um marido viril naturalmente (ou aditivado). Adicione-se uma esposa virtuosa e (devidamente fogosa), sem fadiga, nem dores de cabeça para o sexo…Recolham-se todos os livros…Distribuam-se espingardas a todos…Levá-los sempre aos clubes de tiro e, de lá, para uma igreja (de preferência), evangélica. Na volta, se encontrarem uma pessoa trans, um afrorreligioso, agridam a gosto! … Eis a receita de um bom Brasil!…

Essa coisa carnavalizada, tropicalizada (com elementos díspares, no mesmo espaço) produziu uma arrumação caótica, precária e, sobretudo, perturbadora. A ponto de se fazer arminhas com os dedos, em ambiente evangélico, de se pretender um Cristo com pistola à cinta….de se pôr, lado a lado, um Cristo, torturado; e um Ustra, torturador…De se destruir o patrimônio pátrio, em nome da pátria…

Para absorver esse cardápio, só com muito fanatismo, com muita dissonância cognitiva. Nesse percurso, muitos se perderam… Perderam-se, muito, por conta de um sistema educacional falho, que dissocia a leitura da palavra da leitura do mundo…

Ah, Paulo freire! … Os que te xingam, sem te conhecer, poderiam ser salvos por ti. Aliás, li recentemente que teu nome fora apeado de um metrô, em São Paulo, para embarcarem o de Fernão Dias…Isso equivale (como se diria no meu sertão) a amarrar o burro no rabo do dono!

Finalizo meu texto com um apelo:

Oh, meus brotinhos da jovem guarda!… Oh, minha gente do sábado à noite!…Vivamos o que nos resta deste latifúndio, que é a vida, sem atravessar o samba da civilização…sem nos colocarmos com troncos de enchente, na correnteza inexorável do tempo!…Lembrando que o milho só nasce do milho! … A política (se bem produz), traz frutos de textura material… O que passar disso…. é mais valia malvada… é o afago de um “amor ruim”…No mais, reservamos nosso melhor pensamento, não para a alcova dos outros, senão para a nossa própria alcova.      

Francisco das Chagas Oliveira Macedo

Francisco das Chagas Oliveira Macedo (Prof. Macedo) nasceu em Picos, sertão do Piauí, em 1960. Graduado em Letras pela UFPI, leciona língua portuguesa e literatura, nas redes pública e privada, em Teresina.