VIDA DE GADO

Na segunda-feira passada, 04, tivemos a oportunidade de em entrevista concedida à jornalista Jocasta Pimentel, da FM Dom Bosco, explicitar nossa visão a respeito da importância da articulação que as forças democráticas no Congresso brasileiro estão a realizar na busca de eleger no próximo dia 1º de fevereiro uma Mesa Diretora da Câmara Federal que seja capaz de manter-se altiva e comprometida com o regime democrático, diante da ameaça contínua de autoritarismo desde o momento em que o candidato da extrema-direita Jair Bolsonaro foi eleito presidente em 2018 pelas forças reacionárias deste país.

Em seguida, no dia 05, publicamos no site Segunda Opinião o artigo “Pedras e Altares” (https://segundaopiniao.jor.br/pedras-e-altares/) versando sobre uma breve análise dos fundamentos básicos presentes em todos os sistemas religiosos, segundo a clássica pesquisa do sociólogo Émile Durkheim, centrados na Crença, Ritos e Assembleia (Igreja), com o qual buscamos fazer uma analogia com o momento político vivido pelo Brasil no qual se desenvolve uma ideologia autoritária do dogma, literalmente inspirada naqueles princípios religiosos, a qual visa carimbar de forma absoluta e sagrada certas representações temporais e alguns personagens do governo federal, demonizando tudo o que lhe for adverso.

Ontem, 06, o mundo pode presenciar a ideologia do dogma em ação. Viu-se como o gado estadunidense reagiu ao comando do seu pastor. Incitada por Donald Trump, pelo Twitter, a invadir o Capitólio, sede do Congresso estadunidense, a manada branca trumpista obedeceu-lhe cega e prontamente. Um dos resultados pontuais foram quatro pessoas mortas pela a ação da manada. Se tivesse ocorrido na Venezuela, a mídia hegemônica taxaria Trump como ditador; caso ocorresse em países da América Latina, a mídia diria que era um golpe de Estado; se fossem negros sob o comando de Obama a invadir o Capitólio, teria ocorrido um genocídio de cor pela ação policial e Obama estaria preso em Guatânamo. Mas a Globo apenas notificou que era preciso desinflar aquela polarização.

Aqui no Brasil, esse ensaio de ação de manada foi iniciado pela direita na ação do então deputado federal Aécio Neves ao questionar o resultado das urnas em 2014. Em seguida colocou-se em movimento um golpe híbrido (https://segundaopiniao.jor.br/acoes-largamente-planejadas/), articulado pela mídia hegemônica, capitaneado pela Rede Globo; setores do judiciário, sob a batuta de Sérgio Moro e Dallagnol; parte dos militares, sob o comando do general Eduardo Villas Bôas; partidos políticos comandados pelo PSDB e PMDB. Depois de haverem conseguido o seu feito em 2016, depondo Dilma Rousseff sem que ela houvesse cometido crime algum e retirado temporariamente os direitos políticos do presidente Lula, agora em 2021 estão sem saber o que fazer com o inqualificável presidente e seu rebanho-milícia que colocaram no Poder.

Importante registrar que o ano de 2021 começou, no Brasil de Bolsonaro, com o IGP-M (Índice Geral de Preços do Mercado) que mede a inflação anual, com um aumento de 23,14% em 2020. Número igual a este ocorreu 20 anos atrás, no final do segundo governo FHC. Com esse índice de inflação são reajustados, por exemplo, os aluguéis, a energia elétrica, a telefonia. Mas em contrapartida, o salário mínimo teve o irrisório ajuste de 5%, passando de R$1.045,00 para R$1.100,00 (um mil e cem reais). E como agravante Bolsonaro declarou, na terça-feira, em mídias sociais, que o Brasil está quebrado e ele não sabe o que fazer. E é esse o presidente que quer se reeleger pelo voto popular.

Hoje, 07, o editorial do jornal golpista de 2016, Estado de São Paulo (Estadão), diante dos diversos atentados de Bolsonaro – que o jornal apoiou para presidente – contra a democracia e contra a sociedade, afirmou: “Mas o problema não é apenas que o presidente Bolsonaro seja incapaz de cumprir suas promessas. O grave é que Jair Bolsonaro, além de não construir, faz questão de destruir o que está de pé. Tal ímpeto demolidor ficou evidente, por exemplo, na declaração de terça-feira. Se o presidente está mesmo convencido de que o Brasil está quebrado e não pode fazer nada, é imperioso – para o bem do País e dos brasileiros – que renuncie o quanto antes”.

Para um grupo de pessoas deixar a condição de gado é preciso desenvolver o espírito crítico, rever crenças, ritos e assembleias com os quais desenvolvem o dogma como centralidade de sua fundamentação devocional. Impossível pensar um regime democrático maduro e resistente com ovelhas comandadas cega e automaticamente por seus pastores, eleitos ou não. Soberania não se transfere, diria Rousseau. Uma pessoa de fé, mas com uma razão débil, como lembra João Paulo II, sem uma capacidade de discernimento profundo, de espírito crítico, cai no grave perigo de reduzir a sua crença em superstição ou mito (=mentira). Não é à toa, portanto, que toda a campanha eleitoral de Bolsonaro foi baseada no mito, e não na verdade do que ele representa.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

0 comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.