Vidas

No sofá do seu avô não sabia bem como se soltar do abraço daquela que era sua prima afastada. Ali ambos transpiravam há mais de uma hora. Havia sorrisos. O abraço sem roupa parecia um ritual sem palavras. Eram oito horas e havia mais uma jornada de trabalho pela frente com o seu avô. Aquele dava-se a conhecer como o alfaiate de Sintra. Cada um tinha, com efeito, o seu ritmo e método de trabalho e o avô fazia sempre vista grossa. Nem sempre trabalhavam noite e dia. E aquilo que desafiava mais o génio daquele alfaiate era a posição do corpo de Félix, que trabalha quer em bicos de pés quer em cócoras. O “caça-sonhos” vermelho da avó rodava sem parar junto de Félix.

“É o mundo a acontecer”, disse Félix em voz alta.

Era Verão, o calendário assinalava o ano de 1755. Sintra encontrava-se sob uma espécie de tecido de fogo que aparentava vir dos montes. No souto fidalgas abanando completamente os leques, um ou outro fidalgo agarrando-se ao copo de vinho. Da roupa repleta de cor saía-lhes fumo, havia quem o pensasse. Mas a serra já começava a arder. Depois, a prima afastada voltou para casa, em Santarém. Por sua vez, Félix chegou tarde ao trabalho. Não era nenhum foguete. Há anos que ele mancava um pouco. Já ninguém o olhava de soslaio, mas um riso por detrás da porta parecia ser frequente. Não se importava. O brilho grande perdeu-se lá no passado, os dias outonais em casa com a sua avó, que encerava, qual reza ou prece, o chão em silêncio, enquanto um bolo crescia ao lume. Aquele chão encerado da avó. O seu “caça-sonhos” vermelho rodava sem parar na grande porta. E Félix, a criança que borrava a cara de chocolate, punha-se ali ao pé dela de joelhos e mostrava-lhe um sorriso de orelha a orelha.

“Até já num sonho!”, disse Félix em voz alta.

A sua avó morrera há anos devido a uma queda na sala. O seu avô vestia-se de preto da cabeça aos pés. Nunca mais desejou nenhuma mulher na sua vida. Quem é que o podia condenar? Via-se que as perturbações de humor de Félix exercitavam o cérebro do avô no dia-a-dia. O seu trabalho no meio de tesouras, lápis e metros parecia-lhe garantir uma paciência de Jó. Na alfaiataria do seu avô alguns modelos em voga caracterizavam-se por padrões e materiais que provinham de África. Eram, aliás, naquele Verão modelos que Félix tentava estudar e fazer sem ajuda. África na ponta da tesoura. Mas o calor apertava-lhe o peito vezes e vezes sem conta. Às vezes, não se levantava da cama. As dores intensificavam-se, havia choro. Félix faltava ao trabalho e o avô fazia-lhe tudo em silêncio, às escondidas.

“Não desapareças de um momento para o outro, és fundamental para mim”, disse Félix em voz alta.

Os seus pais emigraram há muito tempo. É após a primeira visita a Lisboa que Félix fica manco. Já não tinha avó, chorava a sua morte, de vez em quando. Ele tinha 14 anos e fazia-se acompanhar, em Lisboa, por aquela que deveria ser sua noiva. Já estava arranjado na cabeça dos familiares. Félix casaria com aquela filha de um diplomata. Mas aquele passeio resultou trágico. Enquanto caminhavam, Félix contava à filha do diplomata uma visão que teve de madrugada. Anunciava-se que ele sofreria um ataque numa rua de Lisboa. Alguém o aleijaria na zona da cintura. Ela gargalhava sem parar, o seu nariz tremia. Quando não gargalhava, o queixo baixava-se. Em toda a parte aparecendo chocolates. Apresentava-se ali uma Lisboa dos chocolates. Sem mais conversa o passeio continuou e ambos estacaram junto a uma loja de plantas. Havia ali uma guerra de vozes. Depois, um homem de sacas na mão fugira como um foguete e um maço que veio a voar daquela loja aterrou na anca de Félix. Aquele gritou até desmaiar.

“Eu confio em ti, ensinar-me-ás a sentir de novo”, disse Félix em voz alta.

Para Félix houve uma frase que mudou tudo. Ele romperia o noivado. Não sentia nadinha por ela, tinha-se enamorado da tal prima. A vida deles seria, então, em Sintra, que Félix detestava Lisboa. Jamais viveria com uma mulher senão em Sintra. No fim de Outubro eles casariam no Monte do Silêncio impregnados da energia do mesmo que sempre moveu céu e terra. A prima afastada cuidando dele. Era como uma santa, mais velha. Félix teve recentemente uma visão na qual a baixa de Lisboa era atingida por um terramoto. A visão ou o sonho ganhava forças a pouco e pouco. Algo lhe dizia que tudo aquilo estava quase a acontecer, talvez no mês de Outubro. Novembro. Talvez dia um de Novembro daquele ano. Félix sabia que era necessário salvar-se. Afinal de contas, como é que alguém podia viver assim em paz, em Lisboa, que a todos podia condenar? Não era tempo de gargalhadas nem de arranjos. À parte o sector do vestuário.

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Jaime Soares

Jaime Soares nasceu a 14 de Janeiro de 1987, em Vila Nova de Famalicão. É licenciado em Línguas, Literaturas e Culturas (Português/Inglês) e mestre em Estudos Anglo-Americanos (Literatura e Cultura), pela Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Em 2016, foi-lhe atribuída uma bolsa pela Associação Luso-Britânica. Por um período de um ano trabalhou no CETAPS (Centre for English, Translation, and Anglo-American Studies), Universidade do Porto, ajudando a desenvolver actividades culturais e académicas como, por exemplo, seminários com docentes e escritores, assim como sessões de cinema. Jaime Soares apresentou algumas comunicações em conferências no Porto, em Braga e em Boston (neste último caso, in absentia). A revista da Don DeLillo Society inclui um artigo da sua autoria intitulado “Don't blame the players, blame the 'system': a systemic reading of Don DeLillo's The Names” (2017). Em 2018, ganhou o Prémio Literário Germano Silva com a obra A cor verde (edição Editorial Novembro). Atualmente trabalha na indústria têxtil e lê e escreve nas horas vagas.

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